domingo, 22 de janeiro de 2023

Descartável

Nunca diga que não vai me esquecer 
pois você não sabe o que diz.
Você não me ama pelo que sou 
nem por algo que fiz,
mas pelo que vê e o que de mim pode obter,
pelo prazer que lhe dou. 

Nunca diga que sou o melhor 
pois você não conhece todos 
para eleger quem é o maior.
De todo modo, como poderia saber quem é o pior?

Nunca diga que não vai me deixar, 
pois se isto disser, vou crer que será a primeira pessoa a me abandonar. 
Não prometa o que não pode cumprir, 
o tempo de todos caçoa,
você pode mudar 
e eu sua atenção irei exigir. 

Nunca diga que me conhece
pois você não sabe o que penso.
Eu lhe mostro o que quero,
de mim cada um recebe o que oferece, 
os preconceitos ignoro-os e venço,
nada invento e de ninguém espero.

Eu sei o que digo, 
este é o lema que sigo.
Não se engane tentando me enganar,
não queira se decepcionar.
Tudo é frágil, comercial e perecível, 
para o bem ou para o mal, 
nada é para sempre, 
e ninguém é insubstituível. 


Bela misteriosa

Sempre quando pego o ônibus para ir trabalhar 
vejo uma jovem de incomum beleza
sentada em seu lugar.

Olhos azuis cor d' água, simulam frieza 
mas estão a tudo atentos, não param de observar. 
Não refletem alegria, mágoa tampouco,
ocasionalmente apenas entretidos na tela do celular.

Olho-a várias vezes, como um louco,
sem palavras lhe dirigir. 
O que diria à ela para uma conversa iniciar, 
o que devo proferir? 

Têm um porte elegante, 
é branca e loura.
Senta-se quase sempre à janela,
respirando do ar que entra por ela,
deixando-se iluminar pelo sol que seus fios doura.

Pouco a ouvi falar, mas quando o fez
não foi de desapontar. 
Um senhor um sorriso lhe arrancou,
não sei o que lhe falou, 
esta foi a única vez.

Perto dela poucos ousam se sentar,
diante de uma moça tão formosa chegam a se intimidar. 
Desci do ônibus, nessas coisas pensando, de relance para os lados olhando e percebi, 
oh! a bela misteriosa estava a me olhar!


Desencontro

Novamente te procurei e não te vi.
Onde você está não sei,
mas deveria estar aqui. 

Perdi o meu tempo e dinheiro 
esperando te encontrar,
acho que sou o primeiro 
que em você não pára de pensar.

Você quebrou o meu encanto,
pra você não significou nada
mas pra mim importou - e quanto!
Talvez isso tenha sido um erro,
uma doce cilada. 

Para você eu fui só mais um, 
mas pra mim você não foi só mais uma.
É difícil não ter sentimento algum 
quando o peito dói e a vontade de te ver jorra, espuma.

Você têm a cor do pecado,
a minha tentação. 
Bela mulata, te ter do meu lado 
é um devaneio, uma sonhadora ambição. 

Você me deixou dependente,
conseguiu balançar um coração carente.
E agora sumiu, onde está que não te vejo?
Volta, minha boca clama por mais um beijo!


domingo, 6 de novembro de 2022

O artista



Quanto pode durar um simples instante?
Quem pode fazer do fugaz e trivial algo belo e singelo,
e do banal importante?

Como transformar emoções
em obras geniais,
despertando sensações
naqueles que se deparam com as tais?

Artista, és tu este portador,
fruto raro entre os mortais,
nasceste para ser o receptor
das inquietações de teus iguais!

Nômade errante, vagas incerto
pintando com as cores da tua alma tudo aquilo que te aflige e te tira a calma.

Vives só, no teu árido deserto, és inconstante mas não distante, te preocupas tanto com o que não podes mudar,
às vezes permites cair o pranto
e num lamento chorar.

Mas tu não morrerás como os demais, ainda que deste mundo fazes parte.
Eternizaste o comum,
materializando o real de forma incomum,
deixaste obras atemporais,
para sempre viverás na tua arte!

Tiroteio na escola


Muitos desaforos tolerados,
tantos insultos injustamente lançados, não podia ficar impune.
Tudo o que vai volta,
toda ação têm uma reação
e contra ela ninguém está imune.

Vocês mexeram com a pessoa errada
e vão descobrir isso tarde demais!
Não é correto dizer que alguém é inútil e não vale nada, isto nunca se faz.

Absorvendo tudo o que é fútil,
vocês se acham os tais.
Zombam dos seus colegas,
desprezam os diferentes,
estranhos e "anormais".

Logo vocês verão que todos são gente,
na dor somos iguais.
Mas não terão pra onde correr,
só lhes restarão lutar para viver,
se conseguirem sobreviver!

Todo mundo é valente com uma arma na mão,
mas todos são covardes quando ofendem o próximo sem razão!

Vocês criaram um monstro e agora terão que suportá-lo.
Ele está aí, atirando pelos corredores da escola,
cheio de ira,
é tarde para dar-lhe flores
ou tentar lhe encher a bola.
Qual dos valentões que o humilhavam, empurravam e socavam, quem vai enfrentá-lo?

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

A porta



Há uma porta que leva para ninguém sabe onde.
Há uma porta que quando nela batem ninguém responde,
há uma porta que todos vêem
mas ninguém sabe que mistérios esconde.

Ela está sempre aberta
porém ninguém nela quer entrar.
Ela é pontual e certa
para na nossa estrada cruzar.

Dizem que quem nela entrou
o caminho de volta jamais trilhou.
Tudo o que nela entra
dos seus domínios nunca sai.
Ela arrebata à força,
o que nela adentra, afunda
sem saber para onde vai.

Ela não têm endereço fixo,
não têm localização,
dia ou hora certa.
Ela não têm prefixo,
está em todos os lugares,
aparece nos mares,
surge nos ares,
é eclética e democrática,
seu tamanho é colossal,
sua entrada é universal.

Esta porta a todos assombra,
todos a temem,
embora a todos acolha.
Não adianta dela fugir,
ela nos há de seguir,
atravessá-la não é uma escolha.

Desde o começo estamos
fadados a atravessar esse portal.
Dia após dia à ele avançamos
numa marcha acidental.

Há uma porta que leva para ninguém sabe onde.
Há uma porta que quando nela batem ninguém responde,
há uma porta que todos vêem,
mas ninguém sabe que mistérios esconde.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

In memoriam


Oh! Que grande paz me produzis, vós que nestas lápides repousais 
e sossegados dormis,
quietos e saciados estais.

Já não conheceis o amor e o ódio, a dor e o medo.
Como um campeão que após longa luta chega ao pódio, assim para vós encerrou-se a labuta, 
e desvendastes o grande segredo.

Acabou a longa caminhada que fizestes por via acidentada.
Tudo de uma vez em poeira se desfez, 
conquistas, glórias, perdas e fracassos 
para o sepulcro foram - deram em nada! 

Sem despedidas, adeuses e abraços,
alguns de vós partistes
e repentinamente desta vida saístes.
Outros, pouco a pouco perecestes, muito sofrestes, tivestes grande agonia, até que caístes na fatal letargia.

Indiferentes ao bem e o mal, a paz e a guerra,
no solo repousais,
herdastes o pó da terra.
Conhecestes uma paz transcendental,
finalmente descansais. 
Estais agora quietos, 
deitados e submersos,
e sossegados dormis,
dormis o sono dos séculos!