segunda-feira, 12 de abril de 2021

Cinzas


O vento espalha as cinzas 
que um dia o fogo queimou. 
Na verdade, nada mais são que restos 
de algo que um dia esteve de pé 
e que agora, um simples dejeto é. 

Cinzas de papel, roupa ou objetos! 
O que de fato importa? 
Sombras são de algo que houve, como alguém que ali esteve a bater à porta. 

Muito querida e estimadas essas coisas foram e até hoje são. 
Mas do que foram elas, não se vê mais nada, 
além dessas cinzas no chão. 

Igualmente, quisera eu verter-me em cinzas, sim, 
aos poucos dissolver-me, lentamente em vão. 
Pois do homem que um dia fui, já me tornei cinzas,
e queimou-se por inteiro, 
oh! queimou-se meu pobre coração!

Silêncio


O silêncio é tão assustador, 
não ouvir um só ruído,
um tiro, coçar de prurido, 
não é legal, nem um pouco, não senhor. 

Tudo se congela quando nada se ouve.
As vozes da mente sã, demente, despertam, falam. Quando todos se calam, o espírito no homem se move. 

Sons inaudíveis saem 
quando nem se podem ouvir as folhas que caem, 
a sirene da Samu, da polícia, ou o simples estalo da gordura ao fritar a linguiça.

O silêncio é tão macabro 
pois após ele não se sabe o que há de vir. 
É uma cauda, um rabo 
do fim de tudo que se deu a discutir.

É o silêncio pai de todas as vozes. Nele, na mente se constroem, contorcem, destroem, palavras belas ou atrozes. 
O silêncio é um mistério, um dom etéreo do humano ser.

Todas essas constatações inúteis, fúteis,  
estive eu no silêncio a fazer!

À infância perdida


Tudo passou tão rápido - um sonho! 
Tudo mudou de repente - desilusão. 
Não percebi o que aconteceu - perplexidade. 
Correr quero atrás do que perdi - sagacidade. 

Suave brisa da manhã, doce encanto! 
Desapareceste nessa correria vã, só me deixaste de ti a saudade e o desencanto. 

Não poderei recuperar-te, nunca mais! 
Desde que te foste, a nostalgia não se desfaz. 

És bela lembrança 
de um idílio, uma esperança. 
Como queria ter-te outra vez, ó minha paz!

sábado, 10 de abril de 2021

Desencanto


Agora eu entendo
tudo o que eu nunca entendi. 
Sinto na pele o que outros sentiram, 
estou pagando por um crime que não cometi. 

Dizem que estamos no caminho do progresso. 
Não creio nisso. 
Estamos em constante evolução e eterno retrocesso. 

Todos nós vamos sumindo aos poucos 
nesta fábrica de loucos. 
Já não sabemos quem somos
nem pra onde vamos, 
apenas caminhamos. 

Juventude não é sinônimo de felicidade. 
Estamos sós, abandonados na floresta, 
perdidos na grande cidade.

Felizes aqueles que tão cedo partiram 
e com isso não viram
uma versão má de si mesmos!
Talvez este seja o segredo
para se evitar todo desgaste, 
tanto esforço vão 
e tiro à esmo.

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Não


Não tenho porquê sorrir, 
não tenho porquê chorar, 
não tenho pra onde fugir, 
não tenho motivos para viver, não tenho razões para morrer. 

Não há porquê continuar, 
não há porque se matar. 
Não há pedras demais no caminho, não são tão poucos assim os espinhos, não há porque se calar, 
não há assuntos a tratar. 

Não há sorte, 
não há azar. 
Não há luto, 
não há vida, 
não há morte, 
não há do que lamentar, 
não há do que se orgulhar.

Não há crime, 
não há justiça. 
Não há frango, quiabo, linguiça. 
Não há ódio, 
não há ganhador, 
não há pódio, 
não há amor. 

Não há fumaça, 
não há fogo. 
Não há janela, 
não há vidraça, 
não se tem príncipe, 
não há ogro. 

Não há beco, 
não há saída. 
O vinho não é fresco, 
velha também não é a bebida. 

Não há polícia, 
não há ladrão. 
Não há rodovia, 
não há carro, 
não há contramão. 

Não há sogra, 
não há cobra, 
não há nora, 
não há prima, 
não há passado, presente ou futuro, 
não há mais rima. 

Não há luz, 
não há escuro. 
Não há lucidez, 
por sua vez não há loucura. 
Não há muro, 
não há tijolos, não há textura. 

Não há nada em lugar algum! 
Sim, há de tudo em todos os lugares, de tudo meu camarada, em lugar nenhum! 
Há nessa vida de tudo um pouco, 
gigôlo, metrô, louco, 
mulher desquitada! 
Sim, há de tudo um pouco,
de declamar isto já estou rouco, não há um pouco de nada.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Petição

Deixa-me só, é o que te peço. Tu não sabes o que vivi, como sofri. 
Tu gostas de julgar o que não compreendes. Queres ser o dono da verdade e criticas aquilo que não entendes. 

Se estivesses nesta mesma condição, 
saberias que não é uma bobagem, mas uma dor na alma que obscurece a razão e sangra o coração. 

Não penses que eu gosto
de estar assim. 
Não é minha culpa, 
de repente o céu se tornou negro e caiu sobre mim. 

Eu só quero respirar, 
acreditar que tudo ficará bem. 
Preciso expressar o que sinto e trago no peito, 
então deixa-me só, 
vou chorar em meu quarto, deitado em meu leito. 

Espero que algum dia isso possa mudar. 
Quero sorrir de verdade e voltar a sonhar. 
Não podes me ajudar, 
somente te peço, 
deixa-me só, 
quero chorar.

quinta-feira, 4 de março de 2021

A descoberta do mundo


É tarde, não adianta mais. 
Sabes que o que queres não podes ter, 
corres sem teres pra onde correr, tentas de todas as formas encontrar a paz. 

Não tens para onde fugir, 
não há onde se esconder. 
Já viste o que não devias ver, é inútil querer voltar, se o teu grande erro foi vir. 

Pensavas que só terias vitórias, triunfos e glórias. Que ilusão! Desconhecias a tua condição. 
Não é pra isto que vieste, não nasceste para desfrutar só de boas emoções!
Ou não vês que a dor é a mais real das sensações? 

És, mas preferias nunca ter sido. Quem diria que um dia o menino feliz 
desejaria não ter nascido! 

Olha a teu redor! Não te foques em teu próprio nariz. 
Vê toda a tristeza, todo o sofrimento. Contempla tudo, analisa por um momento. 

Crês que és o único, 
uma vítima ou um privilegiado? 
Vê e entende: não há magia nessa prisão, 
tudo que nasce puro
morre contaminado!