domingo, 22 de março de 2026

Crianças

Pobres crianças inocentes!
Brincam na rua 
tranquilas da vida, 
do mundo descrentes...

Pobres crianças!
Não sabem nada, 
brincam, pulam, gritam...
enquanto tudo gira.

E a minha cabeça quase pira!
Nobres crianças!
Suas vozes infantis 
não assustam como a metralhadora,
nem explodem como 
uma bomba arrasadora.

Não têm medo da morte, 
nem de bala perdida, 
apenas têm sorte
e bastante vida.

Nobres, nobres crianças!
Ver elas é lembrar que há esperança!
Que bom olhar tudo de outro jeito 
nos olhos de uma criança!

Que brinquem, aproveitem,
de boas lembranças se deleitem.
Quem me dera voltar a ser uma delas! 
Mas como não há jeito, 
só posso olhá-las brincar da janela...


Magnificat

Oh! Como é belo o mundo!
Tão belo quanto poderia ser.
Como é linda a vida, 
que mais posso querer?

Há em tudo uma grande sabedoria.
É maravilhoso o sol, 
as estrelas, 
os bichos e o rouxinol!

Se já é bela a noite, 
como é lindo o dia!

Pasmo de encanto olho tudo isso.
Como tudo se preserva 
através das eras, que sábio nos pode explicar 
sem rebuliço?

Não cabe ao homem senão admirar
a sabedoria de seu criador, e então louvá-lo, 
louvá-lo com mais e mais fervor!

 

O tempo

Como é bom pensar 
nas horas vagas e perdidas, 
que já antes passaram,
lembrar das doces tardes quentes ou frias 
que há muito com o tempo voaram.

Tempo é um mistério 
que não posso desvendar.
Como tudo assim passa (voa!) no galope de um tique taque rígido, sério,
como, como se pode explicar?

Vão se com ele as pessoas, 
as más e também as boas, 
nesse caminho para trás ficar.
Levados são os costumes, os medos, 
os amores, as saudades, 
nesse longo cavalgar.

Passa correndo 
com nossas coisas levando.
Vai rápido como uma pena 
que com o vento vai voando.

Os choros perdidos, 
os risos soltos,
os momentos de dor e prazer, 
somem nele envoltos,
sem que nada se possa fazer.

Mas o tempo é maravilha, 
pois em nós deixa a lembrança 
em que é doce meditar.
Em nós deixa o tempo 
a saudade do dia, 
da tarde, das alegrias 
que não se podem agarrar!

Basta a lembrança 
da tarde ligeira, 
do doce roubado que ficou.
Oh, isso, como é bom saber, isso o tempo não levou!

Não levou nem levará.
Esta recordação fica, nada a roubará.
Pois não rouba o tempo 
as nossas saudades, 
não as pode levar.
Já basta a ele arrebatar consigo os fatos, 
e deixar-nos as lembranças para nelas pensar...


O vazio do tempo

São as horas vagas,
o sutil silêncio 
das emoções pagas.
O imenso e vil prazer 
de nada fazer em frações magras.

A vida acontece do lado de fora, e em menos de uma hora tudo nasce e floresce!

Mas comigo nada.
Olho para a estante 
por um instante, 
depois me molho na escada.

O tempo passa, 
os pensamentos não.
Os lamentos em massa...
em vão.

As emoções continuam 
em uma prisão sem fim!
As insoluções revoam,
em meu coração povoam 
trancadas a esmo em mim!

É esse problema 
por que choro e me aborreço.
Nele eu moro 
e não me esqueço...

A chave? Não há.
Peço para que ele se vá, 
mas ele fica.
Em vão tento 
na minha vida de exemplo 
expulsar a sorte má, 
esse vazio do tempo!

Três cães


Três cães dormem na rua. Um homem sorria.
Três cães dormem perto da carne crua
na névoa da noite fria.

Três cães destilam o abandono.
Três cães mostram ao mundo - e vão fundo -
o poder do sono.

Reina a corrupção,
a miséria e a desigualdade.
Pessoas sem ação 
passam reto, olhar discreto, dinheiro na mão,
sem sensibilidade.

Tudo ocorre.
Mas o que importa?
De nada vale a utopia, 
o abrir da porta do ralo e da pia.

Tudo ocorre.
O vento vem,
com ele o frio também!
Sem osso, sem dono, 
ao pé do abandono,
três cães dormem, perto da carne crua, 
na névoa da noite fria!

quinta-feira, 12 de março de 2026

A um cagão atrás da bananeira


Me chamara minha mãe 
com grande pressa 
para espreitar uma cena rara, a janela (testemunha travessa) fui, 
vi um ocorrido que se eu próprio não visse, não acreditara.

Nosso vizinho quase centenário vinha regar as plantas 
sempre no mesmo horário.
Porém não sabia que onde cuidava o velho de seus legumes,
deixava ele também os seus estrumes.

Dança ó debutante a sua mágica valsa!
Não te espantes com essa proeza torta!

Pois eu mesmo vi, por um instante, o velho descer a calça e com seu adubo estercar a horta!

quarta-feira, 11 de março de 2026

Da bondade humana sem Deus

Limpa-te ó pecador 
da nódoa do teu pecado.
Embalde o fazes, 
não podes cessar o clamor da tua consciência,
por ela és acusado.

Teus tesouros, teus bens, 
quanta opulência!
Mas de que te serve?
Roubaste os mouros,
assim conseguiste tudo o que tens,
a ira de tuas vítimas ainda ferve.

Olhas para baixo, 
como se fosses de alguma forma superior.
Não, não o és!
Estás na mesma lama 
do mesmo riacho, 
que levando vai a todos
para além do Equador.

Tu te crias mais elevado
e por isso sentias 
que merecias ser louvado por teus iguais.
Agora sabes que és um pobre coitado,
acordaste de teu sonho lúcido, 
és tão estúpido quanto os demais.

Já não lutas pela justiça, 
te conformas com toda essa carniça.
Estás indolente, vives dormente e hoje, quem diria - não te assustas com a monotonia.

Sabe o quanto te custa 
sair da cotidiana inércia 
e bravamente lutar?
Certamente sim, o sabes,
e por isso não queres o preço pagar.

É sempre mais fácil 
ser apenas mais um.
Em meio a multidão, 
onde se vêem todos 
não se vê nenhum.

Tu segues teu coração!
E acaso tens um?
Esse bem que fazes (julgas fazer) o fazes a quem?
Só para ti e para ninguém.

Há conquistas sem vitória, triunfos sem glória,
honra sem mérito.
E para que saibas o que te sucede, e assim cuide, 
és um soldado sem pátria,
um herói sem virtude!