quinta-feira, 11 de junho de 2026

Desolação

Tudo está contra nós. Lutamos uma guerra perdida. Queremos o impossível, sonhamos com o que não existe. Avançamos alegres na nossa marcha rumo ao nada. Corremos contra o tempo, caminhamos e cada passo que damos pode ser o último. 

Nossas células morrem pouco a pouco, nosso corpo enfraquece, debilita-se, a mente também. O tédio nos corrói. O pensamento nos enfada, viver dói, existir cansa. Nosso ser quer se libertar, não quer mais sentir, ter vontades que nunca se saciam, necessidades que nunca se satisfazem, desejos que não são alcançados, dores que perturbam, problemas que nunca acabam e dores que sempre se renovam. Tudo isto tira-nos a paz!

Paz é o que queremos e é tudo o que nesse mundo não podemos ter. Nos desesperamos ao ver que não temos saída, estamos presos neste corpo, reféns da vida, condenados a viver. A vida é uma prisão sem grade, mas uma prisão. Desejamos a liberdade, mas não nos atrevemos a buscá-la. Podemos sair quando quisermos, mas nos falta coragem para tanto. 

Porquê ainda estamos aqui? Porquê continuamos afinal? Não sabemos, esta é uma pergunta que não podemos responder. A centelha de vida que nos move é algo fácil de nos livrarmos mas que por alguma razão preferimos manter. A vida é um milagre e um horror, uma benção e uma maldição, uma dádiva e um fardo, dependendo da maneira que a experimentamos.

Sonhamos com o fim. Esperamos o momento em que tudo terminará, quando não teremos mais lutas, dores, necessidades, angústias, aflições, doenças, problemas, preocupações, quando nada voltará a nos chatear, quando não abriremos mais os olhos, o dia em que seremos livres, o dia em que tudo acabará.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Consciência


Este é o reino dos sentidos, o inferno das sensações. A consciência faz com que o homem seja de todos os seres o mais sensível ao sofrimento. Pode-se dizer que de todas as criaturas somos as mais miseráveis. 

Não que a consciência seja sempre má, mas ela é em si algo ruim, pois a mesma consciência que nos leva a sentir sensações prazerosas, agradáveis, nos faz sentir dores terríveis, emocionais e físicas. Não há dúvidas de que a dor física é a pior porquê se faz sentir com mais intensidade, mas as dores emocionais não são por isso menos reais (para aquele que a sente é o que há de mais real).

O homem foi moldado para a dor, tanto quanto a madeira para o fogo. Sua natureza, sua constituição, sua condição, tudo favorece o seu sofrimento. A frustração, a insatisfação, a infelicidade no geral, tudo isto é consequência lógica do seu ser, de sua existência. Não há como mudar os fundamentos do seu ser, não é possível existir de outra maneira, viver sob outras condições. Como escapar da dor? Não nascendo, de outra forma não há escape.

Poderíamos considerar o homem o mais bem acabado produto da natureza, e também o mais infeliz. Um animal que pensa, fala, sente emoções e é consciente de tudo o que faz/sente. Apesar de sua racionalidade, segue sendo um animal, e apesar de toda a sua animalidade, segue sendo um ser racional. Como explicar isso? Ao que tudo indica, o ser humano não possui nenhum ser equivalente a si próprio na natureza. Todos os outros seres são puramente físicos ou espirituais, nenhum oscila entre a consciência e a animalidade, o biológico e o espiritual.

Não é difícil perceber que a consciência traz o peso do conhecimento, da lucidez e da miserabilidade do próprio ser. O mesmo corpo que estremece no êxtase, num orgasmo, num arrebatamento, é o mesmo que grita, chora, padece sobre dores terríveis, atrozes. A consciência é um mal, pois o prazer e a dor são conscientes, mas a dor predomina e ela sim é permanente.