quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O golpe de estado que virou feriado

Hoje é feriado da "proclamação da república". É comemorado no país uma data que deveria ser esquecida, apagada da memória de nossa gente, o dia da traição, de um levante, um vergonhoso motim que a história vêm provando que nada de bom trouxe. Foi nesse dia que um velho e honesto imperador, patriota, que tanto amou o seu país e fez bem à ele, foi expulso de sua pátria vergonhosamente, como um criminoso e malfeitor qualquer. Os mercenários que tomaram o poder fizeram tudo secretamente, sem a participação e o apoio popular, fundando assim uma ilegítima e corrupta república, que nada de bom fez por este país.

O império do Brasil foi o primeiro e legítimo governo brasileiro, fruto do desejo da maioria, que via na monarquia uma forma de unificar o país e impedir que caísse nas sanguinárias disputas de poder, revoltas e ditaduras tão comuns  nos países da América espanhola. D. Pedro I foi reconhecido como imperador do Brasil, o novo monarca do país independente. O Brasil, na contra-mão de seus vizinhos hispânicos, manteria sua tradição monárquica, adotando a monarquia constitucional parlamentar, uma forma de governo não muito antiga e altamente democrática.

D. Pedro I unificou o país, promulgou a primeira constituição, de 1.824, que ainda que não fosse perfeita, era bastante satisfatória para os padrões da época. Reprimiu revoltas, não permitiu que uma terra tão extensa e único Brasil se dividisse. Devido à muitos problemas que enfrentava, abdicou do trono, deixando para seu filho e herdeiro a missão de governar um grande país, jovem mas com um futuro promissor.

O reinado de D. Pedro II foram os melhores anos para o Brasil. Ainda que nem tudo fosse perfeito e por mais que desejasse o imperador não pudesse abolir a escravidão, D. Pedro II procurou fazer um governo democrático, respeitando o povo, o parlamento e todos os cidadãos. D. Pedro II elevou o Brasil a quarta maior economia do mundo, a segunda e mais forte marinha de guerra, fez do Brasil um país respeitado internacionalmente, uma força diplomática, o único império das Américas que sobrevivia era reconhecido como uma grande democracia e potência sul-americana e regional. O Brasil crescia a cada ano, seu desenvolvimento era rápido como o trem, o que possivelmente ficou refletido no fato de ser um dos primeiros países a construir centenas de quilômetros de linhas ferroviárias naquele tempo; também foi um dos primeiros países a ter instalação de telefone, eletricidade, gás e demais tecnologias. D. Pedro II era respeitado por todos, brasileiros e estrangeiros, como um homem simples, honesto e ao mesmo tempo culto, amante das ciências, das artes e da educação.

O estopim para a explosão da bomba foi a abolição da escravidão. Sim, por incrível que pareça, não foram os republicanos responsáveis pela libertação dos escravos, e sim a liberdade deles um dos fatores que contribuiu para que oportunamente chegassem no poder. Quando a princesa Isabel assinou a abolição da escravatura, ainda que tenha feito justiça e libertado milhares de inocentes que sofriam, contudo, provocou a ira e a indignação de poderosos barões do café e da elite que se sentiram traídos pelo império. Muitos destes que não apoiavam o inexpressivo movimento republicano da época, o apoiaram depois da abolição, ajudando a impulsionar o golpe que ocorreria um pouco depois.

Os militares viram neste cenário o momento ideal para agir. Com a elite cafeeira a seu lado, e a crescente influência positivista e republicana no exército, era questão de tempo para executarem o golpe, que mudou definitivamente os rumos do país. D. Pedro II recebeu a carta do comunicado de seu exílio das mãos de um dos oficiais de Deodoro. O primeiro presidente do Brasil, que havia sido marechal e amigo do imperador, o traía covardemente, assim como os militares que nenhuma razão tinham para apoiar esta infâmia. D. Pedro II e sua família foram exilados para a França, país onde o Imperador que governou por 49 anos seu país veio a morrer dois anos depois, em 1.891, traído, injustiçado, porém recebendo as honras fúnebres devidas ao grande monarca que foi.

O Brasil experimentou sob o regime republicano a primeira ditadura militar da sua história. Os desajustes do novo governo culminaram em crise econômica, pressão para a renúncia do presidente, pequenos levantes e censura total a imprensa, que no período do Império gozou de total liberdade. Muitos opositores ao novos governo foram duramente perseguidos, presos, exilados ou mortos. Destruindo um país, seus anos de progresso e futuro brilhante, censurando a imprensa e perseguindo a oposição, assim se consolidou a ilegítima república brasileira, tomando definitivamente o lugar do legítimo império do Brasil.

Hoje a situação não é muita coisa melhor. O Brasil enfrenta uma de suas maiores crises econômicas, desemprego, corriqueiros escândalos de corrupção, violência alta, desigualdade social e até mesmo um crescente sentimento de anti-patriotismo natural da população. Podemos afirmar que a república no Brasil deu certo? Podemos dizer que este governo ilegítimo, golpista, que não contou com o apoio e participação popular, fez algo de bom para o país? Alguns republicanos chamam atenção para o fato que as taxas de analfabetismo eram muito altas durante o império. Porém, décadas após a república a situação não mudou em nada, ainda que haja muitos alfabetizados, muitos contudo não sabem sequer ler e interpretar um texto. Assim, citar os problemas do império e dizer que a república tinha que vir para corrigí-los, é uma grande piada! Todos estes problemas seriam resolvidos no reinado da princesa Isabel, que tinha planos e projetos para o futuro da nação. O Brasil simplesmente estava nos trilhos do sucesso, mas descarrilou tristemente, não o encontrando novamente até hoje.

Com tudo isso, não é de se estranhar o fato de que haja quem queira a volta da monarquia no Brasil. Esta data de hoje é perfeita para a reflexão dos contrastes do Brasil imperial com o republicano. Que o nosso povo possa entender o que de fato ocorreu naquele fatídico 15 de novembro de 1.889, o golpe de estado que virou feriado, e que lamentavelmente continua ecoando suas consequências até nossos dias. Ave glória, Ave Império!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

A teologia da prosperidade à luz da Biblia

Em muitas igrejas evangélicas atuais, principalmente nas neo-pentecostais, é ensinado pelos pastores que todo cristão deve viver uma vida abundante, farta, que não pode aceitar a miséria, e que deve tomar posse das bênçãos que Deus lhe deu, não apenas no campo espiritual, mas no financeiro também. Segundo estes líderes, a vinda de nosso Senhor Jesus e sua morte por nós, não garantem apenas uma vida espiritual abundante, plena da presença de Deus e da comunhão com ele, mas saúde física e prosperidade, da qual todos devem participar. Não somente isso, se você crê no filho de Deus mas vive uma vida de miséria ou pobreza, deve avaliar sua fé, repreender o inimigo e tomar posse desta bênção, caso contrário, algo está errado com você.

Contudo, ainda que esta doutrina, à qual é chamada de "teologia da Prosperidade" seja ensinada em muitas igrejas, ironicamente, não vemos seus resultados milagrosos tão facilmente. Parece que os líderes que a ensinam tem tido mais êxito que os fiéis que a escutam, algo que é no mínimo estranho...E não deveria ocorrer se este ensino fosse verdadeiro. Assim que, trabalhar parece ser até hoje o melhor caminho para ganhar dinheiro.

Veremos à luz da Bíblia se esta doutrina é verdadeira, se Cristo e seus apóstolos ensinaram a "teologia da prosperidade" às pessoas, propagando para todo o mundo as boas novas das riquezas, da abundância, do luxo e dos bens materiais, ou se a mensagem dele e seus discípulos é a da cruz, da renúncia, do padecer injustamente, da luta contra o pecado e abdicação do próprio ego.

Mateus 6:19 Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam. 20 Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam, nem roubam. 21 Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.

Jesus nos recomenda a não ajuntarmos tesouros na terra, pois são passageiros e ainda podem ser roubados, mas ajuntarmos no céu, pois as riquezas espirituais são muito mais valiosas e são eternas. Também vemos que aonde está o tesouro de alguém, aí estará seu coração, pois a pessoa colocará seu tesouro em primeiro lugar na sua vida, e no caso das riquezas isto é perigoso, pois ninguém pode servir a dois senhores (Mt 6:24).

Mateus 19:20 Disse-lhe o jovem: Tudo isso tenho guardado desde a minha mocidade; que me falta ainda? 21 Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; e vem e segue-me. 22 E o jovem, ouvindo essa palavra, retirou-se triste, porque possuía muitas propiedades. 23 Disse, então, Jesus aos seus discípulos: Em verdade vos digo que é difícil entrar um rico no Reino dos Céus. 24 E outra vez vos digo que é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha que entrar um rico no Reino de Deus.

O jovem rico que foi ter com Jesus (Mt 19:16-30), era uma pessoa piedosa, que guardava os mandamentos da lei mosaica e tinha desejo de herdar a vida eterna. Porém, Jesus, que conhece os corações, quis testar até onde ia de fato o seu amor por Deus e desejo de obedecê-lo, por isso disse para que ele vendesse tudo e desse aos pobres. O jovem então deixou-o, e sua tristeza provou que seu amor e apego pelas riquezas e bens materiais ainda eram maiores que seu amor por Deus e anseio pela vida eterna.

Lucas 12:13 E Disse-lhe um da multidão: Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança. 14 Mas ele lhe disse: Homem, quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós? 15 E disse-lhes: Acautelai-vos e guardai-vos da avareza, porque a vida de qualquer não consiste na abundância do que possui. 16 E propôs-lhes uma parábola, dizendo: a herdade de um homem rico tinha produzido com abundância. 17 E arrazoava ele entre si, dizendo: Que farei? Não tenho onde recolher os meus frutos. 18 E disse: Farei isto: derribarei os meus celeiros, e edificarei outros maiores, e ali recolherei todas as minhas novidades e os meus bens; 19 e direi à minha alma: alma, tens em depósito muitos bens, para muitos anos; descansa, come, bebe e folga. 20 Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma, e o que tens preparado para quem será? 21 Assim é aquele que para si ajunta tesouros e não é rico para com Deus.

Jesus contou esta parábola do Rico insensato após um homem lhe pedir que o ajudasse a convencer seu irmão à dividir com ele seus bens. Nesta parábola, Cristo nos ensina que a maior riqueza não é material, mas espiritual, e que não adianta nada possuir todas as riquezas materiais e ser pobre para com Deus, espiritualmente. O rico insensato preocupou-se tanto com suas riquezas que se esqueceu da sua alma, do estado dela para com Deus, antes, colocando o coração em coisas passageiras, da qual ele nada levaria (Lc 12:20). Este erro deve ser evitado por todos os cristãos, que sabem que seus maiores tesouros são celestiais, não terrenos.

Lucas 12:33 Vendei o que tendes, e dai esmolas, e fazei para vós bolsas que não se envelheçam, tesouro nos céus que nunca acabe, aonde não chega ladrão, e a traça não rói.

Todo cristão deve prezar pelas riquezas espirituais, deve enriquecer-se espiritualmente abundando em boas obras, das quais será recompensado na segunda vinda de Jesus (1 Pe 1:4, Mt 16:27, Lc 14:13-14, Ap 22:12).Já que não temos aqui cidade permanente, mas buscamos a futura (Hb 13:14).

1 Timóteo 6:7 Porque nada trouxemos para este mundo e manifesto é que nada podemos levar dele. 8 Tendo, porém, sustento e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes. 9 Mas os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína. 10 Porque o amor do dinheiro é a raiz de toda espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé e se transpassaram a si mesmos com muitas dores. 11 Mas tu, ó homem de Deus, foge destas coisas e segue a justiça, a piedade, a fé, o amor, a paciência, a mansidão.

O apóstolo Paulo recomendou ao jovem Timóteo a não ser ganancioso, pelo contrário, a fugir deste pecado. Disse que devemos ser contentes com o que temos, que a cobiça do dinheiro é a maior raiz de todos os males, e que inclusive muitos se desviaram da fé por causa disso (Que diferença do que pregam os pastores da atualidade, sempre associando a fé cristã a dinheiro e prosperidade!) Paulo, contudo, nos mostra que esta busca por dinheiro não é somente errônea, mas perigosa, já que muitos largaram a fé por isto (provavelmente gente cristã), e que Timóteo deveria evitar estas coisas, e antes, seguir as boas obras de um cristão, enriquecendo para com Deus. Hoje em dia, vemos muitos escândalos de corrupção e desvio de dinheiro não apenas na política, mas também nas igrejas, onde renomados líderes são denunciados e acusados de desvio do dinheiro dos fiéis, o que sem dúvida corrobora com os versos 9 e 10 desta passagem. Tais líderes podem até não terem abandonado a fé publicamente, mas devido a cobiça que tem, já a abandonaram há muito em seus corações, a menos que se arrependam e voltem a colocar Deus em primeiro lugar em suas vidas.

1 Timóteo 6:17 Manda aos ricos deste mundo que não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas, mas em Deus, que abundantemente nos dá todas as coisas para delas gozarmos; 18 que façam o bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente e sejam comunicáveis; 19 que entesourem para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam alcançar a vida eterna.

A mesma recomendação é feita novamente a todos. Os ricos não devem deixar-se iludir com suas riquezas, e sim enriquecer em boas obras, invocarem a Deus com um coração sincero, e assim estarão tendo um bom fundamento para o futuro, e alcançarão a vida eterna. Vemos que não há problema algum em ser rico, o problema está na ganância, na avareza que deve ser evitada. Os ricos que querem alcançar a salvação devem ser sábios e almejar as maiores de todas as riquezas, que são as espirituais, e que resultarão em vida eterna para todos aqueles que as buscam.

Jesus e os apóstolos nos ensinaram a almejar o Reino de Deus mais do que a qualquer outro bem. Alguns citam João 10:10 como prova de que ele veio trazer esta prosperidade financeira, já que veio nos dar vida abundante: "O ladrão não vem senão a roubar, a matar e a destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham com abundância." Este texto não fala absolutamente nada de prosperidade econômica, pois vimos que o mesmo Senhor Jesus condenou a ganância e a avareza em muitas passagens, inclusive os fariseus que eram avarentos, zombaram dele (Lc 16:14). Ter uma vida espiritual abundante, plena da presença de Deus já é uma maneira de ter vida em abundância. Antes da vinda de Cristo, estávamos mortos em nossos pecados e sem nenhuma esperança "Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com ele, e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da sua graça, pela sua benignidade para conosco em Cristo Jesus." (Efésios 2:4-7). Portanto, as palavras de Jesus nesta passagem do Evangelho de João não implicam necessariamente em prosperidade financeira. Cristo deixou sua glória no céu, se fez carne, morreu por nós para assim nos resgatar da nossa condição de escravos do pecado e levar-nos a Deus, como novas criaturas, com uma vida espiritual plena e abundante: "Porque já sabeis a graça de nosso senhor Jesus Cristo, que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre, para que, pela sua pobreza, enriquecêsseis." (2 Co 8:9).

Ninguém em sã consciência vai negar que Deus pode enriquecer à quem quiser, principalmente seus servos, pois "Minha é a prata, e meu é o ouro, disse o Senhor dos Exércitos." (Ag 2:8). A questão é se a Bíblia, em especial o Novo Testamento, ensina isto de que todo crente deve buscar a prosperidade tanto quanto busca a Deus, já que Jesus teria vindo nos dar dessa abundância financeira a todos que nele crêem. Biblicamente, a mensagem do Evangelho é a da renúncia, tomar diariamente sua cruz (Mt 8:34, Lc 9:23), arrepender-se dos pecados (Mc 1:15, Lc 24:47, At 2:38), mudar de vida ( Mt 3:8, At 26:20), pregar as boas novas (Mc 16:15, Mt 28:18-20). A prosperidade pode vir, mas sem que a pessoa a busque, como aconteceu com o sábio rei Salomão que não pediu riquezas a Deus, ainda que tivesse a chance de fazê-lo (1 Rs 3:5-15). Nosso alvo principal não são os bens materiais, passageiros e temporais, ainda que sejam necessários, mas o Reino de Deus, e as demais coisas nos serão acrescentadas (Mt 6:25-34). Devemos servir a Deus com sinceridade no coração, confiando que ele pode suprir todas as nossas necessidades:

Hebreus 13:5 Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: Não te deixarei, nem te desamparei.

Deus supre todas as necessidades de seu servos, mesmo que não necessariamente os enriqueça (Sl 34: 9-10, Sl 37:25). Ser pobre também não é nenhum sinal de fraqueza espiritual ou falta de fé, pois são os pobres que agradam a Deus (Tg 1:9-11, 2:5, 5:1-6). Nos evangelhos nunca vemos pessoas que aceitam a Cristo como Senhor de suas vidas enriquecendo instantaneamente, mas sim sendo transformadas e renovadas em seu caráter e comportamento, crendo em Deus e abandonando a escravidão do pecado (Jo 8:31-36).

Tampouco precisamos fazer voto de pobreza, vivermos mendigando ou coisa assim. Deus pode nos prosperar conforme ele queira, somente não precisamos nem devemos ter isto como nosso maior alvo. Nossa postura para com o dinheiro deve ser então a do sábio rei Salomão, e a mesma do apóstolo Paulo:

Provérbios 30:7 Duas coisas te pedi; não mas negues, antes que morra: 8 afasta de mim a vaidade e a palavra mentirosa; não me dês nem a pobreza nem a riqueza; mantém-me do pão da minha porção acostumada; 9 para que, porventura, de farto te não negue e diga: Quem é o Senhor? Ou que, empobrecendo, venha a furtar e lance mão do nome de Deus.

Filipenses 4:12 Sei estar abatido e sei também ter abundância; em toda a maneira e em todas as coisas, estou instruído, tanto a ter fartura como a ter fome, tanto a ter abundância como a padecer necessidade. 13 Posso todas as coisas naquele que me fortalece.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

A dupla natureza de Cristo

Há na cristandade uma pequena corrente de pensamento que diverge da crença tradicional e bíblica da dupla natureza de Cristo (humana e divina). Para estas pessoas, é impossível que Jesus fosse 100% homem e 100% Deus enquanto esteve na terra, pois eles consideram simplesmente inconcebível tal conceito, e alegam também que se Jesus não tivesse se despojado totalmente de sua divindade, não poderia ser um ser humano como os demais, o que, segundo eles, afetaria sua total encarnação. Vejamos, contudo, como a Bíblia é clara em ensinar, de forma mais ou menos explícita, a dupla natureza de nosso Senhor Jesus.

As passagens que citam os que negam a divindade de Cristo na terra, são textos onde supostamente se ensina que Jesus se despojou totalmente da sua divindade, e que só iria recuperá-la novamente depois da sua ressurreição e ascensão aos céus, ou seja, ele seria um homem na terra, mas voltaria a ser Deus quando acendesse aos céus. Para os que crêem assim, como já dissemos, foi isto que aconteceu, Cristo teria sido um simples homem como todos, com a diferença que era cheio da presença de Deus e os milagres dele eram realizados pelo poder do Espírito Santo, não por sua natureza de Deus.Vejamos uma destas passagens:

Atos 10:38 Como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo bem, e curando a todos os oprimidos do diabo porque Deus era com ele.

Essa passagem não nega a divindade de Cristo na terra, o fato de que o texto diga que Jesus foi ungido com o Espírito Santo e virtude, não significa que ele não fosse homem e Deus. Como homem Jesus dependia do Pai, assim como nós, embora ele e o pai sejam um (Jo 10:30), ele obviamente orava à Deus e o Pai pelo seu Espírito operava maravilhas, assim como acontece hoje com os crentes. Contudo, como filho de Deus encarnado, Jesus respeitou sua condição humana e não usou dos poderes de sua divindade para seus próprios interesses, antes, com o auxílio do Espírito Santo, operava os milagres para o bem de todos (Jo 5:36, 8:28, 11:4, 42). Jesus não estava na terra para cumprir sua própria vontade, antes para servir e cumprir a vontade daquele que o enviou (Mt 20:28, Jo 6:38), assim, ele nos deu o exemplo em tudo, e com sua obediência perfeita ao Pai e o Espírito Santo que nele estava, operou maravilhas e glorificou o Pai (Jo 5:30, 8:54, 14:10-11). Além de não negar a divindade de Cristo na terra, esta passagem de Atos nos mostra o perfeito trabalho e unidade da Trindade na vida de Cristo e seu ministério, pois diz: "Como Deus (Pai) ungiu a Jesus de Nazaré (Filho) com o Espírito Santo e com virtude..." A Trindade está harmonicamente presente na obra da salvação, do começo ao fim da vida e ministério de nosso Senhor (Mt 3:16-17, Rm 8:11).

Filipenses 2:6 "Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, 7 Mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; 8 E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz."

Este é o principal texto que usam os que negam a divindade de Cristo e sua dupla natureza. Eles se agarram de forma literal e radical ao verso 8, e crêem que o apóstolo Paulo ensinou que Cristo era só homem quando esteve entre nós, contudo se esquecem do verso anterior que diz que foi feito "semelhante aos homens". Isto obviamente mostra que não era igual em tudo, já que além de nascer de uma virgem (Mt 1:18) ser filho de Deus (Lc 1:35, 2:49), ele não tinha pecado e também não era um simples homem como os demais (Mt 8:27). O contexto da passagem de Filipenses 2:5-11 está falando da encarnação de Cristo, da sua preexistência, divindade, sua obediência e submissão ao Pai e sua exaltação por Deus. Em momento algum nega sua divindade na terra, mas esclarece que ele encarnou de fato, o que refuta as alegações da seita dos gnósticos daquele tempo que negavam isso (Fp 2:8, Jo 1:14, 1 Jo 4:2). Mostra como Cristo foi submisso à vontade do Pai, procurando obedecê-lo plenamente, ainda que fosse da mesma condição divina (Fp 2:6, Mt 26:42) e como se submeteu a uma morte extremamente dolorosa, sendo depois glorificado pelo Pai, e tornando-se salvação à todos (Jo 12:27-30, At 10:36-42, Hb 1:1-4, Hb 5:7-10, Ap 5:12). Não há nenhuma negação da dupla natureza de Cristo na terra, antes, essa bela passagem nos mostra sua divindade, preexistência, encarnação e exaltação, sem contudo negar suas duas naturezas, humana e divina.

Vejamos, agora, alguns indícios de que Jesus não poderia ser um mero homem que simplesmente operava milagres pelo poder de Deus, mas que era mais do que isso, pois fez coisas que somente Deus pode fazer, e Cristo as fez com sua própria autoridade, ou seja, sem a necessidade de orar ao Pai como fariam os apóstolos ou seus servos atuais se quisessem executar estes mesmos sinais.

Marcos 4:38 E ele estava na popa dormindo sobre uma almofada, e despertaram-no, dizendo-lhe: Mestre, não se te dá que pereçamos? 39 E ele, despertando, repreendeu o vento, e disse ao mar: Cala-te, aquieta-te. E o vento se aquietou, e houve grande bonança. 40 E disse-lhes: Porque sois tão tímidos? Ainda não tendes fé? 41 E sentiam um grande temor e diziam uns aos outros: Mas quem é este que até o vento e o mar lhe obedecem?

É interessante notar que não vemos qualquer vestígio de que Jesus tenha orado ao Pai para acalmar a tempestade. Ao contrário, ele acordou e rapidamente repreendeu o mar e o vento, que lhe obedeceram instantaneamente, deixando maravilhados os discípulos que viram isso. Naturalmente que acalmar o mar e o vento com sua palavra é bem fácil para aquele que os criou (Jo 1:3, 10).

Salmos 107:25 "Pois ele manda, e se levanta o vento tempestuoso, que  eleva as suas ondas. 26 Sobem aos céus, e a sua alma se derrete em angústias. 27 Andam e cambaleiam como ébrios, e esvai-se-lhes toda a sua sabedoria. 28 Então, clamam ao Senhor na sua tribulação, e ele os livra das suas angústias. 29 Faz cessar a tormenta, e acalmam-se as ondas. 30 Então, se alegram com a bonança; e ele, assim, os leva ao porto desejado."

Jesus, como homem na terra, fez estas coisas que no Antigo Testamento são atribuídas à Jeová, o Pai de Jesus. No Evangelho de Marcos vimos como Jesus acalmou o mar com sua palavra, depois que seus discípulos o acordaram e clamaram socorro, e logo fez-se bonança, tal como o Salmo 107 diz que Jeová faz com os marinheiros, usando de benignidade para com eles. Vamos analisar outras passagens à luz do Antigo Testamento em que Jesus, como homem, traz em si mesmo atributos que pertencem só a Deus.

Salmos 146:5 Bem-aventurado aquele que tem o Deus de Jacob por seu auxílio e cuja esperança está posta no Senhor, seu Deus, 6 que fez os céus e a terra, o mar e tudo quanto há neles e que guarda a verdade para sempre; 7 que faz justiça aos oprimidos; que dá pão aos famintos. O Senhor solta os encarcerados; O Senhor abre os olhos aos cegos; o Senhor levanta os abatidos; o Senhor ama os justos;

Mateus 14:19 E tendo mandado que a multidão se assentasse sobre a erva tomou os cinco pães e os dois peixes, e erguendo os olhos ao céu, os abençoou, e, partindo os pães, deu-os aos discípulos, e os discípulos à multidão. 20 E comeram todos, e saciaram-se; e levantaram dos pedaços que sobejaram, doze alcofas cheias. 21 E os que comeram foram quase cinco mil homens, além das mulheres e crianças.

Mateus 20:32 E Jesus, parando, chamou-os, e disse: Que quereis que vos faça? 33 Disseram-lhe eles: Senhor, que os nossos olhos sejam abertos. 34 Então Jesus, movido de íntima compaixão, tocou-lhe nos olhos, e logo viram; e eles o seguiram.

Jesus fez duas coisas que o Pai faz: saciar com pão os famintos e abrir os olhos dos cegos.

Marcos 2:4 E, não podendo aproximar-se dele, por causa da multidão, descobriram o telhado onde estava, e, fazendo um buraco, baixaram o leito em que jazia o paralítico. 5 E Jesus, vendo a fé deles, disse ao paralítico: Filho, perdoados estão os teus pecados. 6 E estavam ali alguns dos escribas, que arrazoavam em seus corações, dizendo: 7 Porque diz este assim blasfêmias? Quem pode perdoar pecados, senão Deus? 8 E Jesus, conhecendo logo em seu espírito que assim arrazoavam entre si, lhes disse: Porque arrazoais sobre estas coisas em vossos corações? 9 Qual é mais fácil? dizer ao paralítico: Estão perdoados os teus pecados;  ou dizer-lhe: Levante-te, e toma o teu leito, e anda? 10 Ora para que saibais que o Filho do homem tem na terra poder para perdoar pecados (disse ao paralítico), 11 A ti te digo: Levante-te, toma o teu leito, e vai para tua casa. 12 E levantou-se, e tomando logo o leito, saiu em presença de todos, de sorte que todos se admiraram e glorificaram a Deus, dizendo: Nunca tal vimos.

Isaías 43:25 Eu, eu mesmo, sou o que apaga as tuas transgressões por amor de mim e dos teus pecados me não lembro.

Salmos 32:1 Bem-aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto. 2 Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano.

É Deus quem perdoa pecados, e Jesus também perdoou pecados quando esteve na terra, inclusive foi acusado de blasfêmia por isso, o que obviamente não tem sentido, pois ele é o próprio Deus, e tinha toda autoridade para fazê-lo.

João 2:24 Mas o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia; 25 E não necessitava de que alguém lhe testificasse do homem, porque ele bem sabia o que havia no homem.

Salmos 139:1 Senhor, tu me sondaste e me conheces. 2 Tu conheces o meu assentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento; 3 Cercas o meu andar e o meu deitar; e conheces todos os meus caminhos. 4 Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor, tudo conheces.

João 16:30 Agora conhecemos que sabes tudo, e não hás mister de que alguém te interrogue. Por isso cremos que saíste de Deus.

Salmos 44:20 Se nós esquecermos o nome do nosso Deus e estendermos as nossas mãos para um deus estranho, 21 porventura, não conhecerá Deus isso? Pois ele sabe os segredos do coração.

João 21:17 Disse-lhe terceira vez: Simão, filho de Jonas, amas-me? Simão entristeceu-se por ter dito terceira vez: Amas-me? E disse-lhe: Senhor, tu sabes tudo; tu sabes que eu te amo.Jesus disse-lhe: Apascenta as minhas ovelhas.

1 João 3:20 Sabendo que, se o nosso coração nos condena, maior é Deus do que os nossos corações, e conhece todas as coisas.

A onisciência é claramente um atributo divino, e Jesus, o filho de Deus tinha esse atributo já como homem na terra.Jesus também conhecia muito bem o futuro, assim como o Pai conhece.

João 6:64 Mas há alguns de vós que não crêem. Porque bem sabia Jesus, desde o princípio, quem eram os que não criam, e quem era o que o havia de entregar.

João 13:11 Porque bem sabia ele quem o havia de trair; por isso disse: Nem todos estais limpos.

Isaías 46:9 Lembrai-vos das coisas passadas desde a antiguidade: que eu sou Deus, e não há outro Deus, não há outro semelhante a mim; 10 que anuncio o fim desde o princípio e, desde a antiguidade, as coisas que ainda não sucederam; que digo: o meu conselho será firme, e farei toda a minha vontade;

Além de saber de antemão que seria traído por Judas Iscariotes, Jesus também previu o futuro, as coisas que ocorrerão no fim dos tempos, como vemos no sermão profético de Mt 24-25 com paralelos em Mc 13 e Lucas 21.

Jesus também foi servido pelos anjos (Mt 4:11) que são servos de Deus (Sl 103:20-21, 148:2), ele conhecia os pensamentos das pessoas (Mt 12:25, Lc 5:22, 6:8, Jo 16:19), sabia perfeitamente a vida da mulher samaritana com a qual nunca tinha se encontrado antes (Jo 4:15-19), sabia onde Natanael esteve antes que Natanael fosse vê-lo (Jo 1:45-51), caminhou sobre as águas do mar (Mt 14:24-33), fez "brotar" um estater da boca de um peixe (Mt 17:24-27), secou uma figueira (Mt 21:18-22) como Deus faz (Sl 107:33-34), escapou de um apedrejamento simplesmente atravessando no meio dos judeus furiosos (Lc 4:28-30), a mulher que tinha fluxo de sangue foi curada pelo simples toque dela em Jesus, do qual saiu virtude (Lc 8:47-50),  previu que Pedro o negaria (Jo 13:36-38, Lc 22:54-62), os homens que o prenderam recuaram e caíram por terra ao vê-lo no getsêmani (Jo 18:6), entre outras coisas.

Ainda que não possamos comprender com nossas mentes finitas tão maravilhoso mistério, não podemos negar que Jesus tinha estas duas naturezas quando viveu entre nós, humana e divina ao mesmo tempo. Isso em momento algum muda o fato de que se encarnou e se fez totalmente homem, que teve fome, sede, e morreu em nosso lugar. Cristo não usou de seus atributos divinos em benefício próprio, tampouco se despojou totalmente deles, como crêem alguns. Suas duas naturezas subsistem perfeitamente na sua pessoa, em total harmonia, como bem disse o apóstolo Paulo:

Colossenses 2:9 Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade;

Assim que, concluímos que a doutrina da união hipostática de Cristo é totalmente bíblica.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O Fogo eterno

"Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos" (Mt 25:41). A sentença de condenação que proferirá nosso Senhor Jesus no grande dia do juízo final, têm sido vista como uma das provas do sofrimento eterno dos pecadores. Veremos a seguir, porém, como tal crença é infundada, e que devidamente analisada, tais palavras são justamente o contrário do que dizem.

Além de Mateus 25:41, a expressão fogo eterno ocorre somente outras duas vezes nas escrituras, e uma delas é de suma importância para elucidarmos esse termo. Leiamos Judas 7: "Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas que havendo se prostituído como aqueles anjos, e ido após outra carne, foram postas como exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno." Este texto sagrado chama atenção pelo fato do escritor inspirado ter empregado esta mesma expressão para uma cidade/pessoas cujo castigo já teve fim! Tal declaração é de grande valia para o entendimento correto do que é de fato o fogo eterno: castigo infinito, infindável? Não! Antes, uma destruição irreversível, eterna, para sempre! Isso é um fato, já que Sodoma e Gomorra há séculos pararam de queimar, mas sua pena foi eterna: Fogo eterno.

Alguns objetam, afirmando que Judas não quis dizer que estas cidades foram destruídas para sempre (sendo esta a pena do fogo eterno), mas que na verdade ele queria dizer que os habitantes destas cidades estão sofrendo ou sofrerão o mesmo "tormento eterno" que o diabo e demais ímpios. Esta alegação contudo não procede, pelas seguintes razões: Se esta fosse a intenção do autor, ele não precisaria usar Sodoma como exemplo, pois o que aconteceu com ela não seria de fato um aviso, como o versículo diz! Mas o verso fala justamente que sofreram essa pena, e que isso é um exemplo para nós.

Segundo, porque Pedro tem raciocínio semelhante ao de Judas na sua epístola: "E condenou à destruição as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as a cinza e pondo-as de exemplo aos que haviam de viver impiamente." (2 Pe 2:6). O apóstolo também nos prova que Sodoma e Gomorra foram totalmente destruídas, virando cinzas, e que isso é aviso para todos os ímpios que viriam depois! Pedro, além de não deixar dúvidas de que o castigo daquele povo foi destruição total, reitera que é um exemplo para os pecadores.

Em terceiro lugar, o próprio Cristo garantiu que a pena que os moradores de Sodoma sofrerão será menor que a das outras cidades (Mt 10:15). Isto desmonta a crença de que será um tormento eterno para todo mundo e que Judas quis dizer isso em sua epístola, pois além de provar que uns serão mais castigados e outros menos, mostra que o povo de Sodoma não está sofrendo este tormento eterno, sim que serão punidos novamente, mas menos que os demais. Jesus também comparou a manifestação de sua vinda com o que sucedeu com este povo em Lc 17:28-30. "Curiosamente", os mesmos elementos que queimaram essas cidades, são os mesmos que experimentarão os perdidos no juízo final: "lago de fogo e enxofre, que é a segunda morte" (Ap 21:8).

Portanto, Mt 25:41, uma vez sendo analisado à luz de outros textos que tratam do mesmo tema, no caso da volta de Cristo e juízo de Deus, não prova um tormento eterno e consciente, mas sim o oposto disto, uma completa, definitiva, irreversível e eterna destruição.

Mt 10:28 e a imortalidade da alma

"E não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei, antes, aquele que pode fazer perecer no inferno a alma e o corpo." Uma passagem bastante usada pelos defensores da imortalidade da alma, Mt 10:28 é citado como prova de que temos uma alma imortal que sobrevive à morte do corpo. Mas seria isso mesmo que Jesus ensinou? Se não é, que evidências temos para dizer o contrário? Veremos a seguir.

Ao longo de toda a Bíblia, a alma nunca é apresentada como existindo fora do corpo e sendo imortal. Se tivéssemos ao menos um verso nesse sentido, não teríamos porque duvidarmos que esta declaração ensine isso. Mas além do próprio contexto de Mt 10:28, que mostra que a alma pode perecer ou ser destruída com o corpo, temos muitos textos bíblicos em que a alma morre: (Ex 31:14, Lv 23:30, Sl 78:50, Ez 18:4, Js 10:28, 34, 35, 39-40, Is 53:12, Sl 116:8, At 3:23, Tg 5:20, etc.) Sabendo que a morte da alma (diferente de muitas crenças, religiões e filosofias), é comum na Bíblia, vejamos o que vem a ser a alma que os homens não matam, mas Deus pode fazer perecer com o corpo.

Em Lc 21:19, lê-se: "Pela vossa perseverança ganhareis vossas almas." Aqui a alma é dada como a recompensa dos justos. Em alguns versos anteriores, Jesus alerta da perseguição que seus discípulos sofreriam (Lc 21:16), sendo até torturados e mortos. Mas ele os conforta, mostrando que nada disso seria em vão: "Na vossa perseverança, ganhareis vossas almas." Todas as lutas deles resultariam em prêmio, sendo essa "alma" um símbolo da vida eterna que eles ganhariam, e que nem o mais maldoso dos homens pode roubar. "Podem matar o corpo, mas não a alma", esse dom só Deus pode dar, mas também pode impedir alguém de desfrutar, ao castigar a pessoa com uma segunda morte, sem esperança de ressurreição.

O original de Mt 10:28 é Geena, que nos tempos de Jesus era o local de Jerusalém onde eram queimados os corpos de criminosos que não eram sepultados, sendo equivalente ao lago de fogo e enxofre do Apocalipse que é a segunda morte. Matar o corpo, seria então a morte para essa vida, que todos sofremos por causa de Adão. Já "destruir corpo e alma" na Geena, é a segunda morte de uma pessoa no lago de fogo, sendo assim privada do dom da vida eterna (alma), castigada de uma maneira irreversível, com uma morte eterna que somente Deus pode dar.

Em Hebreus 10:39, lemos: "Nós porém, não somos daquele que regridem para a perdição, mas do que crêem para a conservação da alma." O autor dessa epístola, sabia que voltar a pecar é um risco de morte para a alma (Ez 18:4, At 3:23, Tg 5:20), mas também pode ter escrito tendo em mente o sentido de alma como vida eterna que os justos ganharão (Lc 21:19). Seja qual o for sentido, Hb 10:39 confirma que a preservação da alma é manter-se obediente a Deus, não a imortalidade da alma em si mesma, o que se harmoniza com outros textos: (Pv 19:16, Ez 18:4, Tg 5:20), "Eis que todas almas são minhas, como a alma do pai, também a alma do filho é minha; A alma que pecar, morrerá" (Ez 18:4)." Saiba que aquele que converter do erro do seu caminho um pecador, salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados."(Tg 5:20).

A alma pode morrer, principalmente se pecarmos. Alguns versos antes, em Hb 10:27 temos o alerta de que se pecarmos conscientemente, teremos que temer um "juízo e ardor de fogo, que há de devorar os adversários". Em Lucas 12:4-5, Cristo diz o mesmo que em Mt 10:28 sem mencionar alma, mostrando que depois da morte do pecador, virá seu lançamento total na geena, ou seja, o castigo da segunda morte no lago de fogo de Ap 21:8 (que só acontecerá após o retorno de Jesus, ressurreição e juízo: Mt 16:27, 25:31-46, Lc 14:14, Jo 5:28-29, Jo 6:40, 2 Pe 3:7, 2 Tm 4:1, 2 Co 5:10, Jo 12:48). Além disso, apenas os justos viverão eternamente (Jo 3:16, Rm 2:7, 6:21-23, Jo 6:47-51, 2 Tm 1:10), e aos pecadores cabe a segunda morte (Ap 2:11, 21:8). Em Mt 5:29, Jesus fala do corpo de alguém ir parar na Geena sem nenhuma menção da alma ser torturada nesse lugar.

Portanto, haja visto que a alma é mortal na Bíblia, que em Lc 21:19 Cristo ilustrou o termo alma como a vida eterna que os crentes receberão, que em Hb 10:39 a conservação da alma está ligada a obediência, em Tg 5:20 a alma do pecador corre risco de morte, fica difícil de ver em Mt 10:28 a alma como um elemento imaterial, incorpóreo e imortal separado do corpo! Como todos vão ressuscitar e ser julgados (Dn 12:2, Jo 5:28-29, At 24:15) e que por causa da ressurreição, a morte não é o fim (1 Co 15:21-22), concluímos que a alma de Mt 10:28 não é um "gasparzinho camarada" flutuando em algum lugar após a morte, nem nada imortal, mas sim a vida eterna que Deus dará aos cristãos perseverantes, mas que os pecadores não desfrutarão, sendo exterminados com a segunda morte no lago de fogo e enxofre (Ap 21:8), depois de pagarem por seus pecados (Lc 12:46-48), sofrendo por fim a morte eterna (Sl 37:9, 10, 20, 34, 38, Sl 92:7, Pv 2:22, Ez 18:20-26, 33:11, Is 1:28, 29:20-21, Ob 1:16, Ml 4:1-3).

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Baile de máscaras

Vivemos em um mundo de aparências, onde não se pode ser quem realmente é. Sorrimos estando tristes, concordamos sem concordar, elogiamos coisas que detestamos, dizemos sim querendo dizer não. Vamos aonde não queremos ir, trabalhamos no que não sonhamos, moramos onde não queremos. Vivemos com alguém que não amamos para não ficarmos sozinhos, e se estamos sozinhos, fingimos que gostamos de estar assim.

Toleramos desaforos por não poder revidar, falamos mentiras por não poder dizer a verdade. Rimos da desgraça alheia para esquecer da própria, omitimos nossas fraquezas para aparentarmos fortes.   

Ostentamos o que não temos, fingimos ser o que não somos. Invejamos os outros, mas não queremos ser invejados. Queremos o que não é nosso, e não valorizamos o que nos pertence. Julgamos um erro alheio sem pensar que também podemos cometê-lo. Dizemos ter calma para não mostrarmos pânico.

Às vezes queremos ensinar o que ainda nem sabemos! Queremos ser senhores de nosso destino, quando não somos donos da nossa própria vida! Nos machucamos e não dizemos o quanto dói, ferimos a outro e dizemos que nem doeu. Odiamos a vida, mas temos medo da morte...Usamos a nossa máscara para sermos aceitos no baile e não a deixamos cair até que tudo termine e não seja mais necessário usá-la.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Verdades póstumas

Você deseja dias melhores, mas eles não vêm. Espera um milagre, e ele não chega. Deseja o sono, pra poder descansar, e de fato dorme, mas não demora, você acorda. Quer ficar sozinho, mas não consegue...Se consegue, por pouco tempo! Quer que o que dia termine, mas de novo outro dia começa...Quer que as horas passem rápido, mas você sente as horas lentas...Quer que o relógio volte no tempo, ou acelere, mas ele segue seu curso normal! Você quer chorar, mas não há lágrimas, ou se há, não pode deixar que elas rolem...   

Você quer falar da sua tristeza, mas não tem coragem, quer parecer forte, e se enfraquece mais ainda...Se você fala de seus problemas, não dão crédito, e se te escutam, te culpam ou banalizam a sua dor...Se te vêem abatido te perguntam o por quê; Porém, se fala o que te aflige, não se sensibilizam...

Você vê sua vida passando sem nada poder fazer...Vê problemas por todos os lados, mas não encontra nenhuma solução! O tempo passa, mas nada muda...Os anos terminam, e continua tudo igual. Seus planos, sonhos e projetos são os mesmos, pois você não os realizou neste ano...Nem no ano passado, nem no retrasado, nem acredita mais que os realizará no ano que virá!

Você quer saúde, mas definha miseravelmente com uma doença, crônica, degenerativa, incurável! Quer ter amigos, namorada(o), mas todos te rejeitam...Quer ser feliz, mas não consegue...Quer um pouco de alegria, mas só tem tristeza, amargura, decepção...Você quer a morte, mas ela não vem!       

Então você desiste, se mata, aí as pessoas ficam chocadas e te julgam!

domingo, 16 de setembro de 2018

O justo herdará a terra

Já faz parte da crendice popular a idéia de que os salvos passarão a eternidade no céu. O justo morre, sua "alma imortal" sai do corpo, e antes mesmo da ressurreição, entra na "glória", onde ficará para sempre, com asinhas e tocando harpa...Será que isso é mesmo bíblico? Onde é dito que o céu será a recompensa dos salvos?

 A expressão "Reino dos céus", comum no evangelho de Mateus (Mt 3.2), é confundida com ir morar no céu. Fato é que o reino procede dos céus (Fp 3.20), pois é lá onde Deus habita (Mt 5.16, 45, 6.9, 10.32), sendo portanto nosso Pai Celestial (Mt 6.32). Onde o nome dos salvos estão escritos (Lc 10.20), e a recompensa está guardada (Mt 6.20, Lc 6.23, 18.22, 1 Pe 1.4). Isso contudo não quer dizer que vamos pro céu assim que morrermos, pois que nem mesmo Davi, um homem justo, foi pra lá (At 2.34), e Cristo prometeu nos levar para lá depois que ele voltar, e o mesmo ensinaram seus discípulos: (Jo 14.1-3, Mt 24.29-31, 1 Ts 4.15-17, 2 Tm 4.6-8).  

 Vale lembrar que ainda que os salvos possam passar um período no céu com Cristo após seu retorno, ainda assim o reino será na terra, pois a Jerusalém Celestial é que descerá para vivermos eternamente aqui, num mundo restaurado (At 3.19-21, Ap 21.2). Pois Deus não criou a terra em vão: "Assim diz o Senhor que tem criado os céus, o Deus que formou a terra e a fez. Ele a estabeleceu, não a criou vazia, mas a formou para que fosse habitada." (Is 45.18). O céu é a morada exclusivamente de Deus: "Os céus são os céus do Senhor; mas a terrra, deu-a ele aos filhos dos homens." (Sl 115.16).

O propósito de Deus para o homem era que esse dominasse toda a criação da terra (Gn 1.26, Sl 8.4-9), vivendo em paz e harmonia num mundo paradisíaco para sempre, contanto que não pecasse (Gn 2.17), o que Adão fez, trazendo assim a morte para si e toda a humanidade (Gn 3.19, Rm 5.12, 1 Co 15.22). Adão foi criado para viver na terra, cuidando dos animais, diferente dos anjos, que já foram feitos espirituais para servir a Deus no céu (Sl 103.19-21, Mt 18.10, Hb 1.14). 

No fim dos tempos Deus cumprirá seu projeto inicial pro homem, quando der um fim nesse mundo atual e estabelecer seu reino aqui (Is 65.17). Jesus fez a promessa: "Bem aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra." (Mt 5.5), confirmando assim o que foi dito no Antigo Testamento: (Sl 37.9, 11, 22, 29, Pv 2.21-22, Is 60.21, 66.22). No Apocalipse, assim como em Daniel, mostra-se que o Reino de Deus abrangerá toda a terra, "tragando" os reinos deste mundo: (Dn 2.44, 7.14, 7.27, Ap 5.10, 11.15, 12.5). 

 Não há porque crer que Deus fará uma nova criação, um mundo renovado, para ninguém morar nele! Pelo contrário, ele próprio virá habitar entre nós (Ap 21.3), uma vez que ele não criou a terra para ser um caos (Is 45.18) e prometeu dá-la como herança aos seus santos: (Pv 2.21, Is 66.22, Mt 5.5, 2 Pe 3.13). Será uma terra renovada, sem pecado e pecadores (Sl 37.9-11, 34, Sl 104.35, Pv 2.21-22, 2 Pe 3.7-13), sem mais dor, morte e sofrimento (At 3.19-21, Is 65.17, Ap 21.4-6), onde o próprio Deus reinará eternamente com seu povo: (Dn 7.18, Ap 21.3, 22.1-5), cumprindo-se assim Mt 6.10: "Venha o teu reino."