quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Hora de delírio

Hora de delírio! 
Escuto e discuto com minha alma, se sonho ou desperto, dentro ou na porta, se ela ainda vive em mim ou já é morta!

Cigarras cantam, pedem chuva ao bom Deus. 
Tudo isso é muito interessante,
me embriago deste canto
que também dá à mais um ano um adeus.

Hora de delírio!
Solitário e louco,
me vejo entre não poucos devaneios, infrutíferos anseios,
dentro de mim explode um grito, espreme-se o ser em seu sufoco!

Vejo os anos atrás,
um tempo que passou faz pouco, saudade viciante que em meu peito jaz, que de falar dela ficarei rouco. 

Hora de delírio!
Um menino feliz brincando vai,
feliz um tanto grande,
morrendo se vai sua alegria irradiante, na mesmice seu semblante cai.

Hora de delírio!
Que me faz escrever esses versos tortos, sem sentido como está o meu ser, 
abraçando na sorte de um desvario buscar consolo 
no disparate que protege os loucos!

Misantropia

Matai, ó Deus eu vos imploro 
minha misantropia que horrivelmente ameaça crescer a cada dia!
Sim, ó Pai, um fim nisso dai,
mudai minha mente, tirai-me dessa agonia. 

Já não suporto ver, conviver e ser um ser humano. 
Mas, errado demais isso vai 
contra o amor ao próximo pregado por Jesus, filho de nosso Senhor, Deus Pai.

Mas então, porquê razão 
tenho ojeriza a este ser?
Seria em vão, ou há motivos
para isto haver?
Digam-me então: que animal mata os próprios pais, rouba, destrói, calunia, fofoca, mente, corrompe, corrói, 
nem sempre na inocência 
mas por prazer?

Que bicho humilha a seu irmão 
por ele ser "inferior", sem se preocupar com a sua dor, os nobres sentimentos do seu pobre coração? 

Tudo isso e muito mais
obras do homem são. 
O "ser racional" faz-se perder a razão, comporta-se pior que um animal!

Mas ó Deus, eu vos peço 
tirai de mim tais indagações.
Sei que ao fazê-las perco minhas razões, pois o homem do qual também sou um,
é a mais nobre de todas as vossas muitas criações. 

Assim estou vos pedindo,
Senhor de tudo e de todos criador, dai-me do vosso amor!
Uma porção generosa 
concedei-me todo dia,
para aplicar ao meu coração e acabar enfim
com essa misantropia!

Poetas

Quem há de julgar-se sábio, 
senhor de si, sabichão e douto?
Dono da razão, conhecedor de quase tudo, das ciências um dominador, voraz e não pouco?

Que há de argumentar, 
assim dizer, para quem lhe arguir tal sujeito?
Se não há neste mundo certeza de nada, felicidade,
senão desrespeito, maldade,
desgraça sobre desgraças empilhada?

Pois eu vos digo 
sobre isso refletindo,
que não há quem assim possa ser! 
Mas o maior perigo é ser possível certas pessoas
acharem tais sujeitos ser!

O mundo, redemoinho inconstante e não pouco, cabe de tudo um pouco.
Tais pessoas que assim julgam ser, são aquelas que fazem versos, 
querem mudar o mundo, 
sem contudo nada pra isso fazer!
São malucos na verdade, 
por isto eu digo sem dificuldade:
Perece um poeta, morre um louco!

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

La muerte

Quero me embriagar do vinho inebriante, provar o mel mais doce e viciante que pode existir. 
Preciso dessa chama faiscante, flertar esse olhar misterioso, 
essa sombra a me seguir.

Quero tomar esse caminho sem volta, sozinho, meu destino assumir. 
Entrar nessa dança hipnótica, 
ouvir do mais raro som 
da música mais exótica. 

O perfume mais cheiroso, 
a flor mais bela.
O espinho mais furioso,
a mais gótica capela!

Reis e rainhas dela se vestiram com glória, em todas as eras, nos mais remotos séculos da história! 
Quero eu também usar dessa seda, tão preciosa coroa, 
tão desdenhada vitória!

Eia, avante, não recuo um instante da minha derradeira e definitiva sorte! Venha, provemos o andar galopante, tomemos esse cálice - sintamos a morte!

Dualismo

Aquele momento em que a alma, já cansada, insiste em sair do corpo, alçar vôo 
e liberdade, rumo ao infinito...
Está perturbada, quer sua cidade, onde tudo é mais fácil e bonito...

Quer se livrar desse corpo frágil, 
destrutivél e pecador...
Rumo ao eterno, imperecível,
o mundo dos espíritos, das luzes, do amor!

Ó alma, suporta com calma 
o duro fardo que te é imposto,
de habitar esse corpo e morrer com ele!
Dizem que tu és imortal,
não creio que seja, 
observa, vê, somos tão físicos como um animal!

Sim alma, aquieta dentro de mim, podes esperar a morte do meu corpo, que também será a tua sorte, o teu, o nosso fim!
Isto alma, aguenta firme, tu és minha e eu sou teu, 
estamos juntos, somos um só,
és tão somente o meu intelecto, 
a minha mente!
Tu não serás sem mim nem eu sem ti!

Não percas a calma 
ó querida alma! 
Pois a sorte do meu corpo será também a tua, já que não há sol sem lua, meu fim será o teu,
minha morte a tua!

domingo, 12 de dezembro de 2021

Donos da história


Queria ter estado lá esse dia, 
espiando entre as verdes moitas, ver o que aquelas duas almas, mentes e mãos afoitas
iriam fazer, o começo de tudo 
que mais tarde viria. 

Sem dúvida nenhuma 
a rastejante foi quem armou,
mas sem a ajuda deles 
não haveria tragédia alguma,
o barraco não desabaria 
como desabou!

Lúcifer, terrível e manipulador, sem maiores problemas a mãe de todos os viventes, enganou. 
Mas pudera, pois desejara em seu coração, em seu íntimo quisera, sonhar o pecado 
de ser a criatura tão sábia quanto o criador,
e caiu no mesmo erro
daquele que das trevas é senhor. 

Tal desejo, arrogante, prepotente, incitado pelo mal em forma de serpente, não podia terminar bem.
Sem saber o que faziam 
do fruto proibido comiam, 
a própria raça afundavam 
num caos, sem precedente tal.

Tornou-se então o homem mortal, o diabo seu pai.
Aprendeu o ódio e a guerra. 
É pó e volta à terra,
seu corpo aprodece,
e enterrado vai.

Que proveito houve, afinal,
provar da árvore do conhecimento do bem e do mal?
Herdar o inferno, viver com os demônios uma relação fraternal?
Tal fruto custou muito caro, 
mas não é ele a causa de todo o mal.
É a serpente, mas não ela somente, e o homem com o seu desejo de ter o que não podia, 
querer o que não lhe pertencia.

Como sorte, temos muitas dores, de brinde a morte,
vivendo uma vida curta, 
um espetáculo de horrores. 
Contudo, de tudo não perdemos
nossa dignidade e glória, 
temos a santa cruz, 
o bendito salvador Jesus!

Se os dois primeiros humanos
culpados ou inocentes são, 
não compete à minha memória, 
seja como for, são os nossos pais (carrascos ou benfeitores)
os donos da história!

Arredio


Sozinho em uma casa sombria, 
solitária e fria,
ele mora.
Com medo de tudo, 
de todos receoso, ele vai,
lava suas mãos na pia, 
de noite em seu quarto ora.

Sem motivos para sorrir, 
ele graceja.
Sem razões para se alegrar ele gargalha, talvez de si, da tristeza pestaneja.

Rir da própria desgraça é melhor do que rir da alheia. 
Então ele ri, não é pior do que um mendigo na praça, têm pelo menos calçado e meia.

Sem razões para amar,
ele simplesmente não ama.
Não crê no humano ser, 
mas não maquina maldades
na sua cama.

Não bebe, não fuma, 
não se droga.
Não têm vícios, 
talvez o seu maior defeito seja
não dizer, mas demostrar,
que quase nada o empolga. 

Não têm amigos, 
não têm mulher, 
não têm emprego. 
Seus parentes não o amam,
a morte não o quer,
sua vida é um constate desapego. 

Sozinho ele vai, 
só ele prossegue.
Sua mente em mil tormentos cai, o medo é seu amigo, o fracasso o segue.

Na casa sombria, solitária e fria, 
seu universo é vivido.
Seria o seu mundo 
o oposto do que é pedido?

Soloquios e encostos lhe são comuns. Estes vivem com ele,
não são muitos, só alguns, 
o perseguem todo o dia, 
lhe fazem pecar 
na casa solitária e fria.

Ele não têm amigos, 
mulher ou emprego. 
Sua vida é vivida em constante desapego, assim todos os dias, 
na casa solitária de paredes frias. 

Ele já não ama, não tem porque amar. Então ele segue seu ideal, 
nada o pode parar.

Sem amigos, mulher ou parentes, senão seu umbigo, 
seus míseros dentes.  
Como é ruim partir
sem se despedir!

Não há emprego, 
compromissos a cancelar.
Abruptamente risca o isqueiro,
seu fim vai chegar!

Ele sabe que pode se arrepender, mas não há tempo a perder. Está resoluto, nada o vai deter.

Lentamente, o fogo vai se alastrando, a casa fria se aquecendo, seu corpo de dores
retorcendo, a casa escura se iluminando, paredes duras derretendo. 

Em chamas se vai
a casa sombria, solitária e fria
junto com o seu maldito senhor. 
O que se pode esperar 
quando morre
a necessária chama de amor?

Já não há mais casa,
apenas cinzas.
Porém, seres do mal brincam, 
matam sua fome, saciam-se com a alma do pobre homem.

A casa sombria cheira a enxofre. 
Demônios a brincar lá estão, num riso despaterno, a brincadeira acabou, enfim arrastaram mais um idiota pro inferno!

Sozinho em sua casa solitária, sombria e fria, ele morre.
Anjos do mal a ver sua ruína correm.
Sim, assim cai, este é o seu fim,
desgraçadamente ele morre. 

Esta é a história que eu ouvi um dia da casa sombria, 
solitária e fria!