quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Bastidores

Dispense o seu dinheiro, 
ele não pode me ajudar. 
Guarde suas belas palavras, 
já conheço este discurso inteiro, e sei muito bem como isso vai terminar. 

Eu estou em pedaços 
e não posso me recompor. 
Adoraria seguir seus passos, 
ir aonde você for. 
Mas o meu caminho será diferente 
e igual ao de muita gente, 
lhe peço, não me acompanhe, por favor. 

Somos autores da nossa história, senhores de nosso destino. 
A cada um coube uma parte nesse espetáculo, 
essa tragicômica arte. 
Você é o ator por detrás da cortina, lhe espera o fracasso ou a glória. 

O que você passou nos bastidores ninguém sabe,
ninguém soube. 
Suas lágrimas, risos e dores ali ficaram. 
Mas já passaram, 
caíram nesta viagem. 
Ei, já chega! 
Não vamos borrar a maquiagem.

sábado, 14 de novembro de 2020

O homem que não trabalhava

Desperta mais um dia 
sob a luz matutina. 
Não sabe para onde ir 
nem o que fazer, 
sua rotina é não ter rotina. 

A cabeça está cheia 
e a carteira vazia. 
Falta-lhe dinheiro até pra uma meia, 
que dirá para aquela peça 
que na vitrine viu 
e comprar tanto queria! 

Sai para entregar seu currículo,
na primeira empresa que aparecer. 
O que vier serve, 
repositor, faxineiro, frentista, não pode escolher. 

Fica atento ao telefone 
como um fã no aguardo do artista. 
Não pode crer que sua espera é vã, 
não vão chamá-lo à uma entrevista. 

Cada dia de ócio
é um péssimo negócio, 
desperdício de um bem 
tão importante e precioso, 
o seu tempo valioso. 
Lhe dói passar cada instante 
numa inércia angustiante.

Tenta convencer-se de que tudo isso vai passar 
e que sua hora vai chegar. 
Esquiva-se de amigos e parentes, 
sabe que irão perguntá-lo 
sobre sua situação, 
irão lhe indagar, mas não ajudar.

Passa a maior parte do tempo em casa, 
triste e desanimado. 
Embora saiba que não é o único neste quadro, 
o sentimento de culpa persiste, permanece angustiado. 

Surge uma oportunidade, ele levanta-se, vai atrás, todo empolgado. 
Comparece à entrevista, 
faz o melhor que pode. 
Dias depois recebe uma ligação, 
ansioso atende,
crendo ter sido selecionado. 
Mas não é o que pensava, 
sem explicação, fora rejeitado. 

O homem se entristece, 
o semblante empalidece. 
Percebe que sua dor não é só um momento. 
Desiste de procurar aquilo 
que sabe que não vai encontrar, cai no desalento. 

As horas se transformam em dias, 
os dias em semanas, 
as semanas em meses, 
os meses em anos. 
Muitas vezes, de lágrimas
 se adornam
esses tempos que se perdem e não retornam, as horas livres e insanas. 

O homem se desconhece, 
já não sabe mais quem é. 
Seu corpo enfraquece, 
sua mente enlouquece, 
entra em crise de identidade, e no futuro perde a fé. 

Olha para a janela, 
vê o movimento da cidade. Sente-se perdido, 
abandonado e excluído. 
É mais uma segunda-feira, para muitos um dial normal e patético, mas não para ele, um desempregado. 

Ele resigna-se à seu triste estado. 
O homem então aceita sua nova realidade,
tornara-se um animal doméstico.

sábado, 10 de outubro de 2020

Cronos

Não podemos voltar ao passado, nem prever o futuro. O único tempo que temos é o que chamamos presente. O passado é visto como uma página virada, uma experiência vivida e superada. O futuro é algo distante, nele projetamos nossos desejos e esperamos ver nossos sonhos realizados.

Se não estamos satisfeitos com o presente, apostamos nossas fichas no futuro ou desejamos voltar ao passado, retornar ao período em que éramos felizes. Tentamos escapar do nosso estado atual, seja buscando consolo num tempo que ainda não chegou ou nos refugiando nas agradáveis recordações de um tempo passado.

O tempo sempre será nosso maior adversário, nossa maior preocupação. "Não tenho tempo a perder", "Isso é perda de tempo", "Tempo é dinheiro". Queremos aproveitá-lo da melhor forma possível, e nos desesperamos quando vemos que ele segue sua marcha velozmente, altivo e soberano, sem se importar com nossas queixas, carências, anseios, inquietações!

Quando conquistamos aquilo que sonhamos sem demora e sem maiores dificuldades, o tempo corre a nosso favor. Porém, quando não obtemos o que desejamos dentro do prazo estimado, o tempo corre contra nós. Sua velocidade torna-se assustadora. Cada segundo, minuto, hora, dia, semana, mês, ano perdido é como se fosse um tempo desperdiçado, jogado fora, que não volta. Nos aflige vê-lo passar sem termos feito, conseguido, obtido aquilo que almejamos. E, obviamente, não podemos pará-lo até conseguirmos o que queremos. Temos que ir contra ele, como um herói que têm poucos segundos para desarmar uma bomba e evitar uma grande explosão.

Devemos seguir o curso do tempo, como uma folha que se deixa levar pelas águas de um rio. A folha não sabe para onde será levada, mas vai. Não sabe que obstáculo terá pelo caminho, se um toco ou uma pedra poderão detê-la, mas avança. O mesmo acontece conosco: não sabemos o que virá pela frente, mas seguimos, nos deixamos levar.

Temos a sensação do quanto percorremos ao olharmos para trás, e do quanto ainda falta percorrer quando olhamos para frente. Somos um ponto negro em meio a um imenso quadro branco. Um lapso de consciência, sensações, emoções que toma forma repentinamente, saindo por um instante do buraco negro, do vazio, do nada no qual estivemos por toda a eternidade e para o qual voltaremos em breve.

Somos um milagre, uma estrela que brilha iluminando a escuridão da noite, até apagar-se e voltar a se perder nela.

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

O mártir sofredor

I

A triste, deplorável, mísera condição humana. O que dizer do homem? O que dizer da vida? O que diremos sobre tudo isso? Como conseguir suportar esta loucura sem mentir e enganar a si mesmo? Como somos capazes de prosseguir em nossa marcha rumo ao abismo, ao vazio, com tantos obstáculos pelo caminho? O que nos impulsiona a continuar, mesmo quando tudo vai mal? Como explicar essa eterna luta por nada?

Desde eras muitos antigas, há séculos, a humanidade vêm tentando entender sua existência, sua condição e propósito neste universo. Muitas e várias explicações foram dadas, cada uma à seu modo tentando dar um porque a várias perguntas, ou pelo menos respostas que aparentemente preencham tais lacunas.

Muitas questões têm intrigado o homem, como o mal, a dor, o sofrimento, a morte, a vida após a morte, a imortalidade da alma, mas acima de tudo: a sua própria existência. Mais importante do que descobrir sua origem, sua natureza, é entender sua finalidade. Qual o sentido da vida?

Muitas respostas à essa intrigante e fundamental pergunta têm sido dadas, partindo de diferentes perspectivas. Religiosos, pensadores, cientistas fazem o que podem para dar uma explicação plausível. Todos partem de um princípio: já que não se pode negar o absurdo da vida, deve haver um pretexto razoável para isso. Isto é, se a vida não possui nenhuma justificativa, deve-se encontrar uma boa desculpa para ela.

Uma vez que ninguém pode negar o sofrimento que existe neste mundo, cabe procurar uma razão, uma lógica pela qual valha a pena viver apesar do sofrimento.

II

O homem contempla a vastidão do universo enquanto se depara com a sua própria finitude. Vê o sol, a lua, as estrelas e não pode alcançá-los. Quer voar, mas não têm asas. Ele é grande demais para ser pequeno neste mundo e pequeno demais para ser grande neste universo infinito. É simplesmente mais uma das muitas criações do Criador, porém a mais complexa. É um ser intermediário entre os animais e os anjos, um elo entre o físico e o espiritual.

É também um poço de contradições. Apesar de suas limitações, têm em si mesmo uma poderosa arma para manter-se de pé, e superar a todos os obstáculos que se lhe apresentam: a inteligência. Através dela, pode construir arranhas- céus, enviar satélites pro espaço, desfrutar dos avanços tecnológicos, criar e apreciar a arte. Contudo, é doloroso ver que a despeito de tudo o que fizermos ou quão longe tivermos ido, ainda assim terminaremos como os animais, as bestas, os seres irracionais que subjugamos e nos cremos moralmente superiores.

Não é fácil aceitar que mesmo que cheguemos a pisar na lua, voar como pássaros, nada nos impedirá de um dia estarmos a sete palmos debaixo da terra. Um médico que encontra a cura para todas as enfermidades menos para a sua própria doença, com razão se sentirá frustrado.

O homem pode passear em volta da órbita terrestre, conquistar reinos, fundar impérios, escrever seu nome na história, mas jamais poderá ultrapassar os limites da sua própria natureza, por mais que queira muda-lá, ou principalmente negá-la.

III

Além da inteligência, há outro fator que nos diferencia dos demais seres vivos neste planeta ou talvez no universo: a consciência. O homem não apenas existe, como também sabe que existe. Diferentemente dos animais que são movidos, guiados e sobrevivem totalmente através de instintos, o ser humano têm plena consciência de sua existência e condição no mundo.

Ele conhece suas limitações, suas capacidades, seu potencial e fraqueza, mas principalmente, sabe de seu destino. Ele é o único que sabe de sua própria mortalidade, está ciente disso. É um fato com o qual está obrigado a conviver, quer goste quer não.

Isso a primeira vista pode parecer uma coisa boa, um trunfo, pois a melhor forma de se combater um inimigo é conhecendo-o. Tal seria o caso se o inimigo em questão não fosse invencível!

Quando se trata da morte não há remédio ou escapatória. O homem têm diante de si uma sentença irrevogável, uma pena que terá que cumprir. Um destino do qual não poderá fugir, apenas adiar, retardar o máximo possível. 
E o fato de saber disso é o que mais dói, aflige e perturba o coração humano.

IV

A consciência é para o homem uma faca de dois gumes: pode trazer-lhe alegria ou lhe proporcionar a mais profunda tristeza. Saber de sua condição no mundo e ter ciência de suas limitações pode ajudá-lo a buscar soluções para seus problemas, como também pode fazê-lo se sentir o mais miserável de todos os seres, justamente por conhecê-los e não poder mudá-los. Isto é, a consciência nos permite saber quem somos e quão miseráveis somos. A consciência que ilumina também mata!

Poderíamos indagar-nos se realmente existe alguma vantagem em sermos inteligentes, racionais e termos consciência de nossa própria existência. Seria isso uma vantagem sobre os animais? Um motivo para nossa felicidade ou a maior causa de nossa desgraça? Que lucro temos em conhecer nossas misérias se não podemos mudá-las?

Quando o homem se dá conta da realidade em que vive, das limitações que possui e das mazelas presentes no mundo, a sensação que têm é de angústia. Ter um problema que é incapaz de resolver, ver coisas ruins acontecerem consigo e seus semelhantes sem poder impedi-las ou amenizá-las, é como estar de mãos atadas.

O homem seria então o louco que sabe de sua própria loucura, um doente que sabe da gravidade de sua doença. Porém, para manter-se são, necessita de alguma forma crer que é saudável. O escravo necessita crer que é livre, pois ainda não aprendeu a suportar as pesadas correntes que o prendem.

V

Todas as ações humanas constituem-se portanto em uma forma de auto-afirmação. O homem precisa crer que é alguma coisa para poder suportar sua estadia neste mundo tão caótico e instável. Quando não possui forças suficientes para acreditar em si mesmo, deve crer em algo superior que possa ajudá-lo a sentir-se protegido durante sua jornada.

Uma vez que não se pode mudar a realidade do mundo em que vive, deve buscar uma forma de afirmar-se nele e assim sentir-se forte. Isso é, ter um título, diploma, posses, são formas de mostrar-se forte neste ambiente selvagem, como um predador que carrega a presa em meio aos dentes, dando claramente sinal de força à seus semelhantes, recebendo o respeito e a admiração dos mesmos.

O homem precisa se auto-afirmar para poder negar suas misérias. Cada gesto de poder, cada ordem de comando, cada demonstração de força, são simplesmente formas de negação, mecanismos de defesa que a mente humana encontra para não ter de admitir, reconhecer suas contradições e debilidade.

Isso nos lembra o texto bíblico de Gênesis 11, o relato da Torre de Babel. Deus frustrou os intentos daqueles homens audaciosos que queriam construir uma torre cuja ponta tocasse os céus. E por que tinham tal pretensão? Por que desejavam que seus nomes fossem lembrados e não fossem espalhados pela face da terra. Ainda hoje o ser humano quer tocar o céu, colonizar Marte, etc, apenas para não aceitar que seu nome será esquecido e espalhado por sobre a terra, engolido pelo tempo e a história.

VI

Analisemos agora a condição humana. Vejamos pois o absurdo que é o homem, ou mais precisamente a vida humana.
A vida consiste em resolver problemas. É simplesmente "uma luta pela existência com a certeza de ser vencido", como disse um célebre pensador alemão. Quase não há espaço para a diversão, a alegria e o lazer. Todo homem tem que trabalhar para viver, mesmo que viva para trabalhar. É necessário obter o sustento com muito suor, ainda que isso só sirva para prolongar o sofrimento que não há a menor pressa que acabe.

O homem tem de lutar pela vida, ainda que não a tenha pedido e desconheça seu significado. É preciso matar um leão por dia, mesmo sabendo que por mais leões que se mate, um dia o caçador será caçado, não importando o quanto conquistou até lá.

O começo de nossa existência é tão abrupto e repentino quanto nosso fim. Sem mais nem menos viemos parar aqui, e querendo ou não teremos que deixar este mundo. Não fomos consultados se gostaríamos de estar aqui. E agora que estamos, gostando ou não da idéia, teremos que ir embora. Mas e se eu gostar de viver? Não importa, morrerei da mesma forma.

É este período compreendido entre o nascimento e a morte, o grande problema que temos. Esse intervalo de tempo que denominamos "vida", a causa de nossas inquietações e dor de cabeça. É difícil para o homem entender que precisa sofrer numa curta vida que recebeu sem jamais ter requerido, ou quando feliz e satisfeito, ter que morrer. Esse dilema não têm solução aparente. Todas as soluções que são apresentadas são crenças, idéias, teorias, especulações, nada que consiga mudar nossa triste realidade: viemos pra esse mundo sem uma razão aparente, por um breve período sorrimos, choramos, amamos, sofremos, e por fim estamos fadados a desaparecer.

Sabendo que tudo pode terminar a qualquer momento, tão repentinamente como teve início, só nos resta tentar aproveitar o pouco tempo que temos, seja lutando por uma vida melhor depois desta ou fazendo o melhor para ser feliz (se possível) nesta vida, sem esperar nada no além, dando-se por satisfeito com esta existência absurda e contraditória, transformando-a em um tesouro e dando-lhe a cada dia um novo valor.

VII

Todos os nossos esforços são feitos na busca pelo prazer. Ou na procura por alívio. Tal como animais, somos guiados por nossos instintos, numa busca incessante por satisfazer nossas necessidades. Existem necessidades reais e básicas e outras supérfluas e descartáveis. Seja como for, somos dominadas por ambas, sendo as básicas as mais urgentes e que não podem esperar.

A maior parte de nosso tempo passamos empenhados nisto: procurando suprir nossas necessidades, tentando encontrar alívio para nossas dores e buscando prazer para nos sentirmos bem.

O problema que temos aqui é quando surgem barreiras que podem nos impedir de alcançar aquilo que queremos ou precisamos, sendo essas difíceis de superar ou contornar. É aí onde nasce a frustração. O desejo não cumprido, a necessidade não suprida decepciona e entristece. A sensação de impotência vêm, demonstrando que querer não é poder, e que às vezes até mesmo o básico, o essencial nos pode ser negado.

Estando cientes disso, possivelmente poderemos reagir de várias formas: nos sentiremos injustiçados e ficaremos paralisados diante dos nãos, as portas fechadas que recebemos. Tentaremos lutar até vencer, dando a volta por cima. Ou talvez decidamos não fazer nada, porquê cremos que não há nada que possa ser feito e se houver, não vale a pena o esforço.

VIII

O objetivo máximo da humanidade têm sido a busca pela felicidade. Mas levando em consideração as contradições, injustiças, instabilidade do mundo em que vivemos, é difícil acreditar que seja possível encontrá-la. Pelo menos não neste mundo, não neste sistema.

Há coisas que não dependem apenas de nós. Estão além de nossas forças. Há sempre um choque entre o desejo e a possibilidade deste se concretizar. Nesse interím temos os sonhos, a força propulsora que nos mantém vivos. Não importa se eles são factivéis ou não, nós precisamos deles. São cordas nas quais nos agarramos para não cairmos no abismo. Vivemos de sonhos pra que a realidade não nos mate!

O que antes foi dito sobre os obstáculos que se interpõe entre nossas metas e realizações, causando a inimiga máxima de nossa felicidade, a frustração, torna-se um grande problema quando esta é recorrente. Se a frustração de um sujeito se deve a fatores de fato fortes, verdadeiras barreiras que este possui e não dispõe de recursos para ultrapassar, sua queixa será justa.

Um escravo, por mais que deseje, dificilmente saberá o que é ser livre. Ele nasceu assim, viverá assim, e muito provavelmente morrerá assim. Para ele não basta apenas desejar ser livre. Se trata de ter nascido livre, ou talvez por graça e providência divina, ganhar a liberdade. Por si mesmo, ele não pode conquistá-la. O que lhe resta é sonhar ou resignadamente aceitar sua condição, uma vez que não pode mudá-la.

Essa é a mesma angústia que terá cada pessoa quando desejar algo e não puder obtê-lo, por estar amarrado, de mãos atadas, vítima da vida e refém das circunstâncias. Tal será a sensação de impotência que virá, fazendo-nos recordar o quão limitados somos ou a vida nos leva a ser.

IX

Há pois três grandes problemas na condição humana: a consciência que nos permite saber quem somos e quão miseráveis somos. O choque entre querer e poder, e as instabilidades e incertezas da vida. Poderíamos considerar a certeza da morte como um quarto problema, mas a existência de suicidas nos mostra que nem todos a vêem assim...Ela de fato poderá ser um castigo para o feliz, alegre e satisfeito como também um bálsamo, um alívio para o desesperado. Tudo depende do ponto de vista.

A consciência faz com que o homem se sinta refém, prisioneiro de suas próprias limitações. Conhecer sua condição é o equivalente a conhecer suas próprias misérias. Boa parte do sofrimento humano provêm daí. O homem sabe de suas limitações mas não pode mudá-las. É como um refém que vê seus entes queridos sendo rendidos, golpeados, roubados, sequestrados, sem poder fazer nada para impedir por estar na mesma situação: de mãos atadas. Ver a dor de nossos semelhantes e não poder ajudá-los é realmente frustrante.

O choque entre querer e poder é inegável. Quando temos um sonho ou um simples desejo e estes não se podem concretizar por causa da interferência de fatores externos, nossas limitações são trazidas à tona novamente. O homem percebe que não têm o mundo a seus pés, ao invés disso, o mundo o têm sob seu domínio. Ele não é livre para usufruir de plena liberdade como gostaria de acreditar. Muitos fatores podem intervir neste processo, favorecendo-o ou prejudicando. O que cabe ao homem é administrar os recursos que possui, lutar com as armas que têm, ser livre até onde sua liberdade o permite ser.

A vida que temos e o mundo em que vivemos são instáveis e imprevisíveis. Nosso futuro é tão incerto como o dia de amanhã: não sabemos o que esperar dele, e ainda assim fazemos planos e traçamos metas que esperamos cumprir. Não levamos em conta que eventuais obstáculos poderão surgir e precisaremos enfrentá-los. E quando isso acontece, somos surpreendidos e não sabemos o que fazer. Isso mostra que o homem não possui total controle e autonomia sobre a própria vida, e muitas vezes o que pode fazer é adaptar-se, conformar-se com as circunstâncias.

Isto fere frontalmente o ego e orgulho humano, demostrando mais uma vez sua fraqueza e impotência perante situações cotidianas que atrapalham desde seus planos e projetos mais simples até os mais complexos.

X

O mais triste de tudo é que embora sejamos iguais em nossas fraquezas, não o somos em nossas possibilidades. Isto é, o fim é o mesmo para todos, mas as condições não são as mesmas para todas as pessoas. É uma grande mentira dizer que todos têm as mesmas chances, as mesmas oportunidades, as mesmas possibilidades. Somos iguais em nossos deveres, mas não em nossos direitos. Temos as mesmas obrigações, mas nem sempre as mesmas opções.

De fato, muitas vezes as chances de êxito, alegria, bem-estar, qualidade de vida de uma pessoa são determinadas pelas circunstâncias em que se encontra. Tais condições são impostas pelo contexto histórico, cultural, social, familiar, econômico do meio em que vive. São estes fatores que desde o nascimento podem determinar muito positiva ou negativamente nas chances de sucesso, realização e felicidade de alguém.

Logo, é uma ironia afirmar que o sol brilha para todos, que basta acreditar que dias melhores virão, que tão somente devemos lutar, nos esforçar...Que a felicidade é só uma questão de escolha...Será? Isto não parece condizente com a realidade. É tão distante da verdade que podemos dizer que nem mesmo os que pregam tal coisa crêem realmente nela...Só a dizem para se sentir bem e dar alento aos demais.

A forma como uma formiga vê a vida não é igual a forma que a vê um elefante. Se no reino animal é assim, há uma cadeia alimentar e uma hierarquia, presas e predadores, no humano não é muito diferente. Cada um terá que viver de acordo com suas condições, sendo estas impostas pela vida ou por outras pessoas.

O que dizer de um cego de nascença? Ele nunca terá o prazer de ver a luz. Um surdo? Mudo? Essas pessoas foram privadas do básico, de sua saúde. Não podemos exigir que elas vejam a vida com bons olhos, se a sorte não lhes foi nem um pouco favorável...O que diremos das crianças exploradas sexualmente? Das que passam fome? Ou das que são escravizadas, não tendo sequer direito a uma infância?

Não se pode dizer que tudo de ruim que acontece nas nossas vidas se deve a uma causa exterior, um fator externo. É evidente que muitos de nossos fracassos, decepções, frustrações, etc, são resultados de escolhas equivocadas, ações e omissões. Se plantamos batatas, não colheremos feijões! Mas é inegável que a vida nem sempre é justa, que o mundo é bastante cruel, tanto com os que merecem e os que não merecem. Às vezes pagamos por crimes que não cometemos, sofremos as consequências de erros de outros.

É lamentável saber que se por um lado todos vamos morrer, teremos o mesmo destino, nem todos terão uma vida feliz e digna, alguns morrerão sem conhecer um segundo de felicidade, tendo tido só desgostos e dissabores.

XI

O ciclo natural da vida faz com que pessoas diferentes façam sempre as mesmas coisas. Como disse o pregador em Eclesiastes: "Não há nada de novo debaixo do sol". As pessoas que viveram há 200 anos atrás tinham as mesmas ambições que temos hoje, e as que viverem daqui a 100 anos farão as mesmas coisas que estamos fazendo agora. As virtudes, os vícios, os sonhos e projetos são os mesmos, só variando o cenário histórico.

E que ciclo natural é este? É simplesmente a luta pela sobrevivência, a afirmação do ego, a perpetuação da espécie...Como em um círculo vicioso, pessoas nascem, vivem e morrem, realizando sempre as mesmas atividades, por vezes cansativas e patéticas...

São poucos os que ousam quebrar este ciclo, rompendo com as "tradições tribais" e assumindo uma nova postura, uma cosmovisão nova, uma personalidade própria...Estes são os "loucos" que nos causam tanta estranheza por serem diferentes em um mundo tão igual.

Somos como peças de uma máquina, criadas para executar sempre a mesma tarefa, estando cientes disso ou não. Na verdade precisamos executá-las, pois se não o fizermos, nos sentiremos mal, notaremos que não estamos funcionando como deveríamos...Ao romper-se o "ciclo natural da vida", sentimentos de frustração, decepção e tristeza virão nos afligir, e um olhar de espanto, descrença e incompreensão será lançado pelos demais...

Cada peça deve funcionar perfeitamente bem neste complexo, enfadonho e repetitivo sistema que nos rege...Nenhum músico deve destoar do tom prejudicando assim toda a orquestra.

Nossas funções nesta vida consistem simplesmente em realizar tarefas básicas como estudar, trabalhar, namorar, casar-se, ter filhos, aposentar-se, e num domingo de sol almoçar com a família tendo a prazerosa sensação de dever cumprido...E assim, cansados porém satisfeitos, nos deitaremos no sofá e enquanto assistimos televisão daremos o último suspiro...

Devemos executar com precisão e mecanicamente nossas tarefas sem sequer nos perguntarmos o porquê as executamos, para quê as executamos, e para quem as executamos.

XII

O rompimento com a harmonia natural do ciclo da vida lança o homem num estado de profunda angústia, frustração, crise de identidade. Saber que deve conquistar aquilo que outros conquistaram é para ele um duro desafio que lhe foi imposto, ou que o mesmo se impôs. Sim, podemos dizer que há imposições e auto-imposições. Existem padrões de beleza, felicidade, comportamento que são tidos como desejáveis, sendo seu oposto o equivalente exato ao "fracasso". Tão odiado, julgado, temido, é como uma peste da qual todos fogem.

Todos nós crescemos tendo como referência tais valores. E tendemos a nos desvalorizar quando não os encontramos em nós mesmos. O que acontece porém é que não percebemos que estes valores são simplesmente conceitos, definições, juízos. O que deveríamos nos perguntar é se teríamos essa mesma visão se não a tivéssemos aprendido antes. Temos que aprender a diferenciar o que é nosso do que é herança.

Uma mulher de 50 anos que não se casou nem teve filhos não é uma fracassada. Ninguém deveria ser obrigado a se casar e ter filhos, mas como é o que todos fazem, vemos com desconfiança àqueles que não fazem isso, seja por escolha ou não. Uma pessoa que não têm amigos não é uma pessoa estranha, pode ser simplesmente alguém que se acostumou a viver só, por não ver sentido no convívio social. Ou talvez tenha razões para preferir uma vida solitária, por não ter boas lembranças de quando quis socializar-se.

O cabelo crespo não é inferior ao liso. Só pensamos assim porque estamos habituados a ver o segundo com mais frequência nos comerciais de shampoo da TV do que o primeiro. Boa parte de nossos conceitos, valores e padrões foram apreendidos de nossos pais, amigos, da sociedade em que fomos criados. E nos custa muito aceitar isto e criar novos valores, uma nova forma de enxergar o mundo.

Mais cedo ou mais tarde teremos que compreender que nosso ritmo não é o mesmo dos outros, que nem sempre conquistaremos tudo o que o outro conquistou e que se o fizermos, não necessariamente será na mesma idade. Precisamos entender que nem todos têm a mesma sorte, e que a vida não deveria ser uma competição de quem faz mais em menos tempo.

XIII

Mesmo tendo em conta que cada um têm seu próprio tempo, que ninguém é igual a ninguém apesar de possuírem objetivos semelhantes, não é fácil evitar a frustração quando ela vem. Sem dúvida é uma reação natural do ser humano, uma resposta inconsciente que damos toda vez que não conseguimos aquilo que almejamos. Então, o que podemos fazer para evitá-la, sendo ela algo tão comum e recorrente? A resposta é simples: tentar desejar o mínimo possível, como bem observaram alguns notáveis pensadores.

É impossível aniquilar por completo a vontade do homem por ser este um ser consciente. Ele têm ciência de suas necessidades, e não estará satisfeito até supri-las.

Mas ele pode evitar desejar coisas que não lhe são realmente necessárias e que almeja simplesmente para competir com os demais. Ele deve dar-se por contente com o que têm, não desejar ter mais para estar contente. Só assim poderá sofrer menos, já que é inevitável sofrer.

XIV

O problema com a teoria anterior é que é difícil aplicá-la na prática. Falar é fácil, fazer não. Isto ocorre porque todos buscam a felicidade como forma de aliviar a existência, ao invés de entender que em um mundo tão incerto e instável é muito improvável que possamos encontrá-la. O desejo de Auto-afirmação leva também a outro problema: a comparação com os demais. Quando alguém vê o outro sendo feliz e desfrutando de uma vida invejável, nasce o complexo de inferioridade. O que é de certa forma compreensível, já que ninguém quer ser apenas expectador da felicidade alheia e mero coadjuvante da própria vida. O anseio por protagonismo é o que nos leva a sofrer.

A única solução para este dilema seria aceitar que querer não é poder. Que nem sempre as portas estarão abertas ou que todos estarão sorrindo para nós. A busca por soluções para problemas demasiado complexos nos quais pouco ou nada pode ser feito, gera desespero. Não deveria ser assim. Às vezes a saída é aceitar que não têm saída.

Quando o homem finalmente entender e se convencer de que as coisas não são como ele gostaria que fossem, que não está no seu alcance mudá-las e que o melhor que pode fazer é "deixar pra lá," boa parte do sofrimento terá sido superado.

O caminho para a felicidade é desistir de ser feliz. Porque tentar estabelecer metas, planos, projetos, condições para ser feliz é justamente a maior causa de nossa infelicidade. Estaremos criando barreiras pro nosso próprio bem-estar e nos frustaremos ao ver que não podemos superá-las.

XV

Por tudo o que temos observado e analisado, é difícil responder ou afirmar sem hesitação qual é o sentido da vida. Ao que tudo indica, parece não haver nenhum. A vida, em si mesma, é totalmente desprovida de propósito e significado. É como ponteiros de um relógio, movimentando-se sempre sem nunca sair do lugar. Apesar de desempenhar um importante papel, tais ponteiros desconhecem por completo a finalidade da função que executam. Assim como nós, que vivemos sem saber o porquê. Fazemos o que fazemos sem saber porque fazemos ou para que fazemos. Executaremos nossa função até que as pilhas se acabem e nossos ponteiros parem exatamente aonde estiverem indicando, de acordo com o tempo contado.

Cada homem é parte de um todo infinito maior do que si, e é também um universo em particular. Ele deixa suas impressões no mundo ao mesmo tempo em que reflete as impressões que o mundo o deixou. Todo animal deixa sua pegada antes de desaparecer, até que esta também desapareça.

Ainda que sejamos diferentes, no fundo somos iguais. Possuímos as mesmas aspirações, embora não tenhamos as mesmas condições. Estamos todos no mesmo barco, com um destino em comum, viajando em classes diferentes.

XVI

O que melhor representa a condição humana é a tragédia. Em toda e qualquer arte, ela é a que mais se aproxima da realidade. Realidade esta que a todo custo queremos negar, mas nem por isso se torna menos real. Toda a angústia humana, finitude, injustiças, amores impossíveis, doenças, guerras, marginalização, estigma, preconceito, exclusão, rejeição, luto, morte, entre outras coisas, são temas expostos em grandes obras de arte que abordaram o "lado triste" da vida ao longo da história.

Usamos roupas para cobrirmos nossas vergonhas, mas não podemos mudar nossa natureza que é a nudez. Se nos esquecessêmos de nossas roupas ou deliberadamente decidissêmos não nos vestir, nos veríamos como realmente somos: nus. As vestimentas são portanto necessárias, ainda que não façam parte de nós.

Devemos pintar com cores irradiantes e vivas o mundo em que vivemos para não percebermos o quão escuro, cinzento ele é. Decoramos nossa casa para dar um aspecto melhor, porém, a simples presença de um belo quadro em uma parede é tão somente um adorno, não muda o fato de que uma parede é naturalmente vazia. Vemos a beleza que pintamos e nos esquecemos que sem os enfeites que colocamos nas coisas, elas são como são. Não queremos ver as coisas como são, porque não nos convém. Não sabemos se estamos prontos para isso, se seremos capazes de continuar vendo beleza quando todo adorno, maquiagem, enfeite, tiver sido retirado.

Precisamos nos sentir grandes para esquecermos de nossa pequenez. Um paciente em estado terminal não pode saber da gravidade de sua doença, para que viva feliz o pouco tempo que têm. Não podemos destruir as ilusões de ninguém, se vemos que estas fazem bem para aquele que as possui. É desumano despertar uma pessoa, tirá-la de seu descanso e inércia se não houver uma boa razão pra isso.

O homem pode negar um fato, mas não invalidá-lo. Pode embelezar aquilo que é feio, mas não torná-lo belo. Pode-se mudar a aparência, mas nunca a essência.

Todos os esforços humanos na procura pela felicidade são tentativas inúteis de não encarar os fatos. São mecanismos de defesa que criamos para não sucumbirmos ante o peso daquilo que está debaixo do nosso nariz. São mentiras que contamos a nós mesmos por não sermos capazes de suportar a verdade.

Quando o homem descobre a si mesmo, se vê refletido como realmente é, não têm pra onde fugir. O que deve fazer é saber como lidar com os fatos, visto que já não pode mais negá-los.

A vida é naturalmente triste. Toda dor, sofrimento, aflição, preocupação, carecem totalmente de uma razão que os justifique. Mas ainda assim tentamos nos convencer de que nada é em vão. Nascer, viver, sofrer e morrer...Qual a lógica disso? Porque temos que passar por tudo isto se um dia iremos sumir? Que proveito terá tanto esforço e empenho quando não estivermos mais aqui? A vida é uma eterna luta por nada.

Queremos crer que a nossa persistência possui um bom motivo, pois não gostamos da idéia de sofrer à toa.

XVII

Definir um sentido para a vida é uma tarefa difícil. Pode haver vários ou mesmo nenhum. Esta é uma questão muito particular, que cada pessoa deverá descobrir por si mesma. O que podemos constatar é a precariedade da condição humana. O ser humano tem que viver com suas limitações, seus medos, lutando para sobreviver em um mundo incerto, sonhando com a felicidade, enquanto resolve problemas e tenta encontrar alívio para suas dores. O que o move a continuar é a esperança. O náufrago sabe que pode não conseguir chegar até à praia, mas prefere morrer tentando.

A solução seria aprender com as plantas e animais. Por não terem consciência, eles não sofrem, pois ignoram sua condição e desconhecem suas limitações. Sendo porém isto impossível ao homem por ser este um ser racional, o que deve ocorrer é uma mudança de mentalidade. Isto é, precisamos aprender a nos dar por satisfeitos com o simples fato de existirmos! Viver sem sonhar nem esperar nada. Apenas viver. Ou existir.

Só assim será possível ao homem enfrentar o absurdo que é posto diante de seus olhos. Quando se tornar indiferente à própria dor e sofrimento (ainda que compassivo com a dos demais), o homem estará em equilíbrio. Mesmo que isso exija forças sobre-humanas para se preciso for, ver com naturalidade e frieza a própria ruína e infortúnio, tal resignação evitará o desespero e a frustração, pois aquele que aprendeu a não desejar não sofrerá com a ausência do que não desejou. Isto é, podemos desfrutar dos breves e transitórios momentos de felicidade que a vida nos proporciona, mas não devemos pautar nossa existência neles. Vivendo em um mundo tão estranho com um futuro incerto, não tendo a certeza de nada nem o controle de tudo, seria uma imprudência apegar-se à esses momentos.

A vida é como um fio que se pode romper a qualquer instante. Pensamos na velhice mas não sabemos se chegaremos até lá. Até mesmo nossa saúde pode debilitar-se, estando nós saudáveis em um dia e enfermos noutro. Nada é absoluto. Sabendo disto, seria sensato tentar aprender o desapego, a apatia e a resignação. Quanto maior o desejo, maior a frustração. Quanto maior a espera, maior a decepção.

O escravo que desistiu de ser livre sofre menos que aquele que ainda almeja a liberdade. Temos que estar preparados para tudo nesta vida, se não quisermos cair em desespero, pois nem sempre poderemos escrever nossa história como gostaríamos. Devemos, se preciso for, estar dispostos a ser um mártir sofredor, alguém cuja vida não é mais que dor e sofrimento, e que ainda assim suporta a tudo heroicamente, cumprindo sua sina, a despeito de sua infelicidade. Mesmo sem almejar nada, ele segue, sabendo que um dia tudo terá fim, ainda que isso pareça demorar.

O homem que aprendeu a viver sem grandes expectativas viverá sem grandes decepções. Fará bem a si.




quarta-feira, 10 de junho de 2020

Divagações

Todas as nossas constatações nos levam à mesma conclusão: nada faz sentido! É inútil tentar encontrar uma lógica para aquilo que não têm. É como andar em círculos, sempre terminaremos no mesmo lugar. Talvez esta seja a sina humana: buscar um significado para aquilo que não possui nenhum. Ele deve empenhar-se nisto, pois admitir o óbvio pode enlouquecê-lo. É tudo vão, ilusório e sem sentido! O mundo em que vivemos, a vida que temos...Qual o propósito de tudo isso? Este é um mundo de incertezas regido por verdades absolutas.

Não se pode questionar, duvidar, senão crer. Não me refiro à fé religiosa somente, mas a tudo o que é tido por belo e louvável à raça humana. Um mundo que entristece e proíbe chorar. Que priva de oportunidades enquanto cobra atitudes. Que cria padrões de comportamento, pensamento e estilo de vida e considera inadequado quem não se enquadra neles. Um mundo que valoriza o "forte", "belo" e "saudável" em detrimento do "fraco", "feio" e "doente". Que nos ensina a ver certas coisas e pessoas como más e repugnantes, quando na verdade tais produtos são simplesmente consequências de falhas nos modelos originais. São objetos defeituosos que por não estarem em harmonia com os demais devem ser descartados o quanto antes.

Aprendemos desde cedo que certos valores são imprescindíveis. E somos instados a ver algumas coisas como estranhas e antinaturais. Mas não percebemos que tudo o que abominamos é muitas vezes resultado das falhas do sórdido, frágil e desumano sistema que nos governa. O sistema que mata é o mesmo que acusa e atira pedras. Não basta levar à loucura: tem que amarrar o "louco", prendê-lo, mantê-lo sob controle. Ele descobriu demais, precisa ser silenciado.

Um dia aprendemos a enxergar além dos muros que nos cercam. Um dia o pássaro preso na gaiola se dá conta de que a mão que sempre o alimentou é a mesma que o privou da liberdade. O que parecia bom era na verdade uma armadilha, mas não teríamos medo nenhum se não soubessêmos disso.

A existência é a fonte de todos os males. O ser têm muitas necessidades, e não é possível ser feliz estando insatisfeito. O círculo vicioso de querer e nem sempre poder é o drama que acompanhará o ser enquanto o mesmo durar. A consciência é o que ilumina mas também mata.
A ignorância nos protege de nós mesmos. Saber muito nem sempre é bom. Quanto mais alto o homem sobe, mais percebe o quão pequeno ele é.

Quem teme perguntar teme ouvir a resposta. Por isso prefere permanecer na ignorância, pois já sabe o que ocorrerá se ousar sair dela. Um animal bem cuidado não terá vontade de fugir de casa, ainda que a porta esteja aberta.
Enganar a si mesmo é viver a maior mentira de todas. É mentir pra quem já sabe a verdade.

A maior ilusão que você pode ter é a de crer que é dono de sua própria vida. Ninguém é! Enquanto fatores externos, circunstâncias, pessoas, normas, regras sociais, convenções, catástrofes, imprevistos, etc, puderem interferir nas suas escolhas, seus planos, projetos, liberdade e até no seu destino, será inútil pensar que é você quem manda.

Existir em um mundo assim, onde não se tem a certeza de nada nem o controle de tudo é uma experiência angustiante. A vida é um estado de constante tensão. No fim das contas, a morte não é um absurdo, mas sim a vida.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Escapismo e fuga

Num dia qualquer ela nasceu
com o pé esquerdo
e ninguém percebeu.
Era noite fria
como jamais se viu,
uma noite de abril.

Ela aprendeu todas as lições
com a sua família.
Sempre soube desde cedo
as sagradas letras,
as santas convicções,
o que fazer pode
e o que não fazer podia.

Ela cresceu bonita e sadia.
Como toda criança
brincava, sonhava, sorria.
Não havia dias maus,
só alegria e esperança,
mesmo na luta, mesmo no caos.

De repente algo mudou.
O azul virou cinza,
o arco-íris ficou sem cor.
Era natal
mas Papai Noel não veio
e presente não deixou.

O que aconteceu,
porque o doce perdeu o sabor?
O que antes a encantava
não mais lhe atraía.
Ela se esforçava
mas não era como antes,
graça seu brinquedo já não tinha,
brincar já não queria.

Agora a menina podia
sem medo ou segredo,
usar o mesmo batom de sua mãe,
e andar de salto alto como sua tia.
Ela já era grande o bastante
pra ser dona do seu nariz,
podia ser o quisesse,
como ela sempre quis.

A euforia durou pouco,
só um instante.
Ser livre não era assim
tão interessante
como de longe parecia.
(Não que ela não soubesse, no fundo já sabia).

Então, ela chorou
quando lembrou
de um tempo tão belo
que para trás ficou.
Ele nunca mais vai voltar,
e pra frente deve caminhar
pois a vida é curta
e não pode parar.

Porém ela sozinha e abandonada ficou.
Desiludida e decepcionada
à tristeza se entregou.
Sentiu-se injustiçada
com a realidade que a cercava,
em como a vida a tratou.

Sorrir muito lhe custava,
a amargura em seu semblante
se podia ver, já se notava.
Era a exteriorização da dor flamejante que por dentro carregava.

Ela sofreu, seu coração morreu.
Pessoas a maltrataram,
dela zombaram,
seu amor desprezaram.
A paixão virou rancor,
o que era sólido derreteu,
o sonho acabou!

Cansada e triste, ela desistiu.
Seu corpo sangrou,
enquanto sua alma sorriu.
Cada corte no pulso,
insano, sem razão,
aliviava um pedaço d' alma,
cicatrizava o coração.

Ela se foi numa tarde fria de inverno.
A paz buscou, sem medo se lançou.
Há quem pense que ela a alcançou,
e quem diga que não (foi pro inferno).
Seja como for, ela partiu,
a bela menina que nasceu
em uma noite fria de abril.

sexta-feira, 10 de abril de 2020

Setembro

Águas caindo,
tempo frio.
Sentimentos indo e vindo
fluindo como um rio.

Tempo parado,
bom de nada fazer.
Um silêncio tão bom,
tudo calado,
folhas ao vento a se mexer...

É um dia triste
ou talvez triste esteja eu!
Pois sinto melancólica
a melodia da chuva
que com suas gotas insistem
em caírem fortes no telhado,
como ataques de um tropel!

É assim que enfim penso na morte,
a inimiga (amiga) do homem...
Por que hei de ter eu medo de tão conveniente sorte?
Estando eu ciente que eu sei
que só me assusta o nome,
que soa forte...

Mas saibam que nada há o que temer,
pois pior do que morrer,
é voltar sem jamais ter ido,
é perder sem ter jogado,
é morrer sem ter vivido!