quinta-feira, 7 de abril de 2022

O jogo


Fomos trazidos à mesa,
não nos perguntaram se queríamos jogar. 
Nos puseram na roda, 
temos que dançar. 

Neste jogo não ditamos as regras, 
só nos cabe aceitar
aquilo que vier, o que a sorte lançar. 

Não reclames das trapaças, 
não podes protestar.
Não estás aqui para festejar. 

Também não deves sair antes da hora.
Aceita o jogo ó homem, 
aceita o jogo que não pediste pra jogar!

 

Por quê?


Para quê me dão a vida 
se um dia me irão tomá-la?
Porquê essa ferida 
se não posso curá-la?

Porquê padeço angústias sem fim,
mil dissabores, desgostos e dores,
em mim aperfeiçoados? 
Porquê sofro pelos erros de outros, 
sobre mim recaem
as taras dos meus antepassados? 

Para quê os sentimentos, 
amargos, ácidos, para que servem?
Para quê os pensamentos, 
questionamentos, que em minha mente fervem?

Porquê o que eu quero não tenho, 
e o que não peço, isso obtenho?
Porquê eu insisto e não consigo, por mais que eu lute, por muito que me empenho? 

O que há de errado comigo, afinal?
Porquê me foge o bem e me persegue o mal?
Sou eu da tragédia abrigo?
Porquê tanta má sorte?
Será a minha sina sofrer,
viver desejando a morte?

O pombo


Andava eu distraído, 
olhando para frente, 
entretido, carregando sacolas, 
aconteceu de repente.

Penso comigo: o que foi isto? 
Nada vejo. Ora bolas! 
O céu está claro, 
algo me molhou 
e no entanto não choveu!

De onde jorrou
esse estranho líquido que 
do alto desceu?

Olho pra cima - lá está ele, 
o meliante no alto do fio subido,
é ele que em cheio me acertou, 
ali está o pombo
que em meu ombro cagou! 

O quarto da minha prima


Faz anos que não entro lá. 
Não sei se algo mudou, como deve estar. 
Só sei que eu cresci, ela também, o tempo passou, e não voltei àquele lugar. 

Éramos pequenos, 
puros, ingênuos! 
Além da idade, nos unia uma bela amizade, 
que eu não sabia que um dia viraria saudade. 

Hoje estás crescida 
e na vida - creio eu - bem resolvida.
Não te lembras mais 
dos teus dois primos,
sobrinhos de teu pai!

Há anos nos vimos, 
brincamos, nos divertimos! 
Mas já não nos conhecemos, 
mal nos falamos, 
em comum só temos
o sangue - que testemunha que primos somos!

O quarto da minha prima, 
como está, como deve estar?
Não sei, faz tempo que não piso lá, há anos não entro naquele lugar.

domingo, 27 de fevereiro de 2022

Kiev resiste

Sob fortes ataques, 
incessantes bombardeios, 
vindo por todos os lados, 
de todos os meios,
um povo luta, uma nação persiste.
Lutarão até o fim,
sempre foi e será assim, 
a Ucrânia segue de pé - Kiev resiste.

Prédios destroçados,
cidades destruídas. 
Pessoas escondidas, 
bunkers improvisados,
vidas inocentes perdidas.

Protestos por todo o velho continente 
contra o perverso presidente 
que este conflito causou.
A Rússia isolada, sob sanções ameaçada, ainda insiste em suas ambições 
(querem terminar como a Alemanha de Hitler terminou?)

Vários países enviam ajuda à nação atacada 
que tão de repente perdeu sua soberania e teve sua paz roubada.
Receberá armas para lutar e persistir, combater, 
guerrear e resistir!

Em meio a escombros, alarme 
e assombros, um povo luta,
uma nação persiste,
sua capital segue de pé - Kiev resiste.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Reminiscências


O tempo passa, as coisas mudam, os lugares mudam, as pessoas mudam. Ou talvez não seja nada disto, somos nós que mudamos, nossos gostos, nossas percepções, nosso comportamento. Podemos ir em locais que já estivemos, estar com pessoas com quem já convivemos, fazer antigas atividades que nos agradavam. Mas não devemos esperar ter as mesmas emoções. E por quê não? 

Porquê embora os locais, as atividades, as pessoas sejam as mesmas, você pode não ser o mesmo! Seus gostos, seus pensamentos podem ter se alterado no decorrer do tempo. E quando se trata de pessoas, elas também podem ter mudado durante o período em que você esteve fora. 

Se você procura uma velha amizade e percebe que não foi recebido com muito entusiasmo, não se assuste, o problema não é você nem seu amigo(a). Acontece simplesmente que enquanto vocês estiveram separados, talvez pela distância, cada um seguiu o seu rumo, fizeram novas amizades com novos gostos em comum, novas emoções, novas afinidades. Isto não significa que vocês nunca foram amigos, senão que a distância fez com que a amizade esfriasse, como uma fogueira que não pôde ser alimentada. Isso é um processo natural, ainda que pareça doloroso. 

Não se prenda à pessoas, lugares, muito menos tente reviver velhas emoções. As coisas têm o seu encanto, mas nunca o encanto da primeira vez. Insistir em sentir as mesmas sensações que já tivemos pode nos decepcionar, principalmente se vemos que não temos mais a mesma empolgação de antes e os outros também não. 

O tempo passa depressa e muitas vezes o que nos resta é somente a lembrança. Não podemos reviver bons momentos, mas podemos recordá-los sempre que quisermos.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

O silêncio, o ócio e a solidão

Poucas experiências são tão místicas quanto o silêncio e a solidão. Isto se deve ao fato de que o homem está acostumado a estar em constante atividade e em contínuo barulho, está sempre fazendo algo e perto de alguém. É raro ficar só, sem fazer nada. Quando isso acontece, é que ele percebe a diferença de estar cercado de gente e de estar sozinho, de falar e estar calado.

O silêncio e a solidão, assim como o ócio colocam o homem num estado de existência puro, livre de quaisquer ocupações/distrações, entretenimento. Sem ter o que fazer, só e em completo silêncio, o homem sente todo o seu ser, ele apenas existe - sem nenhum rótulo. Ele pode escutar melhor a voz dos seus próprios pensamentos, respirar, ser.

Somos naturalmente seres solitários que buscam fugir a todo custo da sua solidão. Nos misturamos na multidão, nos perdemos em meio aos grandes grupos, nos colocamos etiquetas/títulos e nomes. Mas quando o espetáculo acaba e a platéia vai embora, o que resta ao ator senão tirar a maquiagem? Olhar-se no espelho e ver-se outra vez...só, consigo mesmo.

Vivemos em uma constante fuga de nós mesmos, nos escondemos na rotina, nos evitamos a todo custo. Queremos nos inserir nas tribos populares para não termos que carregar o peso de nossa individualidade. Estamos seguros em meio a maioria, ainda que nos sintamos desconfortáveis nela.

Somente estas três coisas - o silêncio, o ócio e a solidão - nos fazem sentir o tempo, as horas, a existência. Quando não se faz nada nem se é alguma coisa, é que sentimos pura e totalmente existir, a vida fica suspensa e seu agente contempla a tudo admirado.