quinta-feira, 25 de junho de 2026

Da natureza do caos

Apenas mais um exemplar da espécie.
Tal declaração, simples e direta, seria a mais plena e pura verdade se não estivéssemos nos referindo a uma espécie que é o maior de todos os mistérios: o homem. Quem nunca se sentiu apenas mais um? Em meio aos bilhões de seres humanos existentes, é natural que nos sintamos assim. Mas o fato é que somos muito para nos considerarmos pouca coisa, e nossa riqueza reside no fato de não sermos iguais. A espécie produz infinitos exemplares. Mas, singurlamente falando, ela cria diferentes indivíduos, e é nisso que está nosso diferencial.

Só se vive uma vez.
O peso dessa declaração ainda não pôde ser plenamente compreendido. Quem o diz não se espanta com o peso das implicações da referida sentença. Se só vivemos uma vez, isto significa que tudo o que fizermos (ou deixarmos de fazer) será feito uma única vez, para todo sempre. Não considerando que as circunstâncias não são iguais para todos, há ricos e pobres, bonitos e feios, sadios e doentes, africanos e europeus, escravos e livres, a máxima é: não há reprise. Quem vive 100 anos e morre, viveu 100 anos e morreu. Quem vive 30 anos e morre, viveu apenas 30 anos e morreu. A vida é aquilo que você experimenta, e o que você experimenta é aquilo que você viveu (viverá). Independente das experiências, você morrerá. Você morrerá, e isso é tudo.

Existir é estar.
Existir nada mais é do que estar, marcar presença, situar-se em um lugar, em algum ponto do mapa, em algum momento da história. Cada vivente é um grão de areia na praia do mundo (um impassível inerte que renova a cada época seus participantes). Conscientes ou não, jogamos o jogo da vida, giramos a roda e tocamos em frente. Viver nada mais é do que é estar: porquê ninguém é para sempre. Estamos para o hoje como o hoje está para o amanhã, num fluxo contínuo e indefinido. Dito dessa forma, existir é ocupar um lugar no espaço e na história, representar por um período até que cesse por completo a ação. Ser significa antes de tudo estar, haja visto a impermanência das coisas e de nós mesmos, a vida do homem nada mais é do que um instante na eternidade, e todos os seus sonhos nada mais são do que devaneios que um dia desaparecerão. Existir é exercer um papel, ser apenas mais um personagem. Cada ser existe no espaço e no tempo somente de uma forma pré determinada: o filho do seu Zé é para o sempre o filho do seu Zé, o filho do presidente é para sempre o filho do presidente. Cada ente ocupa um lugar e uma função: fulano de tal, o padeiro. Cicrano, o taxista. Sabemos perfeitamente onde encontrar uma pessoa, porquê esta mora em um lugar fixo. Deste endereço, estão entrelaçados seu trabalho, seus relacionamentos, seu círculo social, suas possibilidades e praticamente todas as suas memórias formadas. Só conhecemos o mundo por uma parte dele: a parte que estamos. E esta parte não é nada perante todas as outras que poderíamos conhecer. Um homem do século XX foi apenas um homem do século XX, todos os seus conceitos e preconceitos são próprios dele, assim como nós no século XXI. O carteiro só conheceu a vida entregando cartas na sua cidade, enquanto o caminhoneiro esteve em muitos lugares diferentes e viu coisas diferentes. Existir é estar porquê nossa existência se resume a estar em algum lugar e ser algo, do jardineiro ao diretor da empresa, todos vivem em um lugar específico, em uma época específica, de uma civilização específica, em um tempo específico. Estar significa não ultrapassar esses limites (e conformar-se com eles).

O tempo é um mistério.
Sim, nunca compreenderemos perfeitamente o tempo porquê estamos dentro dele! Talvez o tempo não exista realmente, mas a sensação de que algo está passando é por demais real para que possa ser ignorada. Após bilhões de anos/séculos de inexistência nós começamos a ser. Tomamos forma, assumimos um nome, um sexo, nacionalidade, religião, profissão, entre outros atributos sociais básicos. Mas onde estamos realmente? Não sabemos de fato. Só podemos nos situar com o que nos é dado - e nunca saberemos se o que nos dizem é de fato real. O tempo parece ser uma foice implacável que pouco a pouco vai ceifando os fios de vida que sustentam nosso ser. Um inimigo invisível, que dia após dia nos devora e sem que saibamos, nos arrasta para a sua vitória. Fomos lançados no tempo: Nós não fazemos parte dele. Se consideramos o universo como algo eterno e nós como apenas um instante, podemos dizer que somos um simples e infeliz acaso. Um acidente que não precisava acontecer mas que uma vez que ocorre, seus efeitos não podem ser negados. Uma vez que o homem é lançado no tempo, só lhe cabe lutar para sobreviver, mesmo admitindo a derrota, seguir o fluxo da vida, ainda que não compreenda nada e saiba perfeitamente que o seu desfecho é certo - incontestável na verdade.

A morte é um fato.
Haja visto que o tempo é como um relógio gigante e implacável cujos ponteiros jamais param de girar e cuja meia-noite equivale ao nosso fim, é bem plausível dizer que a nossa morte é um fato. Não é uma possibilidade, é algo concreto, algo real, que nos anais do futuro já ocorreu! Sim, nós já estamos mortos num tempo futuro, embora não saibamos nem onde nem como, nossa morte é um fato consumado. Tendo em mente que o limite da vida humana não ultrapassa muito os 100 anos, se pudéssemos adiantar o relógio da história saberíamos exatamente como morreremos e quando morreremos. Mas como não temos esse poder, nós simplesmente vivemos, como se tivéssemos de fato controle sobre alguma coisa, ainda que no íntimo saibamos que não temos. Quando dizemos que a nossa morte é um fato, o que queremos dizer é que somos condenados tentando atenuar a todo custo o peso de seu destino: vamos morrer, mas não queremos nos lembrar disso. Vamos morrer, mas queremos aproveitar o momento (ainda que o presente nada mais seja do que um instante sempre fugaz do qual pouco nos lembramos a medida que o tempo avança indiferente e soberano). No fim das contas, a morte triunfa sobre nós: nossos corpos são carcaças que ainda não se decomporam, mas em algum momento se tornarão...nada. Tudo o que fazemos não é para escapar da morte, porquê ela é certeira, nossa luta é para garantir como seremos lembrados, visto que sabemos que não podemos durar para sempre (nem se quiséssemos).

A individualidade é tudo e ao mesmo tempo nada.
Considerando o fato de que milhões de pessoas nasçam todos os dias (e que outras tantas morrem), cabe a nós fazermos uma pergunta: O que nos torna únicos em meio a tantos seres iguais? Nossa individualidade. A experiência de existir é única, por melhor ou pior que seja. Ninguém vive a vida como o outro a vive, ninguém sente como o outro a sente, ninguém pensa como o outro pensa. Do primeiro choro ao último suspiro, cada sensação é e será única, pois só o seu portador pode descrevê-la. É nesse quesito que nos diferenciamos uns dos outros, por mais que sejamos iguais enquanto espécie. Mas ironicamente, a excessivo quantidade de exemplares da raça que têm pisado sobre a terra faz com que nenhuma individualidade seja realmente única, pois em nenhum pensamento, sentimento, idéia, desejo, desgosto, êxtase ou decepção que experimentarmos seremos os primeiros. Já houveram muitos outros que disseram os mesmos com outras palavras. Cada individualidade é única, sim, mas no decorrer da história humana com suas repetidas aparições e sucessões de indivíduos, tais diferenças se anulam, pois o outro nada mais faz do que repetir as queixas de alguém que viveu há séculos antes dele. Nossa individualidade é tudo o que temos...e ao mesmo tempo, nada.

Sobreviventes de nós mesmos.
Suportar o peso dos dias é o maior de todos os fardos. Afogado em tanto conhecimento a respeito de si próprio (passado, presente e futuro), o homem continua seu trajeto como se nada disso tivesse importância. E de fato não tem: na nulidade de todas as coisas em direção ao não-ser, que diferença faz sermos conscios ou não de nossas mazelas? Após destruídas as esperanças, crenças, utopias e fantasias que tínhamos na infância, o persistir na vida só se explica de uma forma: somos sobreviventes de nós mesmos. Vivemos apesar de muitos poréns. Seguimos apesar de muitos pesares.

O coletivo não existe.
Estamos sós no mundo. Nossa individualidade nunca é sentida totalmente porquê nos revestimos de um ilusório sentimento de coletividade que não existe na verdade. Família, vizinhos, colegas de trabalho, conhecidos, compatriotas, pessoas em geral...compartilhamos o mesmo espaço com todos esses entes, mas e a vida, não é particular, pessoal e intransferível? Sim, certamente. Deixamos de tomar decisões, de viver, de agir, de sermos nós mesmos por nos preocuparmos com as opiniões alheias. Mas o que restará de todos nós daqui algumas décadas? Nada! No juízo final não seremos julgados individualmente? Sim, seremos. Temos medo de assumirmos nossos erros, na realidade, temos medo de errar para não sermos julgados. Julgados por quem? Por alguém que também foi lançado ao mundo sem o seu consentimento e quem também não sabe o que está fazendo aqui? Por alguém que assim como nós irá morrer, tornar-se pó e não será lembrado? Por espectros que as futuras gerações não saberão quem foram?

A escuridão é a norma.
Se o homem não procurar uma resposta, não obterá. Se não escolher um caminho, não terá nenhum. Se não der a si mesmo explicações, não as terá. É como um selvagem gritando numa caverna: só lhe responderá o eco da sua própria voz. Não sabemos o porquê de nada realmente. Só sabemos que somos - na verdade estamos - e isso é tudo. Sem uma lógica real, a vida passa. Nascimento, vida e morte fluem naturalmente como se fossem fenômenos normais...mas não são! Enquanto ser consciente, cabe ao homem se espantar diante da brutalidade da existência. Se ela não o faz, é porquê simplesmente não usa o intelecto que possui, na maioria das vezes. Infelizmente é assim. Tudo carece de um porquê...de forma. De justificação...no entanto, agimos como se tudo fosse sólido e perfeitamente justificável.

Da natureza do caos.
A conclusão a que se pode chegar é que fazemos parte da natureza do caos. Sim, o homem nada mais é do que uma porção de algo maior que ele próprio desconhece. Religiosamente ou não, a vida é um milagre. Disso não há dúvidas. O que não se explica é o porquê do ser ao invés do não-ser...Por acaso alguma criatura que não veio a existência reclama de não saber como é existir? De certo, não. Só pode blasfemar do vento aquele em cujas faces sentiu fresco e gélido o seu hálito...É necessário contemplar a luz do sol para chegar a crer que seria melhor permanecer na escuridão. No escuro do vazio, do inominável ato de inexistir...
O homem vive. Mas só sofre quando se espanta. Tudo é natural até que em algum ponto ele pare e pense: porquê isto é assim?
Todas as coisas caminham para a destruição. Em algum momento nada será como conhecemos, e o que conhecemos não será nada. Nós iremos nos dissolver antes de todas as coisas ou talvez junto com todas as coisas. O momento é uma ilusão. O homem é um sonho arrogante e o universo um teatro eterno - que um dia acabará.

Somos parte da natureza. Da natureza do caos.










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