domingo, 1 de outubro de 2023

Vilarejo fantasma

O vento que assopra nestas pradarias
trazem choros, 
vozes de outra vida
clamando em coro,
sussurrando lentas agonias.

É tão doce a calmaria
que se sente nesta mata, 
ver o fim do dia,
quando uma imensa saudade
nos corrói e arrebata. 

Lá no fundo há uma cidade 
escondida entre as montanhas. 
Congelada no tempo,
habitada por ninguém 
e cheia de ruas estranhas.

Outrora haviam casas,
casebres e casarões...
Escravos pisavam em brasas,
muitos gritos se ouviam ao capricho das sinhás 
e ao mando dos barões. 

Andar por essas vilas 
é sonhar o que alguém sonhou...
Ouro e riquezas 
misturados à dor e tristeza,
banhado no sangue 
que algum negro ou índio lavou...

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Pesadelos reais

Ela descobriu o segredo, 
atravessou o portal,
agora está só 
com o seu medo,
lutando uma luta abismal. 

Há tempos teve uma visão e não quis acreditar, 
mas grande era a sua paixão pelo saber e aqui ela veio parar.

Atravessou o espelho
e pelas sombras se deixou levar.
Viu um olho vermelho
num jogo de luzes, silhuetas a dançar. 

Tudo era estranho ali,
a árvore gigante,
um diamante enorme,
seres de 
tamanho disforme, 
uma nuvem a lhe sorrir.

Ela queria saber onde estava,
constantemente se beliscava.

Ela ainda não descobriu,
isso foi tudo o que ouviu:
"Menina, você não está no mundo dos sonhos,
de arco-íris, duendes e castelos,
aqui há monstros medonhos, 
e príncipes nada belos,
não perca sua luz, 
não renuncie seus ideais,
mas saiba, seus pesadelos são reais!"

quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Vertigem

Palidez. Repentino calor.
Por sua vez, percorre-me 
o corpo não sei que sensação, enfraqueço,
mas não sinto dor. 

Tomba aos poucos minha mão.
Como quem desaba de um topo,
sinto-me arrastado ao chão...

Escurece-me a vista,
já tenho uma pista do que pode ocorrer...

Em vão tento gritar,
perco a voz, 
já nada ouço,
sinto que vou desmaiar!

domingo, 3 de setembro de 2023

Gótico

Negras cores,
pálido rosto.
Como que expondo crenças interiores,
ou afirmando 
um íntimo desgosto. 

Talvez somente 
o desejo de ser diferente. 
Cruzes, caveiras, 
anéis, cordões, 
adornam peças inteiras
que elegantes ostentam pelos salões. 

Amigos da tristeza, 
filhos da melancolia,
até delas extraem beleza.
Amantes da noite,
do rock, das artes, da poesia. 

Misteriosos e cultos,
andam sós no meio de nós, mas se reúnem todos, poderosos em seus redutos.

Celebrar a morte 
é afirmar a vida.
Nada melhor do que a própria dor 
para curar uma ferida!
Abraçar a solidão, 
escarnecer de seus medos,
retratar a escuridão,
confessar seus segredos,
diante de monstros reais e medonhos, 
refugiar-se na imaginação, 
nutrir-se de sonhos.

Como é bela e exótica 
a fascinante cultura gótica!

quinta-feira, 20 de julho de 2023

Báthory


Nascida na aristocracia,
no seio da realeza criada,
sua vida foi a mais negra elegia jamais contada.

Perversa, não tinha freios,
para saciar seus desejos 
valia-se de todos os meios,
agarrava todos os ensejos.

Deleitava-se em fazer sofrer,
sádica, não tinha pena de suas iguais, 
constituídas do mesmo ser.

Mais sangue, ela quer mais!
Para satisfazer seus caprichos dementes, 
banha-se a condessa no sangue das virgens inocentes! 

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Desídia

Eu estive andando por aí,
procurando respostas.
Não as encontrei,
eu sei, a paixão e o ardor
pela vida deram-me as costas.

Consultei cartomantes,
fiz promessas.
Tudo continuou como antes,
permaneceram imóveis as peças.

Peças deste quebra-cabeça que alguém inventou.
Sou eu um personagem vivo
de um livro já escrito
ou um sonho (pesadelo) que alguém sonhou?

Aflora o desalento,
findam-se os anseios juvenis.
Maior é o questionamento
e o desejo de voltar às crenças infantis!

Experimento o desconforto
de ser e de estar.
Que anjo torto é esse que me persegue e não me quer abandonar?

Nas fumaças das chaminés,
no brado das ralés,
nas traças da nostalgia,
nas tragédias de cada dia
a vida se esvai...
Assassina, tirana
que para nutrir-se
necessita sempre de um ai!

Contemplo a tudo perplexo,
tudo faço sem emoção.
Quanto mais penso, não vejo nexo, a vida é uma eterna repetição.

Fiz hoje o mesmo que ontem,
e amanhã o farei novamente.
Quem haverá que minhas lágrimas conte ou as enxugue somente?

Persegui teorias,
li várias fontes.
Inúmeras ideologias,
mas as mesmas bases,
as mesmas pontes...

Todos dizem saber
e ninguém sabe.
A verdade, seja ela qual for,
só a Deus cabe.

Cansei de tentar entender o que não pode ser explicado.
Quero apenas sentir
o que tiver que sentir,
chorar ou sorrir...
Pois a razão me sussurra:
"Não viver, eis o grande pecado!"

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Praça Santa Maria

Quando, em tardes amenas
começo a deambular,
há sempre um lugar que vou,
ver as árvores serenas
e na verde grama pisar.

Um caminhante sou,
apreciador de singular beleza.
Quis o acaso ou um nobre engenheiro, pôr lado a lado
cidade e mato,
paisagem urbana e natureza.

Quando lá estou, mudo por inteiro.
Por tal visão sou grato.
Quieto e mudo, à outra realidade me transporto,
esqueço-me de tudo.

Como é linda a fonte de água limpa a jorrar!
Como é bela a ponte que cruza o córrego, como é bonito ver
o vento as folhas do arvoredo 
do pequeno bosque balançar!

Nunca pensei que houvesse
um oásis no deserto
que minh' alma pudesse tocar
e sentir tão perto...