Heróis nascem e morrem. Mártires são eternamente lembrados pela forma como lutaram (ou morreram lutando) por uma causa. Com a ascensão dos benfeitores ao poder, ocorre naturalmente a oposição das classes dominantes, sempre sedentas de domínio e controle. A representação de um símbolo pede igualmente um símbolo oposto, pois é necessário agradar gregos e troianos.
Cresci sob os governos Lula. Vi de perto como a política do presidente do PT era atraente para a minha geração e seus discursos de inclusão social, assistência aos mais pobres, combate a fome e a desigualdade, iam de encontro com a população. O torneiro mecânico e sindicalista que virou político e lutava por um Brasil melhor e mais justo! Era tudo o que precisávamos. Nunca a elite fabricou algo parecido, um candidato que conhecesse nossas dores e estivesse disposto a acabar com elas. Lula venceu! Merecidamente. E governou por 2 mandatos.
Sempre haverão críticos do seu governo que apontarão falhas, estatísticas e números contrários para afirmar que não foram bons. Minha intenção não é fazer uma análise nesse sentido, até mesmo porque não sou cientista político, economista, historiador ou algo do tipo. Me limito a dizer que sim, houve muitos elementos negativos entre 2003 e 2010, mas que no geral seu governo pode sim ser considerado bom, pois houve crescimento real da economia, retirada do Brasil do mapa da fome, diminuição da desigualdade social, aumento do salário mínimo, além de incentivo a educação. Os escândalos de corrupção de fato aconteceram paralelamente, e são um forte argumento de seus opositores desde sempre.
A pergunta que quero fazer aqui é: em que momento o brasileiro comum, trabalhador assalariado (o famoso CLT) deixou de se identificar com um líder que surgiu da própria classe trabalhadora, conheceu suas lutas e dilemas, e passou a preferir uma família de parasitas sem qualquer peso na nossa política? Desde quando os Bolsonaros se tornaram a solução para o Brasil? Porquê estes (até então) obscuros seres vieram a ser a esperança de milhões?
Lula cometeu muitos erros, um deles foi apoiar e indicar a ex presidente Dilma Rousseff como sua sucessora. Sem ter o mesmo preparo e idéias que ele, foi questão de tempo para que fizesse um desgoverno, e o Brasil caísse em uma grave crise econômica que culminou no impeachment da mesma. Não discutiremos se foi "golpe" ou não. Fato é que a sua irresponsabilidade fiscal trouxe consequências, e elas ficaram visíveis. Em 2016 Michel Temer assumiu, e com isso vieram algumas reformas, como a reforma trabalhista e da previdência.
Enquanto Dilma Rousseff "queimava o filme" de Lula e a imagem do PT como um todo, havia mudanças significativas na forma de pensar da população. Receber assistências do governo já não era visto como uma solução e sim o problema, o assistencialismo é o que "faz o povo ficar preguiçoso e não trabalhar", segundo muitos. A burocracia enfrentadas pelos empresários para contratar passou a preocupar os trabalhadores a ponto até de isso parecer um problemas deles próprios. A corrupção gritante ocorrida debaixo dos governos PT não ficaria impune: parte significativa do eleitorado perdia a confiança nos governos petistas, e uma vez perdida, não é fácil recuperá-la.
Jair Messias Bolsonaro surgiu das sombras, comeu pelas beiradas e se apresentou ao povo justamente nesse momento de crise. O deputado federal que por 30 anos mamou nas tetas do governo, veio com um discurso sedutor, anti petista, radical de mudar o sistema, a economia, atrair investimentos e fazer uma nova política de um novo Brasil. "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!" Era tudo o que a nação brasileira precisava, uma restauração moral e econômica. Suas palavras foram de encontro aos moralistas, as pessoas que há anos combatiam a "ameaça comunista" e sua política de inclusão de minorias, como a comunidade LGBT+.
Bolsonaro era a antítese de Lula, a contra medida de seus valores e representação. Ele soube captar perfeitamente os desiludidos com o governo PT, que naquela altura já não se sentiam representados por ele e queriam a todo custo uma alternativa. Pois bem, Bolsonaro se vendeu como essa solução. Seu discurso capitalista forte era como dizer "não se deve dar o peixe e sim ensinar a pescar", fazendo com que o brasileiro comum sonhasse em ser empresário, empreendedor, dono de si mesmo. Para que receber "esmolas" do governo se eu posso crescer na vida sozinho?
Outro ponto foi a criminalidade. Com justiça, muita gente estava indignada com os altos índices de violência. O aparente rigor que prometia o novo governo atraiu muita gente, pois de fato essa também foi uma das falhas gigantes dos governos do PT. Mas obviamente que o crime já existia antes no Brasil e continuou depois, mas...Lula virou símbolo de negligência, do "bandido que protege bandidos".
Bolsonaro soube captar bem a insatisfação do povo com a corrupção, fê-los sonhar como fazem os coachs nos livros de auto-ajuda (que moldaram muito a mentalidade do "pobre de direita" nas últimas décadas), prometeu paz, segurança e prosperidade a todos. Claro, nas igrejas os pastores assinaram embaixo e endossaram suas palavras.
Com a prisão de Lula, sem um sucessor forte, ele ganhou em 2018. Veio a pandemia, a absolvição de Lula e a eleição de 2022. Lula se reelegeu, Bolsonaro foi preso por tentativa de golpe de estado entre outras coisas após o fatídico 8 de janeiro em Brasília.
Lula está disputando novamente uma eleição contra alguém da família Bolsonaro: o seu filho Flávio Bolsonaro, senador da república. Porquê essa dualidade outra vez? Simples: ambos representam a velha e a nova política do Brasil, o que deu certo e o que pode dar, a tradição vs a novidade (duvidosa), o "pai dos pobres" e o burguês liberal que pretende reformar tudo e prosperar o país. Essa situação lhe parece nova?
Não vou tecer críticas ao governo de Jair Bolsonaro, cada um faça o seu próprio julgamento. Sobre os discursos de ódio proferidos por ele e seu filho há décadas, não há o que dizer já que para o seu eleitorado é a coisa mais normal do mundo e eles defendem com unhas e dentes cada palavra dita por seus candidatos. No mundo todo a chamada extrema direita está ganhando força, captando a insatisfação da população e também a raiva desde sempre reprimida contra as minorias e militâncias desses grupos.
Bolsonaro não caiu do céu, ele caiu de para-quedas na política brasileira e surgiu como um anti-messias para Lula e o PT. Sim, tal como um anti-herói que rouba o protagonismo do público insatisfeito com o mocinho sofredor, que já começa a ser visto como fraco e dissimulado...
Foi no lamaçal de erros de Lula e do PT que Bolsonaro cresceu e se fortaleceu. E é dessa lama que ele aprendeu a jogar sujo, pois "os fins justificam os meios".
Bolsonaro é a consequência de uma política engessada, desgastada e que já não atrai mais os jovens, os mais velhos...a fórmula de trabalhar de Lula e o PT continuam as mesmas, mas o Brasil mudou. E eles não souberam acompanhar isso...ou não quiseram.
Na luta épica de Lula contra os bolsonaros a pergunta que fica é: até quando o bolsonarismo vai durar? A resposta é incerta. Mas tudo indica que, para o bem ou para o mal, o bolsonarismo veio para ficar...
Nenhum comentário:
Postar um comentário