quarta-feira, 10 de junho de 2026

Consciência


Este é o reino dos sentidos, o inferno das sensações. A consciência faz com que o homem seja de todos os seres o mais sensível ao sofrimento. Pode-se dizer que de todas as criaturas somos as mais miseráveis. 

Não que a consciência seja sempre má, mas ela é em si algo ruim, pois a mesma consciência que nos leva a sentir sensações prazerosas, agradáveis, nos faz sentir dores terríveis, emocionais e físicas. Não há dúvidas de que a dor física é a pior porquê se faz sentir com mais intensidade, mas as dores emocionais não são por isso menos reais (para aquele que a sente é o que há de mais real).

O homem foi moldado para a dor, tanto quanto a madeira para o fogo. Sua natureza, sua constituição, sua condição, tudo favorece o seu sofrimento. A frustração, a insatisfação, a infelicidade no geral, tudo isto é consequência lógica do seu ser, de sua existência. Não há como mudar os fundamentos do seu ser, não é possível existir de outra maneira, viver sob outras condições. Como escapar da dor? Não nascendo, de outra forma não há escape.

Poderíamos considerar o homem o mais bem acabado produto da natureza, e também o mais infeliz. Um animal que pensa, fala, sente emoções e é consciente de tudo o que faz/sente. Apesar de sua racionalidade, segue sendo um animal, e apesar de toda a sua animalidade, segue sendo um ser racional. Como explicar isso? Ao que tudo indica, o ser humano não possui nenhum ser equivalente a si próprio na natureza. Todos os outros seres são puramente físicos ou espirituais, nenhum oscila entre a consciência e a animalidade, o biológico e o espiritual.

Não é difícil perceber que a consciência traz o peso do conhecimento, da lucidez e da miserabilidade do próprio ser. O mesmo corpo que estremece no êxtase, num orgasmo, num arrebatamento, é o mesmo que grita, chora, padece sobre dores terríveis, atrozes. A consciência é um mal, pois o prazer e a dor são conscientes, mas a dor predomina e ela sim é permanente.

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