quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Suicídio

Cortar os pulsos ou a garganta,
se enforcar numa árvore,
sangrar no mármore,
só por prazer, ou por uma causa santa.

Em lágrimas escrever
no último ato de vida,
um bilhete de despedida.
Mesmo esperando que aceito não vá ser,
explicar o quê e o porquê da fatal investida.

Contrariar todas as normas,
dogmas, formas,
pra sentir alívio.
Se é certo ou errado assim proceder, só a Deus cabe saber,
pois é ele que tem anotado os nomes no livro da vida, o livro.

Preparar o próprio funeral,
por saber o dia da morte.
Uma sorte sem igual não há,
só pra quem nisso é consorte.

Sangrar para não mais sangrar,
sofrer para não mais sofrer,
chorar pra não mais doer,
se matar pra não mais morrer.
Sim, eis o que penso
desta estranha forma de homicídio, o bom e velho suicídio!

quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Uma alma

Ele chorou, ninguém viu.
Estava aflito, ninguém acudiu.
Pedia ajuda, não atendiam,
achavam que era tudo bobeira,
iria ficar melhor um dia.

Ele estava triste, não notavam,
queria alguém para conversar,
mas com ele não falavam.
Só precisava desabafar,
mas não tinham paciência,
nunca o escutavam.

Ele se queixava, achavam-no chato!
Diziam que era falta de fé,
mas não viam seu problema, ninguém sofre porquê quer,
estavam indiferentes,
para notar a dor alheia,
faltava-lhes tato.

Ele sofria, ninguém via.
Amava, mas quem correspondia?
Nada pra ele foi fácil,
por isso carregava uma dor sem igual,
a de lutar contra si mesmo,
de sobreviver à sua própria anarquia, seu próprio caos!

Hoje ele expirou,
e todo mundo com isso se escandalizou.
Mas ele esteve andando por aí,
e ninguém sequer sua presença notou!
Ele não está mais aqui,
na verdade há muito já não estava,
mas só hoje sua falta se faz sentir,
porquê ele nunca mais há de vir,
ele não só morreu,
ele se matou!

Um vulto

A cada dia que passa,
pior eu me sinto,
tudo isso vai encaminhando à um grande mal
sem precedente tal, eu pressinto,
tamanha a dor que sinto,
eu garanto, tristemente eu não minto!

Os dias se vão secando meu ser,
rápidos, à galope, levando-me,
sinto então como se estivesse a morrer!
Não como homem, não como gente,
mas tal como planta, secando, secando, em todas as partes,
até desfolhar, até derreter!

Tamanho sofrer não merece ninguém ter,
oh que desventura, que miserê!
Concluo comigo
em meus muitos pensares absorto,
que há algo bom e outro sem alívio,
bom é sentir-se vivo estando morto,
terrível ser um morto estando vivo!

Nessa agonia estou eu a desaparecer!
Perdão ao divino peço,
minhas palavras com esmero meço, mas não quero mais ser um vulto, viver em luto,
oh que vontade de morrer!

Meu mal é ser poeta

Meu mal é ser poeta,
achar que versos são mais que um simples rabisco à toa.
Pensar que o mundo, com seus males diversos,
pode melhorar com letras magistrais - Essa é boa!

Meu mal é ser poeta,
não ter o amor da mulher que quero, apenas contemplá-lo.
Que triste situação, como um artesão,
que após esculpida imagem, guardadas pá e colher,
se satisfaz com seu trabalho em olhá-lo!
Mas eu não esculpo nem pinto,
minha arte é ainda mais sonhadora,
somente com palavras, poder descrever e sonhar com a mulher, a mulher encantadora!

Meu mal é ser poeta,
fechar-se em mim tal qual borboleta no casulo.
Bem sei que nem todos assim são,
mas eu me protejo e resguardo,
me escondendo assim
de meus medos, receios,
oh! triste clausura!

Meu mal é ser poeta e não sábio.
Se sábio eu fosse,
poemas não escreveria,
pois saberia que isso
à lugar algum me levaria.
Se fosse sábio não haveria pra mim tantos problemas.
E feliz, oh, feliz eu viveria!

Meu mal é ser poeta,
nem pouco nem mais.
É uma loucura sem fundo,
que nunca se satisfaz!
É viver entre paixões, quimeras, ilusões,
em um mundo mau com dramas
nem um pouco amenos.
É idealizar, românticamente sonhar,
e viver, viver de menos!

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Breves instantes de misantropia

Já descobri que neste mundo,
muito sofre quem não merece sofrer, e que bem sempre morre, quem mais merece viver.

Muito ódio e pouco amor,
é o homem com o seu redor.
Com isso nem tenho mais o que dizer
daqueles que fazem da dor do outro
seu intenso prazer!

Inveja, ganância, cobiça.
Luxúria, gula, avareza e preguiça.
Depravação, perversão, zoofilia.
Charlatanismo, paganismo, pedofilia.
Vandalismo, homicídio, anarquia.
Adultério, ladroíce, pederastia.
Chacina, mentira, furto, sodomia.

Ah, quisera eu listar
em meus tediosos momentos 
todos estes adjetivos do homem!
Mas pobre de mim
que uma caneta inteira pra isso gastaria,
e você leitor, para lê-los, um dia inteiro levaria!

Sensações suicidas

Meu corpo exala o último suspiro,
a dor está cessando,
a morte vem vindo.
Já não mais me contorço ou viro,
tudo está girando, e eu estou indo.

Meu espírito flutua,
e perplexo olha pro já desgastado corpo.
Ele não entende para onde vai,
mas mesmo assim, de mim ele sai,
vê todos do alto, como de um topo.

Pessoas se juntam ao redor da carne sem vida,
olham desoladas, me criticam,
compreendo, estão magoadas e feridas.
Eu sigo meu rumo,
livre deste mundo, meu destino assumo.

O que fiz não é digno de glória,
mas com isto entrei pra história.
O que será agora de mim?
Se já morri, mas estou consciente,
qual será de fato meu fim?
Será que não fiz o serviço direito?
O tiro tinha que ser na cabeça
e não no peito?

Eis que assim vou,
tudo está desfeito,
termino o que nem deveria ter começado;
O que não podia, ei-lo aqui,
senhoras e senhores, acabado!

Para onde vou, talvez não haja dor,
talvez sim.
O meu sangue denuncia a falta de amor,
a ganância sobre a esperança!
Eis que assim me atiro pro meu próprio fim,
me mato, não tenho dó de mim!
Vejam por vocês se mais gente não está fazendo isso,
este foi meu fim,
pra muitos é apenas o início...

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O golpe de estado que virou feriado

Hoje é feriado da "proclamação da república". É comemorado no país uma data que deveria ser esquecida, apagada da memória de nossa gente, o dia da traição, de um levante, um vergonhoso motim que a história vêm provando que nada de bom trouxe. Foi nesse dia que um velho e honesto imperador, patriota, que tanto amou o seu país e fez bem à ele, foi expulso de sua pátria vergonhosamente, como um criminoso e malfeitor qualquer. Os mercenários que tomaram o poder fizeram tudo secretamente, sem a participação e o apoio popular, fundando assim uma ilegítima e corrupta república, que nada de bom fez por este país.

O império do Brasil foi o primeiro e legítimo governo brasileiro, fruto do desejo da maioria, que via na monarquia uma forma de unificar o país e impedir que caísse nas sanguinárias disputas de poder, revoltas e ditaduras tão comuns  nos países da América espanhola. D. Pedro I foi reconhecido como imperador do Brasil, o novo monarca do país independente. O Brasil, na contra-mão de seus vizinhos hispânicos, manteria sua tradição monárquica, adotando a monarquia constitucional parlamentar, uma forma de governo não muito antiga e altamente democrática.

D. Pedro I unificou o país, promulgou a primeira constituição, de 1.824, que ainda que não fosse perfeita, era bastante satisfatória para os padrões da época. Reprimiu revoltas, não permitiu que uma terra tão extensa e único Brasil se dividisse. Devido à muitos problemas que enfrentava, abdicou do trono, deixando para seu filho e herdeiro a missão de governar um grande país, jovem mas com um futuro promissor.

O reinado de D. Pedro II foram os melhores anos para o Brasil. Ainda que nem tudo fosse perfeito e por mais que desejasse o imperador não pudesse abolir a escravidão, D. Pedro II procurou fazer um governo democrático, respeitando o povo, o parlamento e todos os cidadãos. D. Pedro II elevou o Brasil a quarta maior economia do mundo, a segunda e mais forte marinha de guerra, fez do Brasil um país respeitado internacionalmente, uma força diplomática, o único império das Américas que sobrevivia era reconhecido como uma grande democracia e potência sul-americana e regional. O Brasil crescia a cada ano, seu desenvolvimento era rápido como o trem, o que possivelmente ficou refletido no fato de ser um dos primeiros países a construir centenas de quilômetros de linhas ferroviárias naquele tempo; também foi um dos primeiros países a ter instalação de telefone, eletricidade, gás e demais tecnologias. D. Pedro II era respeitado por todos, brasileiros e estrangeiros, como um homem simples, honesto e ao mesmo tempo culto, amante das ciências, das artes e da educação.

O estopim para a explosão da bomba foi a abolição da escravidão. Sim, por incrível que pareça, não foram os republicanos responsáveis pela libertação dos escravos, e sim a liberdade deles um dos fatores que contribuiu para que oportunamente chegassem no poder. Quando a princesa Isabel assinou a abolição da escravatura, ainda que tenha feito justiça e libertado milhares de inocentes que sofriam, contudo, provocou a ira e a indignação de poderosos barões do café e da elite que se sentiram traídos pelo império. Muitos destes que não apoiavam o inexpressivo movimento republicano da época, o apoiaram depois da abolição, ajudando a impulsionar o golpe que ocorreria um pouco depois.

Os militares viram neste cenário o momento ideal para agir. Com a elite cafeeira a seu lado, e a crescente influência positivista e republicana no exército, era questão de tempo para executarem o golpe, que mudou definitivamente os rumos do país. D. Pedro II recebeu a carta do comunicado de seu exílio das mãos de um dos oficiais de Deodoro. O primeiro presidente do Brasil, que havia sido marechal e amigo do imperador, o traía covardemente, assim como os militares que nenhuma razão tinham para apoiar esta infâmia. D. Pedro II e sua família foram exilados para a França, país onde o Imperador que governou por 49 anos seu país veio a morrer dois anos depois, em 1.891, traído, injustiçado, porém recebendo as honras fúnebres devidas ao grande monarca que foi.

O Brasil experimentou sob o regime republicano a primeira ditadura militar da sua história. Os desajustes do novo governo culminaram em crise econômica, pressão para a renúncia do presidente, pequenos levantes e censura total a imprensa, que no período do Império gozou de total liberdade. Muitos opositores ao novos governo foram duramente perseguidos, presos, exilados ou mortos. Destruindo um país, seus anos de progresso e futuro brilhante, censurando a imprensa e perseguindo a oposição, assim se consolidou a ilegítima república brasileira, tomando definitivamente o lugar do legítimo império do Brasil.

Hoje a situação não é muita coisa melhor. O Brasil enfrenta uma de suas maiores crises econômicas, desemprego, corriqueiros escândalos de corrupção, violência alta, desigualdade social e até mesmo um crescente sentimento de anti-patriotismo natural da população. Podemos afirmar que a república no Brasil deu certo? Podemos dizer que este governo ilegítimo, golpista, que não contou com o apoio e participação popular, fez algo de bom para o país? Alguns republicanos chamam atenção para o fato que as taxas de analfabetismo eram muito altas durante o império. Porém, décadas após a república a situação não mudou em nada, ainda que haja muitos alfabetizados, muitos contudo não sabem sequer ler e interpretar um texto. Assim, citar os problemas do império e dizer que a república tinha que vir para corrigí-los, é uma grande piada! Todos estes problemas seriam resolvidos no reinado da princesa Isabel, que tinha planos e projetos para o futuro da nação. O Brasil simplesmente estava nos trilhos do sucesso, mas descarrilou tristemente, não o encontrando novamente até hoje.

Com tudo isso, não é de se estranhar o fato de que haja quem queira a volta da monarquia no Brasil. Esta data de hoje é perfeita para a reflexão dos contrastes do Brasil imperial com o republicano. Que o nosso povo possa entender o que de fato ocorreu naquele fatídico 15 de novembro de 1.889, o golpe de estado que virou feriado, e que lamentavelmente continua ecoando suas consequências até nossos dias. Ave glória, Ave Império!