domingo, 1 de março de 2026

Beijo fatal

Beijo-te! Não me importa que estejas mal.
Tua boca me convida, é a porta de um prazer sem igual!

Não me preocupo com o que vai acontecer.
Quero apenas te segurar, 
tua pele na minha encostar,
e teus lábios sorver!

Oh, não te preocupes,
se acaso eu não suportar 
tua doce saliva, e caindo, desfalecer!
Não chores! Sorri, e viva, não te culpes,
só deixa-me feliz com teu beijo morrer!

Cinza escuro

 

Antigamente eu tinha medo. Mas hoje tanto faz.

Colori meu castelo de sombras, por que as cores eram todas iguais.

Guardei em segredo o desejo, imaginei o beijo, 
toquei o que não vi, senti o que não toquei.

A casa está vazia. É bom para pensar.
A lareira está fria, não a esquentei.

Eu achava que um anjo apareceria para me ajudar.
Alguém me diria o que eu quisesse, me ensinaria o que eu não soubesse, 
como uma fada a me guiar.

Hoje sei que os homens não são de ferro.
Ainda que seus corações sejam de pedra.
Não é só o garrote que solta o berro, 
nem só a medusa que nos medra.

O vento assovia na janela.
O sino badala na capela.
A letargia esconde-se no clicar da tela.

É sábado a tarde. Não sei o que me dá, o que vem sorrateiro sem fazer alarde.


Tenho saudades das cores irreais que eu pintava meus jardins, 
quando eu ainda não conhecia os fins 
e meus dias não eram iguais.

27/09/25

O canto do anu

Rei da caatinga que voa sobre o solo agreste, 
é o mensageiro da desgraça 
que a ninguém perdoa, 
do riso da peste.

Tem as penas escuras,
as patas secas, 
suas asas puras 
o levam de recifes a mecas.

A carniça ainda não fede e já podem ouvi-lo cantar.
É sinal de desdita, começam a falar.

Quem é que aviso lhe pede? O pássaro, tranquilo, não se importa.

Trêmulo caiu o mouro, ao escutá-lo. Estaria sua família morta? Ou iria falir?
Ave de mau agouro, o que viria a seguir?

Bendize ó carola, pois não voa livre o urubu...
É mal pior que os céus assola, 
escuta, é o canto do anu!

Crisol

Hoje eu imaginei que você estava aqui.
Queria te mostrar o que eu vi.
Sei que você ia gostar...
Mais do que isso! Você ia amar...

Eu vi as rosas que você adorava.
Passeei no jardim que você 
todos os dias regava.
O sol me esquentou,
o mesmo que tão bem te esquentava.

Eu queria que você estivesse aqui comigo 
para me abraçar.
Queria apertar sua mão 
e juntos comemorar.

Minhas vitórias não têm o mesmo sabor sem você.
Não há mais cor nelas,
você construiu minhas glórias 
e agora não as pode ver...

Onde quer que você esteja 
entre as estrelas 
ou o bosque encantado, 
saiba que minhas lágrimas, ao vertê-las,
o faço emocionado.

Você era parte de mim que se foi, 
vou te amar sempre, 
pois essa chama não há de se apagar, 
enquanto a lembrança de você em mim durar...

09/10/25

Dark night



Um mergulho na consciência 
reencontro a essência 
do germe que sobre mim pousou 
aprecio estupefato o verme que sou.

Memórias escondidas
vontades reprimidas
de coisas não vividas
em palavras jamais proferidas.

Institito maldito 
de destruir, 
me deixa aflito 
por não poder o desejo possuir.

Sinto-me sujo
em um invisível lodaçal 
um pântano cujo
afundei-me, e desconheço seu final.

O que diabos aqui faço 
nessa madrugada 
escrevendo essa palhaçada?
O que inutilmente caço,
porquê nesse conflito estou?
Se não me sinto humano, que monstro sou?


Elegia

Ele morreu 
nunca mais o tornaremos a ver,
nobre guerreiro 
que só queria para casa volver.

Ele atravessou rios e pedras 
enfrentou flechas, e o frio que medra
sonhando com a sua amada.

Hoje inerte se deita 
por essa lança cortado.
Sua face serena a morte peita,
não fora pelo inimigo derrotado.

Sopram os ventos da floresta 
o lamento pelo soldado caído.
Correm sedentos os bichos, ao som do brado 
do fim de um ente querido.

Desce ó guerreiro, desce para os teus ancestrais!
Seu corpo fica na terra, 
sua alma para os teus, vais!

Vais encontrar teu repouso 
depois de passares por essa barca encantada, 
terás enfim o gozo,
no Vahalla, findarás tua jornada!

sábado, 6 de dezembro de 2025

A confiabilidade da história

Tenho visto muitas postagens na internet criticando ou endeusando personalidades históricas. Nada contra, mas nem tudo é como parece ser, não é como querem nos mostrar ou como nos ensinam através da forma que aprenderam. Muitas vezes, é como dizem, "O buraco é mais embaixo..."

Não sou historiador, devo deixar claro. Mas gosto de história e me incomoda bastante ver o tanto de informação (e desinformação) que é compartilhado diariamente nas redes. Textos sem fontes, citações sem autoria confirmada, fotos atribuídas a figuras públicas mas que na verdade são de outras pessoas...datas trocadas, registros vagos ou inexistentes de muitos fatos mencionados como verdadeiros. Porquê caímos nessa?

A internet facilitou esse tipo de comportamento pois é graças a ela que qualquer um compartilha o quer, se intitula o que não é, e cria o conteúdo que quer. Em partes isso é bom porquê dá a todos a liberdade de expressão, democratiza o acesso a informação e alcança públicos maiores do que seria possível há algumas décadas atrás. Por outro lado, seres totalmente mal intencionados, desinformados ou mesmo especialistas que não verificam a autenticidade de um fato - postam bobagens que são tidas como certas por quem as lê/compartilha. Aí que surge o problema.

Não devemos acreditar em tudo o que vemos. Há muitas mentiras e negacionismo nas redes. Lembro até que ressuscitaram a crença da terra plana em pleno século XXI (para o desgosto dos cientistas da idade média que já sabiam que ela é esférica)...

Estamos regredindo violentamente em termos de cultura, interpretação de texto, senso crítico e discernimento. Eu não digo que toda pessoa que têm o hábito da leitura esteja em vantagem sobre quem não gosta de ler, mas é evidente que estes têm uma propensão menor de acreditarem em tudo que vêem. Também não defendo a infabilidade das enciclopédias, livros didáticos e fontes antigas, mas acredito que seus autores eram mais bem intencionados que muitos influencers de hoje em dia. Seja como for, é incrível que muita gente ainda acredite em mitos que foram desmentidos há séculos, só porquê viram numa determinada página, site, perfil, canal...

Talvez a própria história não seja 100% exata. Nós sempre vemos as coisas em 8 ou 80: sob a ótica das vítimas ou a dos carrascos. Nunca teremos a medida perfeita de nada, pois aumentam fatos ou diminuem, demonizam os "vilões" e erguem monumentos aos "heróis". E qual de nós estava lá para ver se realmente foi assim?

Mas o que eu tenho certeza é que as informações históricas da internet (em especial posts de Instagram, YouTube, Tik Tok, etc) merecem um "filtro" ainda maior, já que muitas vezes não sabemos de onde são tiradas, por quem foram escritas, fontes vagas, imprecisas e ilustrações contraditórias. Um exemplo que eu dou foi quando me deparei com uma frase de Platão em que utilizavam uma imagem do escritor russo Liev Tolstói. Quem não o conhece acharia mesmo que conseguiram tirar uma fotografia do sábio grego ainda na antiguidade...

O que se conclui é: Escute a todos, mas dê ouvidos somente para alguns.