quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Poetas

Quem há de julgar-se sábio, 
senhor de si, sabichão e douto?
Dono da razão, conhecedor de quase tudo, das ciências um dominador, voraz e não pouco?

Que há de argumentar, 
assim dizer, para quem lhe arguir tal sujeito?
Se não há neste mundo certeza de nada, felicidade,
senão desrespeito, maldade,
desgraça sobre desgraças empilhada?

Pois eu vos digo 
sobre isso refletindo,
que não há quem assim possa ser! 
Mas o maior perigo é ser possível certas pessoas
acharem tais sujeitos ser!

O mundo, redemoinho inconstante e não pouco, cabe de tudo um pouco.
Tais pessoas que assim julgam ser, são aquelas que fazem versos, 
querem mudar o mundo, 
sem contudo nada pra isso fazer!
São malucos na verdade, 
por isto eu digo sem dificuldade:
Perece um poeta, morre um louco!

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

La muerte

Quero me embriagar do vinho inebriante, provar o mel mais doce e viciante que pode existir. 
Preciso dessa chama faiscante, flertar esse olhar misterioso, 
essa sombra a me seguir.

Quero tomar esse caminho sem volta, sozinho, meu destino assumir. 
Entrar nessa dança hipnótica, 
ouvir do mais raro som 
da música mais exótica. 

O perfume mais cheiroso, 
a flor mais bela.
O espinho mais furioso,
a mais gótica capela!

Reis e rainhas dela se vestiram com glória, em todas as eras, nos mais remotos séculos da história! 
Quero eu também usar dessa seda, tão preciosa coroa, 
tão desdenhada vitória!

Eia, avante, não recuo um instante da minha derradeira e definitiva sorte! Venha, provemos o andar galopante, tomemos esse cálice - sintamos a morte!

Dualismo

Aquele momento em que a alma, já cansada, insiste em sair do corpo, alçar vôo 
e liberdade, rumo ao infinito...
Está perturbada, quer sua cidade, onde tudo é mais fácil e bonito...

Quer se livrar desse corpo frágil, 
destrutivél e pecador...
Rumo ao eterno, imperecível,
o mundo dos espíritos, das luzes, do amor!

Ó alma, suporta com calma 
o duro fardo que te é imposto,
de habitar esse corpo e morrer com ele!
Dizem que tu és imortal,
não creio que seja, 
observa, vê, somos tão físicos como um animal!

Sim alma, aquieta dentro de mim, podes esperar a morte do meu corpo, que também será a tua sorte, o teu, o nosso fim!
Isto alma, aguenta firme, tu és minha e eu sou teu, 
estamos juntos, somos um só,
és tão somente o meu intelecto, 
a minha mente!
Tu não serás sem mim nem eu sem ti!

Não percas a calma 
ó querida alma! 
Pois a sorte do meu corpo será também a tua, já que não há sol sem lua, meu fim será o teu,
minha morte a tua!

domingo, 12 de dezembro de 2021

Donos da história


Queria ter estado lá esse dia, 
espiando entre as verdes moitas, ver o que aquelas duas almas, mentes e mãos afoitas
iriam fazer, o começo de tudo 
que mais tarde viria. 

Sem dúvida nenhuma 
a rastejante foi quem armou,
mas sem a ajuda deles 
não haveria tragédia alguma,
o barraco não desabaria 
como desabou!

Lúcifer, terrível e manipulador, sem maiores problemas a mãe de todos os viventes, enganou. 
Mas pudera, pois desejara em seu coração, em seu íntimo quisera, sonhar o pecado 
de ser a criatura tão sábia quanto o criador,
e caiu no mesmo erro
daquele que das trevas é senhor. 

Tal desejo, arrogante, prepotente, incitado pelo mal em forma de serpente, não podia terminar bem.
Sem saber o que faziam 
do fruto proibido comiam, 
a própria raça afundavam 
num caos, sem precedente tal.

Tornou-se então o homem mortal, o diabo seu pai.
Aprendeu o ódio e a guerra. 
É pó e volta à terra,
seu corpo aprodece,
e enterrado vai.

Que proveito houve, afinal,
provar da árvore do conhecimento do bem e do mal?
Herdar o inferno, viver com os demônios uma relação fraternal?
Tal fruto custou muito caro, 
mas não é ele a causa de todo o mal.
É a serpente, mas não ela somente, e o homem com o seu desejo de ter o que não podia, 
querer o que não lhe pertencia.

Como sorte, temos muitas dores, de brinde a morte,
vivendo uma vida curta, 
um espetáculo de horrores. 
Contudo, de tudo não perdemos
nossa dignidade e glória, 
temos a santa cruz, 
o bendito salvador Jesus!

Se os dois primeiros humanos
culpados ou inocentes são, 
não compete à minha memória, 
seja como for, são os nossos pais (carrascos ou benfeitores)
os donos da história!

Arredio


Sozinho em uma casa sombria, 
solitária e fria,
ele mora.
Com medo de tudo, 
de todos receoso, ele vai,
lava suas mãos na pia, 
de noite em seu quarto ora.

Sem motivos para sorrir, 
ele graceja.
Sem razões para se alegrar ele gargalha, talvez de si, da tristeza pestaneja.

Rir da própria desgraça é melhor do que rir da alheia. 
Então ele ri, não é pior do que um mendigo na praça, têm pelo menos calçado e meia.

Sem razões para amar,
ele simplesmente não ama.
Não crê no humano ser, 
mas não maquina maldades
na sua cama.

Não bebe, não fuma, 
não se droga.
Não têm vícios, 
talvez o seu maior defeito seja
não dizer, mas demostrar,
que quase nada o empolga. 

Não têm amigos, 
não têm mulher, 
não têm emprego. 
Seus parentes não o amam,
a morte não o quer,
sua vida é um constate desapego. 

Sozinho ele vai, 
só ele prossegue.
Sua mente em mil tormentos cai, o medo é seu amigo, o fracasso o segue.

Na casa sombria, solitária e fria, 
seu universo é vivido.
Seria o seu mundo 
o oposto do que é pedido?

Soloquios e encostos lhe são comuns. Estes vivem com ele,
não são muitos, só alguns, 
o perseguem todo o dia, 
lhe fazem pecar 
na casa solitária e fria.

Ele não têm amigos, 
mulher ou emprego. 
Sua vida é vivida em constante desapego, assim todos os dias, 
na casa solitária de paredes frias. 

Ele já não ama, não tem porque amar. Então ele segue seu ideal, 
nada o pode parar.

Sem amigos, mulher ou parentes, senão seu umbigo, 
seus míseros dentes.  
Como é ruim partir
sem se despedir!

Não há emprego, 
compromissos a cancelar.
Abruptamente risca o isqueiro,
seu fim vai chegar!

Ele sabe que pode se arrepender, mas não há tempo a perder. Está resoluto, nada o vai deter.

Lentamente, o fogo vai se alastrando, a casa fria se aquecendo, seu corpo de dores
retorcendo, a casa escura se iluminando, paredes duras derretendo. 

Em chamas se vai
a casa sombria, solitária e fria
junto com o seu maldito senhor. 
O que se pode esperar 
quando morre
a necessária chama de amor?

Já não há mais casa,
apenas cinzas.
Porém, seres do mal brincam, 
matam sua fome, saciam-se com a alma do pobre homem.

A casa sombria cheira a enxofre. 
Demônios a brincar lá estão, num riso despaterno, a brincadeira acabou, enfim arrastaram mais um idiota pro inferno!

Sozinho em sua casa solitária, sombria e fria, ele morre.
Anjos do mal a ver sua ruína correm.
Sim, assim cai, este é o seu fim,
desgraçadamente ele morre. 

Esta é a história que eu ouvi um dia da casa sombria, 
solitária e fria!

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Imensidão

Há um chão sob os meus pés 
e um céu sobre a minha cabeça. 
De dia, aquece-me o sol,
anoitece pra que eu adormeça. 

Sem névoa ou véu vejo as estrelas, tão belas e distantes. 
A lua é a rainha 
dentre os astros fulgurantes. 

No silêncio da noite sinto a solidão. Enquanto todos dormem, perguntas me assolam, o que sou eu nessa imensidão? 

Respostas clichês não resolvem, somente consolam.
Me perco neste mar de "porquês" que me vem uma e outra vez, 
me torturam, me consomem, me dissolvem. 

Queria ter asas para voar,
no infinito me perder.
Mas só tenho um coração para amar, olhos para ver, 
mãos para tocar,
uma mente para sonhar 
com o que posso 
e não posso ter.

No meio das aglomerações,
eu sou apenas mais um. 
Um entre milhões 
que se perdem nas multidões.
Incontáveis saindo do ventre materno e voltando para o seio da mãe-terra, o nosso lugar comum.

Almas que se esbarram e não se vêem, que se estudam e não se lêem,
se cruzam e não se falam,
que juntas padecem
mas não se conhecem.

Passam-se os anos, mudam-se os planos, trocam-se as estações. 
As crianças crescem, os jardins florescem, as filhas tornam-se mães.

Tudo se renova, 
mas no fundo continua igual. 
Viver é uma prova que não importa a nota,
não altera o resultado final.

O amor alivia a dor,
mas não a preenche.
A lágrima é amarga 
mas é sempre sincera.

Mais amarga é a espera
daquilo que não têm cor,
forma nem sabor, 
o nome todos sabem
mas não a viu ninguém:
Felicidade, é real,
será verdade?

Lembrar não é um mal,
mas esquecer é um grande bem.
Há beleza até nesse lado do inferno, onde o sofrimento, ainda que seja só um momento, parece eterno.

Rapidamente envelhecendo,
diariamente renascendo,
vou vivendo com a certeza de nada saber, de apenas sorrir, apenas chorar, apenas sentir, 
apenas ser.

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

Nostalgia

Para onde vão 
os adeuses não ditos, 
os amores não vividos, 
os sonhos perdidos, 
as lágrimas não derramadas? 

Para onde vão 
as vitórias que não foram celebradas, 
as homenagens que não foram dadas,
tudo o que quisemos e não tivemos, nossos amigos de infância, os nossos camaradas? 

Para onde vão 
a nossa primeira professora, o lápis, papel e tesoura, 
nossa primeira bola, 
os tempos de escola, 
nossos dias mais belos 
e sentimentos singelos? 

Para onde vão 
todas as emoções
das mais nobres recordações? 
Para onde vai 
o que no tempo se perde, 
um instante feliz, 
um bem que a vida nos concede?