domingo, 22 de março de 2026

O tempo

Como é bom pensar 
nas horas vagas e perdidas, 
que já antes passaram,
lembrar das doces tardes quentes ou frias 
que há muito com o tempo voaram.

Tempo é um mistério 
que não posso desvendar.
Como tudo assim passa (voa!) no galope de um tique taque rígido, sério,
como, como se pode explicar?

Vão se com ele as pessoas, 
as más e também as boas, 
nesse caminho para trás ficar.
Levados são os costumes, os medos, 
os amores, as amizades, 
nesse longo cavalgar.

Passa correndo 
com nossas coisas levando.
Vai rápido como uma pena 
que com o vento vai voando.

Os choros perdidos, 
os risos soltos,
os momentos de dor e prazer, 
somem nele envoltos,
sem que nada se possa fazer.

Mas o tempo é maravilha, 
pois em nós deixa a lembrança 
em que é doce meditar.
Em nós deixa o tempo 
a saudade do dia, 
da tarde, das alegrias 
que não se podem agarrar!

Basta a lembrança 
da tarde ligeira, 
do doce roubado que ficou.
Oh, isso, como é bom saber, isso o tempo não levou!

Não levou nem levará.
Esta recordação fica, nada a roubará.
Pois não rouba o tempo 
as nossas saudades, 
não as pode levar.
Já basta a ele arrebatar consigo os fatos, 
e deixar-nos as lembranças para nelas pensar...


O vazio do tempo

São as horas vagas,
o sutil silêncio 
das emoções pagas.
O imenso e vil prazer 
de nada fazer em frações magras.

A vida acontece do lado de fora, e em menos de uma hora tudo nasce e floresce!

Mas comigo nada.
Olho para a estante 
por um instante, 
depois me molho na escada.

O tempo passa, 
os pensamentos não.
Os lamentos em massa...
em vão.

As emoções continuam 
em uma prisão sem fim!
As insoluções revoam,
em meu coração povoam 
trancadas a esmo em mim!

É esse problema 
por que choro e me aborreço.
Nele eu moro 
e não me esqueço...

A chave? Não há.
Peço para que ele se vá, 
mas ele fica.
Em vão tento 
na minha vida de exemplo 
expulsar a sorte má, 
esse vazio do tempo!

Três cães


Três cães dormem na rua. Um homem sorria.
Três cães dormem perto da carne crua
na névoa da noite fria.

Três cães destilam o abandono.
Três cães mostram ao mundo - e vão fundo -
o poder do sono.

Reina a corrupção,
a miséria e a desigualdade.
Pessoas sem ação 
passam reto, olhar discreto, dinheiro na mão,
sem sensibilidade.

Tudo ocorre.
Mas o que importa?
De nada vale a utopia, 
o abrir da porta do ralo e da pia.

Tudo ocorre.
O vento vem,
com ele o frio também!
Sem osso, sem dono, 
ao pé do abandono,
três cães dormem, perto da carne crua, 
na névoa da noite fria!

quinta-feira, 12 de março de 2026

A um cagão atrás da bananeira


Me chamara minha mãe 
com grande pressa 
para espreitar uma cena rara, a janela (testemunha travessa) fui, 
vi um ocorrido que se eu próprio não visse, não acreditara.

Nosso vizinho quase centenário vinha regar as plantas 
sempre no mesmo horário.
Porém não sabia que onde cuidava o velho de seus legumes,
deixava ele também os seus estrumes.

Dança ó debutante a sua mágica valsa!
Não te espantes com essa proeza torta!

Pois eu mesmo vi, por um instante, o velho descer a calça e com seu adubo estercar a horta!

quarta-feira, 11 de março de 2026

Da bondade humana sem Deus

Limpa-te ó pecador 
da nódoa do teu pecado.
Embalde o fazes, 
não podes cessar o clamor da tua consciência,
por ela és acusado.

Teus tesouros, teus bens, 
quanta opulência!
Mas de que te serve?
Roubaste os mouros,
assim conseguiste tudo o que tens,
a ira de tuas vítimas ainda ferve.

Olhas para baixo, 
como se fosses de alguma forma superior.
Não, não o és!
Estás na mesma lama 
do mesmo riacho, 
que levando vai a todos
para além do Equador.

Tu te crias mais elevado
e por isso sentias 
que merecias ser louvado por teus iguais.
Agora sabes que és um pobre coitado,
acordaste de teu sonho lúcido, 
és tão estúpido quanto os demais.

Já não lutas pela justiça, 
te conformas com toda essa carniça.
Estás indolente, vives dormente e hoje, quem diria - não te assustas com a monotonia.

Sabe o quanto te custa 
sair da cotidiana inércia 
e bravamente lutar?
Certamente sim, o sabes,
e por isso não queres o preço pagar.

É sempre mais fácil 
ser apenas mais um.
Em meio a multidão, 
onde se vêem todos 
não se vê nenhum.

Tu segues teu coração!
E acaso tens um?
Esse bem que fazes (julgas fazer) o fazes a quem?
Só para ti e para ninguém.

Há conquistas sem vitória, triunfos sem glória,
honra sem mérito.
E para que saibas o que te sucede, e assim cuide, 
és um soldado sem pátria,
um herói sem virtude! 

De como um pau branco causou rebuliço em uma terra de pretos

Andava o mancebo ocioso, 
quando recebera um convite nada brioso.
Sem resistir se deixou levar, ah, se soubera o que havia de vir, o que estava para chegar!

Uma mulata ousada lhe enviou fotos suas
mostrando suas partes nuas.
Em seguida lhe rogou:
 "Manda-me as tuas!"

O jovem lhe retribuiu o despudorado favor, 
sem pensar duas vezes
fotos de seu membro lhe enviou.

Começava ali o terror 
fruto da lasciva imprudência.
Um angolano o rapaz contatou 
dizendo ter das imorais fotos ciência.
Lhe disse que a moça é "de menor", o que muito lhe assustou, lhe pesou a consciência.

Ele então se justificou:
"Eu não sabia de nada, nunca soube! 
Eu só lhe devolvi a gentileza 
pois por tamanha fineza,
gratidão me coube!"

O angolano não quis saber e lhe ameaçou,
disse-lhe: "O senhor é adulto, portar-se é o seu dever, neste mundo tão astuto."

E acrescentou: "A rapariga levou uma sova, 
pois sua mãe lhe flagrou 
vendo as fotos de alcova, 
ela está no hospital, a mãe na cadeia, 
grande é o mal que mercê causou, 
a coisa é feia."

"O senhor deve pagar uma indenização para resolvermos a situação." 
O moço ficou consternado, 
e decidido bloqueou o homem que queria 
extorquir seu dinheiro suado.

Aprendeu a nunca mais dividir o que vive em cuecas tão bem guardado.
Caiam raios, sequem açudes, jamais se deve enviar nudes!

Riu-se depois o inconsequente, e consigo pensou insolente:
"Não sei fazer fogueira esfregando gravetos, 
mas fogo em solo estrangeiro acendi,
ligeiro em apuros me meti,
que rebuliço causou um pau branco em terra de pretos!"

quarta-feira, 4 de março de 2026

Chance

Aqui estou, pensando em você. 
Mais um dia faltaste,
sozinho me deixaste,
triste eu vou, à sua mercê. 

Tem bela aparência, 
formosa ela é.
Essa linda menina
me encanta, fascina,
ah se uma chance eu tiver! 

Vi nos vales a pobreza 
e a solidão,
caminhei, somente eu sei, entre a sombra e a escuridão. 

São duros os dias de um solitário, 
a Deus cabe, somente ele sabe, quantos muros há, de agonias um diário! 

As horas são vagas,
o tempo penoso.
Só vive quem paga, 
aposta sua sorte 
e se faz feitoso.

Em um dia qualquer
eu te vi, 
alegre alegria,
triste agonia,
eu sorri. 
A mim disse, formosa mulher!

Tua beleza a mim alegra. 
Teu jeito tranquilo,
idílio de quem assim celebra! 

Mais nada quero
se assim suceder. 
Com o tempo espero 
o que almejo obter.

A bela aurora
perfeita hora 
de um dia qualquer. 
Sua beleza eu canto, 
seu amor me é pranto,
ah se uma chance eu tiver!