Corriam mansas as águas do riacho Belo. Por um bom tempo a paz e a tranquilidade reinavam no lugar. Mas quanto tempo isso duraria, ninguém sabia.
A terra vermelha, o chão seco e sem grama. A realidade dos vaqueiros e agricultores da pequena cidade de Cascata Grande não era das melhores. Eram os dias de um homem a quem giravam o poder e a fama construídos nem sempre de tão honesta forma...
Mas deixemos isto para depois, vamos descrever a origem da trama que se desenvolverá a seguir.
Pelos idos do cantão da comarca trabalhava Raimundo Diniz. Um pobre que muito suava e pouco ganhava. Como muitos, fazia serviços como plantar cana, roçar pasto e cuidar da criação. Era daqueles que a vida leva, sem instrução, não podia divergir.
Homem bruto, largou a escola e jovem já foi labutar. Provinha dele o sustento da família, assim como fazia o pai, que pegava obras não menos pesadas. Conheceu Rita Brandão, pela qual se apaixonou. Namoraram e se casaram. Moça de roça, moça de família.
Raimundo já não desfrutava da juventude. Tinha lá seus anos. No caso, 60. Com uma quantia de dinheiro razoável conseguira algumas cabeças de vaca. Não gozava fartura, tampouco padecia miséria.
Suas finanças estavam em crise e então decidiu (com o consentimento da mulher), vender algumas vacas. Com o dinheiro poderia resolver seus problemas, que por sinal não eram poucos.
Ofereceu aos boiadeiros da região. Não obteve boas respostas como esperava.
-Magra demais!
-Já dá leite?
-Não serve, não têm chifre!
-Preferia uma mais nova!
-Está com os dentes podres!
Para a surpresa de muitos e também a dele, quem gostou da proposta foi Onofre Teixeira. O velho fazendeiro, o _cowboy,_ o fora da lei! E o preço a ser pago não era de se recusar. A dúvida ficou no ar: aceitar ou não aceitar? Proposta aceita! O negócio estava fechado. Mas só seria concluído de fato mais pra frente, depois...
O trato havia sido feito. O velho fazendeiro pagou Raimundo muito bem pelas 3 cabeças. Dentro do prazo de uma semana, Diniz tocaria os bichos, já que o rio estavam em cheia e não seria nada fácil levar o gado nessa condição. Antes o tivesse levado. Quantos problemas não se criam por miúdos dilemas?
Já era o quinto dia do prazo e o rio não dava trégua. Raimundo precisava pensar em algo. Pois se continuasse assim a água não abaixaria o suficiente para atravessar. E o prazo estava acabando. Faltavam só 2 dias.
Veio o sexto, o sétimo dia. O rio ainda em cheia, com as enxurradas pegando uma outra casa perto da água. Não dava para passar nem se quisesse. Desistir do negócio não era uma boa idéia. Ele tinha outro caminho, não tão seguro, mas era a única carta na manga. Foi tocando o trio perto de uma ponte velha, única saída que dava pra fazenda. O barranco era alto, e a ponte... não estava na flor da idade.
O homem, já pequeno, encolheu. Tirou o chapéu de palha e coçou a barba. Algo dizia a ele para não ir. Os olhos esquivos, a barba branca e a roupa surrada, elementos que mostram um homem experiente mas que titubea em ouvir a si mesmo. Em seguir a sua intuição!
Pensou na esposa, no filho, no lar. Pensou em voltar e entregar as vacas depois. Não quis.
-É hoje, tem que ser agora!
A exclamação foi vaga. Como se hesitasse em avançar, mas tivesse a necessidade de ir. Resolveu arriscar.
Ouviu-se então um estalo. A madeira podre não aguentou o peso, e uma das três caiu. Logo depois uma, e a outra. O velho desesperou-se. Pensou em pular da ponte, em devolver o dinheiro (se não tivesse gastado). O que iria fazer? A primeira coisa que fez foi olhar para baixo. Não tinha jeito, não tinha volta. "A vaca foi pro brejo!" "E nem que a vaca tussa" Onofre aceitaria uma notícia daquelas. Raimundo pensava nisso e se apavorava. Não tinha outra saída, ia enfrentar a fera.
Os passos lentos de quem vai para o julgamento sendo o réu. Ele sabia do erro e não podia corrigí-lo. Se soubesse, nem teria fechado negócio. Ele se arrependeu amargamente.
A casa já podia ser avistada. Andou mais um pouco e decidiu. Ia assumir a culpa, custasse o que custasse. Segurou o medo. Aí estava, aí ficava.
Bateu palmas.
Na varanda, um homem alto, barba e cabelos grisalhos, chapéu e botas pesadas apareceu na porta.
Era o velho senhor Onofre Teixeira!
O homem indagou em alto e bom som, como quem não está para brincadeira:
-Cê já trouxe minhas vaca?
-Não senhor.
-Então que raio faz aqui?
-Vim fala sobre ela.
-Que há de ruim com as bicha?
-Caíram.
-De produção?
-Não senhor, de um barrancão.
-Todas as três?
-Sim, e de uma vez!
O fazendeiro não fez cara boa. Decidiu o que faria.
-Mostra o barranco. Eu analiso o caso.
Raimundo assentiu. Foram os dois, um em cada cavalo em direção a ponte de madeira. Com olhares de desconfiança, esperando o que o outro iria fazer. Secretamente, cada um pegou uma pistola. Era melhor se garantir...se fosse necessário.
O morro já se avistava. Ambos chegaram na ponte que ligava dois pastos e um córrego que com o tempo secou. O silêncio enfim foi quebrado.
-As patas tão quebrada. Elas num tem futuro.
Meio hesitante, Raimundo indagou:
-O que o senhor fará então?
-Não permitirei tamanha agonia. Vai ter churrasco e gole bão.
Onofre sacou o revólver do bolso. Carregou a munição. Uma salva de tiros se ouviu. Diniz assitia a cena calado, aguardando a sua sentença para a afronta feita.
-Quero meu dinheiro.
-Mas e-eu...
-Quero meu dinheiro.
-Mas, mas, mas...
-Já gastou tudo?
-S-sim...
Onofre seguiu frio e maléfico, com expressão sinistra. Do outro lado estava Raimundo, completamente preocupado.
-Me dá teu filho.
-Não posso, de modo algum!
-Me dá teu filho ou te mato!
-Não senhor, não!
-Ocê roeu meu dinheiro e quebrou as minhas vacas. Em troca quero um escravo, um trabalhador para compensar tamanho prejuízo.
Raimundo escondia o rosto. Não chorava, mas estava aflito. Onofre permanecia frio e maligno.
-Peste do inferno, tua teimosia será tua ruína!
Onofre apontou a pistola.
-Eu entrego meu filho, eu entrego!
Raimundo viu o movimento do fazendeiro e disse que o entregaria para se proteger. Mas debaixo do braço ele carregava um pesado tronco de pau, pronto para ser usado.
Teixeira fez o aceno para que se fossem. Deixaram os cavalos ali mesmo. Onofre queria ir a pé para evitar qualquer possibilidade de fuga de Diniz.
Grande parte do trajeto havia sido concluída quando Onofre parou no caminho. Apareceram dois jovens altos e robustos. Cães de guarda fiéis, seus capangas. Estavam lá para evitar qualquer represália.
Raimundo estava apavorado, sua pequena casa de pau a pique já estava próxima. Percebeu que se não fizesse nada, não teria mais jeito. Segurou firme o tronco.
A madeira atingiria em cheio Onofre se um dos "criados" não tivesse visto o movimento. Num pulo, Teixeira desviou-se do golpe.
Era a vez dos capangas agirem.
-Desgraçado, traidor! Tu vai morrer, tu vai morrer!
Onofre pediu que um dos rapazes saísse. O outro segurava Diniz firme, impedindo sua reação. Passados alguns instantes, o rapaz voltou.
Voltou com correntes e cadeados!
Raimundo Diniz estremeceu. Tentou correr, mas as fortes mãos do capanga não permitiam. Sabia o que iria acontecer.
Acorrentaram seus braços e pernas. Ele, em vão tentava se soltar. Impossível! Estava preso no tronco. E a chave...a chave fora jogada na mata!
Seus desespero foi grande. Chorou, gritou, se debateu. Os três homens se afastaram. Agora eram apenas três silhuetas. Não tinha como sair. Estava no meio da mata, no meio do nada. Sua sina foi traçada.
Seu corpo viraria carcaça para os urubus!
II
Rita Brandão se ocupava em tecer uma fina roupa para um de seus três filhos. Jair, o mais velho, contava vinte anos. Joel tinha dezesseis e Inácio, o caçula apenas dez. Três filhos, vastas despesas. Para quem as finanças são uma pataca, filhos saem caro. Mas valem a pena.
Por falar em filho, Inácio desejava mais um irmão. O que obviamente não foi aceito pelos pais, pois três já era suficiente. E três é mesmo um bom número: três vacas, três filhos, três...isso veremos depois. Não devo me adiantar.
Inácio era um menino feliz. Sempre observava a natureza e brincava no campo. Gostava da roça, sempre vivera na roça. Seus belos dias alegres ainda não haviam ruído...por enquanto.
Para o azar de todos, Jair e Joel estavam vendendo leite no centro de Cascata Grande. Só estava em casa Rita, por sua vez ocupada na máquina de costura. A casa era naturalmente isolada da zona urbana.
Os três homens avançaram rapidamente, comandados por Teixeira. Cercaram a casa. Num sinal do sinhô, invadiram o local, deixando a mulher muito espantada. A ação teria sido silenciosa se não fossem os gritos de desespero de Rita. Gritos esses abafados pelos malfeitores, que não queriam que o menino se assustasse. Rita, sem forças, tentava alertar o filho. Ele vira de longe e sabia que tudo aquilo era mau, assistia a tudo sem poder lutar, com seu corpo magro de criança e os olhos inocentes da idade. Assistia a tamanha barbaridade.
E poderia ser pior. Um dos capangas queria "usar" a mulher, mas Teixeira não deixou. Disse que não havia tempo, mas em outra ocasião talvez. A cena do rapto estava terminando. Rita caiu desmaiada, após tanto chorar e se agitar. O menino já não tentava fugir, não tinha como.
Onofre e um de seus homens saíram. O outro que ficou afastando-se do grupo teve uma idéia má. E nada o impedia de executá-la. Viu o paiol, as garrafas com álcool, a palha seca, a casa de pau a pique... Porquê não um gran finale? Sim, porquê não?
Teixeira aprovou a idéia.
Espalhou álcool pela casa e também ao derredor. Riscou um fósforo e soltou-o. O efeito foi quase imediato. Logo as chamas se alastraram pela casa.
Em pouco tempo o fogo podia ser visto de longe, bem longe.
Os três homens, Onofre Teixeira, Aribaldo e Felipe fugiram pela mata. Rapidamente alcançaram o caminho da fazenda. Estando lá, ninguém suspeitaria que foram eles os responsáveis pelo incêndio.
Grande foi o alvoroço na vizinhança por causa das chamas na casa de Rita. Voluntários saíram com baldes de água, apagando parte do fogo. Ainda não sabiam o que era feito da senhora Diniz, que estava presa lá. A notícia correu longe. Foi, foi, foi e chegou aos ouvidos de Jair e Joel.
Os jovens ficaram atônitos. Ainda assim, tiveram forças para agir. Em meio ao fogo, a brasa e a fumaça, a bravura e o amor falaram mais alto: resolveram arriscar-se para salvar a mãe.
Jair entrou primeiro.
Sufocado pelo forte calor, quase sem respirar, ele acenou para o irmão pedindo ajuda. Joel veio e procuraram em todos os cômodos a mãe. A fumaça já começava intoxicar. Felizmente, conseguiram encontrá-la!
Rita Brandão estava caída na sala.
Porém havia uma barreira entre os filhos e a mãe: parte do forro do teto que caiu e queimava. Mas entre essa muralha de fogo havia o amor de dois filhos por uma mãe. O fogo não seria obstáculo, não para eles.
Passaram pelo forro.
Quase sufocados, ajudaram a mãe muito fraca a se levantar. E foram para fora, a mãe amparada pelo seus dois filhos. Rita Brandão estava salva.
O povo comemorou. Os filhos conseguiram resgatar a mãe do inferno, a salvaram em meio ao fogaréu. Foi difícil...mas eles conseguiram!
Dentre os três, Rita estava mais debilitada. Sabia dos ocorridos mas ainda se encontrava muito atordoada para falar. Mas os dois irmãos não tinham pressa. Estavam demasiado tristes vendo as cinzas da casa que por muito tempo lhes serviu de lar.
Os voluntários já tinham ido embora, a casa se tornara em cinzas. Os três choravam, principalmente Rita. Os irmãos, apesar de todo o tumulto não tinham se esquecido de uma coisa: onde estava o caçula?
Foi então que Jair disse:
-Onde está o menino Inácio?
Entre lágrimas e soluços, Rita começou a falar:
-Levaram teu irmão!
Sem compreender, Jair perguntou agoniado:
-Quem o levou? Quem?
Veio a resposta:
-Os homens de Onofre Teixeira!
-Mas, mas... porque?
-Eu...eu também não sei. Eles vieram, me seguraram e agarraram o menino. Eles queriam fazer coisa pior comigo mas seu Teixeira não deixou. Depois saíram e queimaram a casa. Se não fosse vocês, eu não estaria aqui.
-Desgraçado, maldito! Ele vai ver só, ô se vai! Eu vou é lá buscar o menino e acabar com a raça do infeliz, ô se vou!
-Eu também vou!- Disse Joel.
-Tu fica!
-Ele também é meu irmão, eu tenho que ir!
Rita interveio.
-Não vão os dois. Onofre Teixeira é perigoso por demais para se arriscarem assim.
-Eu vou sim mãe, eu vou sim! Irmão meu não fica na casa de bandido, de jeito nenhum.
-Mas Jair...
-Nada disso, não tenho medo não. Eu vou acertar as contas e é agora!
O jovem montou no cavalo e foi rumo a fazenda Monte Azul. Armado de uma espingarda, levou também um punhal, segundo ele "para mor de uma luta no braço". Estava bem munido, mas não era o suficiente. Teixeira não era fácil de ser pego. Tinha muitos a sua disposição, prontos para avisá-lo de possíveis revoltas.
Um deles era Vitório.
Cachorro fiel como os outros, porém ainda mais capacho que os demais. Talvez por medo, talvez por pura vontade. Não se sabe. E como cão de guarda, fazia a ronda vespertina. Nunca em seus cinquenta e dois anos de vida (desses trinta deles servindo a Onofre) havia falhado em missão. Seus olhos arregalados, um bigode negro, calvo, usando chapéu, baixa estatura. Peso bom, nem gordo nem magro.
Atento, escondido numa moita no caminho de Monte Azul ele fazia a ronda. Joel não veio com Jair, ele viria depois caso fosse preciso, para trazer reforços se Onofre se recusasse a entregar Inácio.
Vitório avistou um homem montado a cavalo. De início não distinguiu quem era, mas logo logo analisou a feição de Jair e viu as armas que ele levava consigo.
Foi rápido contar a Teixeira.
Jair estranhou o breve barulho na moita, olhou para todos os lados e nada viu. Não se preocupou, julgou se tratar de algum tatu ou lagarto, comuns na região.
Vitório rápidamente contou ao seu chefe, que por sua vez não se importou. Agradeceu o lacaio e o dispensou. Preparou um plano cruel, e em sua expressão um sorriso irônico surgiu.
As patas pesadas do animal denunciavam a chegada de um ser vivente. Em nenhum momento o rapaz hesitou. A sede de vingança pelo rapto do irmão caçula, o sofrimento da mãe, a dor pela casa queimada o moviam. Ele não pensaria, não mudaria de ação. Custasse o que custasse, doesse a quem doesse, ele ia.
Onofre Teixeira nunca foi alguém com quem ele simpatizasse. Mas até então não havia feito nada de ruim com a sua família. Agora, tinha comprado briga com ele. Embora não entendesse o porquê de tanta maldade, só queria vingança.
A casa grande estava perto. Avançou mais rápido com o cavalo como quem corre o mundo e chega a um objetivo. A ansiedade e o ódio cresceram.
Ajeitou a arma e colocou a bala. A figura do fazendeiro apareceu. Teixeira, embora estivesse ameaçado, permanecia estranhamente calmo. A expressão serena de Onofre perturbou Jair.
Levantou a pistola.
Onofre ria calmamente, por dentro e por fora.
-E então garoto, não vai atirar? Atira, vai! Tu não é homem, moleque?
O ódio em Jair ferveu. O sangue esquentou.
-Cão, peste! Eu te mato, eu atiro, eu te mato, mato...ah, mato sim!
Colocou o dedo no gatilho.
Mas o tiro não saiu. Tamanha foi a surpresa ao ver o uniforme militar, a farda, a boina. Era ele, o sargento Ferreira com uma arma e o mandato de prisão em mãos.
A barba negra, o olhar severo, o corpo rijo. Desafiando Jair a atirar, a ir além.
Jair empalideceu. Suou frio. Deixou a arma tombar.
Onofre dava um sorriso maldoso. A reação de espanto de Jair, por si, já era uma vitória. O que aconteceria em frente, mais glorioso ainda.
-Vê então? Tu tens o crime. Eu...a justiça!
O rapaz odiava a si mesmo por ter perdido essa batalha. Onofre tinha um trunfo nas mãos. Disso o jovem podia se culpar.
-E então sargento Ferreira, não é ele um criminoso? O senhor presenciou uma tentativa de assassinato.
-Perfeitamente. Pego em flagrante, tentativa de homicídio.
O sargento trouxe as algemas.
Sem ação por um bom tempo, Jair se preparava para pegar a arma do chão. Não conseguiu pois Vitório o impediu, com um detestável ar de triunfo.
Jair foi algemado e levado pelo policial. Em seu canto, Teixeira sentia-se vitorioso. De fato, fora mais rápido que Jair. Mais um ponto ganho em seu jogo sujo e imoral.
Joel não imaginava o que aconteceu. Mas a sorte o desviou da casa de Teixeira, já que foi se entreter com um casal de patos que vira na beira do riacho.
Triste em seu canto estava Inácio que via tudo da greta de um porão. Amordaçado para não gritar e chamar atenção do sargento ou de alguém da casa. O garoto chorava. Foi separado da mãe, assistiu a prisão do irmão...e o pai? Não sabia o que era feito dele. Pobre menino. Pobre família. Desde então as coisas eram difíceis, penosas, sofríveis para ele.
O sargento Ferreira seguia levando Jair para a delegacia. Como é comum em cidades pequenas, curiosos olhavam a cena e comentavam. Entre os sussurros havia quem acusasse Jair e outros que acreditavam em sua inocência. Isto sem sequer saber do que ele era acusado.
Jair se mantinha quieto e calado. Sabia que nada tinha feito e nada temia. Já o sargento nem questionava a si mesmo, simplesmente cumpria as ordens.
Há um bom tempo não chegavam presos na delegacia. O delegado Serafim fumava um cigarro e folheava um jornal quando o sargento e Jair apareceram. O homem contava seus quarenta e sete anos, tinha cabelos castanhos, era alto e forte.
Serafim indagou o que Jair fez. O sargento respondeu. Pensou um pouco e providenciou uma cela para o rapaz. Arrancaram suas algemas, e após finalizar a ficha e o registro, entregaram Jair ao carcereiro. Este, por sua vez, o prendeu rápidamente.
Mas ele não se importava com isso. Sua consciência limpa já era um alívio. A única coisa que o incomodava era não saber como estariam seus pais e seus irmãos. Se não fizesse nada, nunca saberia como eles estavam. Nunca saberia mais nada deles e nem da cidade.
O que ele precisava era de um informante. Para ajudá-lo a agir do lado de fora ou talvez para fugir. Mas quem seria?
Pensou em Joel. Seu irmão o ajudaria. Sim, seu irmão não ia abandoná-lo. Como não? Abaixou a cabeça. Matutou um plano para acabar com Onofre Teixeira. Embora preso, ele não desistiu da vingança. A guerra ainda não acabou.
Joel chegou a fazenda mas estava hesitante em entrar lá. Lembrou da "bravura" que Teixeira tinha, da sua fama na região. Mas ele sabia que devia ajudar Jair, que se ele tinha tido coragem para chegar até lá, não podia recuar agora.
Onofre escutou o barulho do movimento da porteira e apareceu na varanda. O garoto começou a tremer as pernas ao ver a figura do velho fazendeiro. Notando o medo do menino, decidiu tirar proveito.
Pegou o rifle e começou a atirar.
O jovem correu apavorado logo no terceiro disparo, com medo de que Onofre viesse em sua direção.
Do outro lado, Inácio percebeu que suas chances de resgate diminuíam. Com a fuga de Joel, novamente uma tentativa de libertação fracassava.
Sendo assim, ele teria de sair de lá sozinho. Mas de que modo ele faria isso? Precisava de uma brecha. A porta do porão estava trancada. Era uma portinha de madeira, mas ele não tinha forças para derrubá-la, e também faria muito barulho. Possibilidade descartada.
Finalmente pensou numa saída.
Precisava convencer Teixeira a tirá-lo dali. O jeito era se mostrar confiável. Era isso o que ia fazer.
Rita encontrou Joel voltando afobado. Perguntou-lhe o motivo. Ele contou sobre os tiros para a mãe. Ela enfatizou que isso não era nada. Ela contou-lhe então a notícia que ouvira quando foi a rua, encontrar sua prima Mariana. Sem casa como estavam, necessitava um abrigo. Chorar pelas ruínas não traria a casa de volta. Mariana aceitou hospedá-los!
O filho se alegrou com a notícia do amparo. Mas se desfez com o que a mãe lhe disse em seguida.
-Prenderam teu irmão Jair.
Joel estremeceu.
-Verdade, senhora?
-Sim, comadre minha me contou. A fiança é absurdo. Se a gente tivesse casa...vendia para pagar. Nem isso temos. Não sei como vamos tirar teu irmão daquele bandido. Sem Jair, é difícil. E teu pai...ele sumiu. Se tivesse aqui, pegaria o dinheiro das vacas para resolver o caso. Mas ele não está. Não dá as caras desde manhã. A gente não sabe o porquê.
O filho pensou um pouco e falou:
-Também não entendo. Senhora têm razão. Pai foi entregar as vacas praquele maldito e não voltou até agora.
A mulher empalideceu.
-Entregar as vacas para o malvado Teixeira?
-Sim, mãe. Porquê?
-Não vi teu pai saindo. Que horas ele foi?
-De manhã bem cedo. Assim que o sol no azul se pôs.
-Diacho! É por isso que não vi ele na hora que coei café.
-Ele já deve estar aparecendo.
-Não, num deve não! Se foi encontrar com Onofre Teixeira, num deve não! Vai Joel, caça teu pai, caça!
Rita abriu uma pequena caixa que guardava no paiol em uma parte que o fogo não atingiu. Entregou-a ao filho.
-Ora, para quê isso minha mãe?
-Como para quê menino? Isso é para ti, para tu matar, esganar o infeliz de Onofre Teixeira, para tu te proteger dos perigos desse homem!
O garoto retirou o armamento. Tinha uma espingarda, uma pistola, uma peixeira e bastante munição. Carregava consigo um cartucho inteiro entrelaçado nas costas.
Pediu benção a mãe. Ela lhe concedeu.
-Mãe minha, tenho tua benção. Já é hora de partir para a batalha.
O jovem ajeitou o chapéu que há pouco pegou. Sua botina fazia grande barulho. Despediu-se da mãe, apressadamente. Não parecia mais um menino e sim um soldado caminhando ao combate, pronto para a guerra.
III
Inácio hesitava no que ia fazer. Decidiu-se então. Chamou por Teixeira. Uma, duas vezes. Na terceira foi atendido.
-Que berras tanto moleque?
Não era Teixeira, mas Vitório.
-Eu tenho que sair daqui. Eu preciso sair daqui.
-Não dá menino, não dá. Teu lugar é aí.
-Mas eu...
Vitório o cortou.
-É melhor calar a boca se não quiser apanhar!
A ameaça de Vitório foi o bastante. Inácio não insistiu. Logo em seguida, o lacaio fiel de Teixeira tomou seu rumo. Porém, antes, apareceu o seu chefe.
-Quê que o menino queria?
-Me pedia para sair. Mas eu disse que ia dar nele uma sova para deixar de enjoamento.
-Fez bem, fez muito bem.
Vitório se retirou. Preparou-se para fazer ronda na estrada, uma de suas muitas funções como criado de Onofre Teixeira.
O fazendeiro, por sua vez, aproximou-se do porão. Estava em uma de suas crises melancólicas, que assolam até os mais duros corações. Lembrava-se de fatos do seu passado...fatos muito marcantes em seus cinquenta e dois anos de vida. Lhe vinham _flashs_, imagens rápidas do passado de muitos anos atrás.
Via aquela formosa mulher a fitá-lo e sorrir. Pronta a beijá-lo, abraçá-lo. Dizendo seu nome. Era sua esposa, morta em uma acidente terrível na flor da idade.
Outra imagem era um menino. Arrastando um caminhão de brinquedo, sorrindo e o chamando. Seu filho. Também morto no mesmo acidente junto com a mãe. Morreu quase na mesma idade de Inácio, quase.
Parou de lembrar desses acontecimentos. Ou tentou parar. Inácio percebeu que estava sendo fitado mas decidiu continuar ali. A expressão severa de Teixeira não era muito boa.
Onofre enxugou os olhos lacrimejados. Avistou uma garrafa de cachaça destilada no alambique da fazenda. Abriu a tampa. Começou a beber.
Deixemos Onofre em seu lugar tomando pinga. Vitório dava um giro pela fazenda. Estava pensativo, olhava as paisagens reflexivamente.
O que estaria ele pensando ou imaginando? Certamente não seria sobre seus serviços. Nisso ele nunca pensou, sempre agiu.
Mas era nisso que pensava.
Porquê, em tantos anos nunca questionou o seu chefe? Porquê por muito tempo fez sempre o que lhe era ordenado? Talvez porquê não quisesse briga, talvez por medo ou...lealdade.
Lealdade a um homem que ele via cometer crimes hediondos. Ele presenciava e o ajudava. Vitório começou a ficar intrigado com tais idéias. Não tinham futuro esses pensamentos, deles não provinha coisa boa.
Vitório se levantou do banco em que sentara e partiu para a estrada. Tentou se distrair jogando pedrinhas em pássaros, o que era seu passatempo quando estava tenso.
Deixando Vitório em suas reflexões, podemos ver solitário em sua cela Jair. Ou Inácio que não saía do porão. Rita Brandão já levava algumas peças de roupa e objetos que não queimaram para a sua estadia com a prima Mariana. Dos demais falarei a seguir.
O dia que foi duro e cheio de acontecimentos chegava a seus últimos instantes. Mas, se assim posso dizer, a pessoa que mais sofria ainda não havia sido encontrada. A quem me refiro?
Raimundo Diniz. Amarrado por um dia sem poder sair. Sem água, sem comida, sem nada. Gritando por socorro e perdendo a voz. Diniz já perdia a esperança de conseguir sair de lá, de sobreviver.
A coisa podia ser pior, se não fosse a sua experiência de trabalhador no campo. Uma cobra coral passou entre as folhagens. Raimundo ficou imóvel por alguns minutos, até que por fim a serpente foi embora.
O roceiro pôde então expressar todo o seu medo e fobia, abafados por um instante. Ele tremeu inteiro, pensou no que aconteceria se aparecesse um escorpião, uma aranha caranguejeira, um bando de formigas lava pés...
O homem se desesperava. Não conseguia mais gritar socorro, conformou-se com a morte. Ele estava sem forças. Forças físicas e mentais.
O único consolo que tinha era saber que ele tentou salvar o filho, fez o que podia. Não conseguiu e terminou ali.
Diniz já estava triste sem saber dos ocorridos posteriores a seu cativeiro, seria ainda pior se soubesse. Mas ele poderia ajudar toda a família entregando o dinheiro das três vacas. Ele disse a Teixeira que gastou tudo mas era mentira. Ele simplesmente não queria devolver.
O fato é que se ele devolvesse, os problemas que aconteceram depois não teriam acontecido. Sua teimosia custou caro, e ele sabia disso.
Joel começou a procurar pelo pai ainda de dia. Olhou nos arredores da fazenda sem achar nada. Andava com cautela, procurando não ser visto por Teixeira e seus homens. Se fosse visto, precisaria fugir, o que retardadaria seu plano. Já estava cansado de procurar sem ter nenhuma pista. Temia que seu pai não estivesse vivo. Ou se ainda estivesse, sabia que sua demora podia ser decisiva para salvá-lo.
Precisava de um plano, um plano que não falhasse. Enquanto a idéia não vinha, o dia ia embora e começava a escurecer. O jovem pensava no que fazer quando viu o vulto de Vitório se aproximando acompanhado de outro homem. Não viu se estavam desarmados, mas lhe pareceu que não. Rápidamente, o garoto se escondeu entre as folhagens.
Os dois homens se aproximavam.
Pensou em ameaçar os dois para saber o que precisava, mas com certeza não teria chance com eles, fácilmente o pegariam. Continuou quieto, evitando fazer barulho.
Vitório olhou para o lado onde ele estava.
O servo fiel de Teixeira disse que ia pegar uma espingarda que esqueceu no mato enquanto caçava um tatu. Espantado, Joel percebeu que estava próximo da arma!
Felipe, o capanga que acompanhava Vitório disse que queria ele mesmo caçar o tatu e que usaria a espingarda para testar uns tiros. Vitório concordou e desejou boa sorte em sua tentativa.
O sangue de Joel gelava.
Felipe pediu para ver a arma novamente. Vitório abaixou-se rumo a moita.
Joel fechou os olhos, assustado. Não queria ver a cena. E não viu, ouviu. Um grito alto de dor se fez vindo da fazenda. Preocupados, Vitório e Felipe saíram do local para ver o que tinha acontecido.
Joel respirou aliviado.
O garoto não soube o que era e nem se preocupava em saber. Já era grande a salvação provinda dos céus! Concluiu que a área era perigosa demais para ficar e saiu de lá.
Mas uma idéia na cabeça o fez recuar.
A princípio, não se preocupou. Mas por um momento imaginou que algo ruim tivesse acontecido a Inácio. Precisava ter certeza de que o irmão estava bem.
Mas para entrar na casa de Teixeira sem chamar atenção precisaria distrair seus capangas. Assim, ficaria cara a cara com o vilão.
Havia uma ponte seca de bambu perto do casarão. O plano era prático. O único recurso que tinha em mãos.
Acendeu um isqueiro, que logo formou uma linha de fogo. Saiu dali e se dirigiu a casa. A fumaça chegaria a quilômetros se necessário.
Vitório notou o sinal e alertou os capangas para combaterem o fogo. Cada um foi levando água consigo.
Teixeira estava só em sua casa.
O garoto avançou. Todos os cômodos estavam vazios, e com a luz apagada. Dirigiu-se para a varanda. Onofre estava lá, caído no chão da varanda.
Teixeira o viu e balbuciou algumas palavras. Joel observou seu estado sem compreender e levantou a arma.
-É você Chico? Não devia estar na escola? Quê que ocê tá fazendo aqui agora?
Joel não entendeu.
-Seu moleque, não vai ganhar aquele jegue que te falei!
Joel percebeu o erro. Onofre Teixeira estava bêbado, completamente bêbado. Puxou-o então pela gola da blusa.
-Olha aqui seu desgraçado, se não falar onde está o meu pai...
-Seu pai? Que pai? Não sei do que cê tá falando...
-Sabe muito bem!
-Não há de ser o que eu esganei, o que eu joguei do morro, ou o que eu meti a bala, ou o que...
-Ou o quê?
Joel apontou o revólver para a cabeça de Teixeira.
-Ou o que há de ir vivo e amarrado pro inferno!
Nesse momento o rapaz ouviu dois homens gritarem.
-Olhem lá, ele está com o senhor Onofre na varanda!
-Peste, ateou fogo nos bambus!
Joel soltou o fazendeiro e correu sem que vissem o seu rosto. Os dois homens se preparavam para segui-lo mas foram impedidos.
-Eia, venham cá! Que cês tão pensando? Me ajudem a apagar o fogo no bambuzal.
-Mas nós vimos...
-O fogo primeiro!!
A ordem de Vitório foi obedecida. A dupla encheu os baldes de água e prosseguiram sua missão. Joel ganhou estrada, longe da fazenda. Por ora, era a vez de dar uma pausa, uma pausa estratégica.
Rumou para sua antiga casa queimada. No trajeto, buscava entender a última frase de Onofre Teixeira. Não compreendia. Talvez Jair pudesse entender. É o que ia fazer, falar com o irmão. Duas cabeças pensam melhor do que uma.
O lusco fusco da noite não ocultava suas armas. Esperou chegar a velha casa, achou a caixa e as guardou. Assim poderia sair sem chamar atenção dos demais, sereno e calmo.
Joel lembrou que fora visto na fazenda e que não podia ser achado na casa onde morou. Pensando nisso, foi se encontrar com a mãe onde passaria a noite, na casa da prima de segundo grau.
Ia contar a mãe o que fizera, falar sobre o pai e um plano que acabava de criar para libertar o irmão Jair.
IV
De manhã Onofre Teixeira acordou estranho. Estava machucado e não se lembrava como isso aconteceu. Viu o litro de cachaça. Só sabia que havia bebido. Nada mais. Ainda estava tonto de ressaca da noite anterior.
Aribaldo e Felipe viram o chefe se aproximar, só estavam ambos ali. Vitório tinha ido tratar de umas vacas no curral.
Onofre meio zonzo, cambaleando, chegou mais perto. Perguntou-lhes se sabiam o motivo de seu ferimento. Felipe já ia responder mas Aribaldo não deixou, lhe pisando no pé. A chance era perfeita.
-Eu sei sim, chefe. -Disse o peão.
-O que houve comigo?
-Foi seu fiel homem que lhe machucou.
-A quem, a quem se refere?
Felipe cochichou em seu ouvido um sinal de discordância. Novamente levou um pisão no pé.
-Vitório.
Teixeira ficou pensativo.
-Vitório, meu homem de confiança? Como?
-Se quer mesmo que eu conte...
-Conta sim! Começou e há de terminar!
-O menino que o senhor deixou no porão foi solto as custas de Vitório. O senhor reagiu mas ele não o ouviu. Quando o senhor foi pegar o guri a mor de prender, Vitório o empurrou da varanda, e de tão alta que é, o senhor ficou esfolado como está.
-Não pode ser verdade homem!
-É sim senhor! Eu e Aribaldo vimos e tentamos ajudar. Ele até quis quebrar a garrafa no senhor mas nós o seguramos. Prendemos o guri de volta, pois é como devia de ser!
-É verdade mesmo Felipe?
Terceiro pisão no pé.
-Faço minhas as palavras dele, senhor!
Onofre Teixeira ficou muito tempo calado. Não queria acreditar no que ouviu. Lembrou dos atos de Vitório. Não poderia fazer algo assim. Ou poderia? Poderia sim. Muitos anos de serviço e a primeira traição. Não sabia se duvidava mais. Levantou-se do banco e antes que Aribaldo e Felipe se retirassem, pediu-lhes um favor. Breve, bem simples.
Mandou chamar Vitório.
Com um sorriso maldoso, Aribaldo e Felipe foram. O segundo que a princípio discordava da idéia, vendo o bom resultado, se empolgava.
Vitório apareceu sem entender o porquê da interrupção de seu trabalho.
-Chamou patrão?
-Chamei sim. É bom me esclarecer uma história aí...
-Do que o senhor quer saber? -perguntou intrigado.
-Procede esse caso de que ocê me jogou da varanda?
-Não entendo.
-Como não entende, traidor? -Aribaldo interviu na conversa acendendo a fogueira.
-Deixe homem que eu mesmo resolvo isso -disse Teixeira.
-Mas do que o sinhô tá falando?
-Tu queria me atrapalhar, não queria?
-De modo algum chefe!
-E ainda acha que soltar prisioneiro sem ordem minha é bom!
-Soltar quem?
-Chega! Tua falsidade é o que mais me irrita!
-Eu não fiz nada...
-Calado! Pegue suas roupas, seus pertences e vá para longe de mim!
Vitório entendia agora o que se passava. Ele era vítima de um complô, e seu chefe tinha caído no golpe.
-Não há de ser melhor matar o traidor, chefe? -apimentou Aribaldo.
-Não, não. Eu sei o que faço. Mas se esse idiota não sumir rápido, posso mudar de idéia.
Vitório se retirou da varanda. Foi pro seu quarto, onde ajeitou rápidamente parte das roupas e armas. Não queria discutir com Teixeira. Para ele pouco importava. Se queria acreditar numa história sem pé nem cabeça e mal contada como aquela, que acreditasse.
Logo ele saiu, escoltado pelos até então colegas, agora inimigos e caluniadores. Antes de abrir a porteira e partir, ele gritou diretamente a Onofre, até pouco seu chefe:
-Um dia tu pagará pelo que fez, e pagará caro!
Aribaldo e Felipe sorriam. O plano deu certo, quem diria! Trapaça e sucesso formaram um belo par. Enquanto montava o cavalo, Vitório olhou para os dois e disse uma última frase:
-Não riam ainda. O que é de vocês está guardado.
O cavaleiro montou e se afastou da fazenda.
Enquanto Vitório largava sua vida de lacaio, Joel e Rita davam início ao plano de liberdade para Jair. A idéia de Joel era simples, um plano curto e grosso. Tudo daria certo se as coisas corressem como ele idealizou. O que se desenrolará a seguir, veremos nas linhas seguintes.
Rita Brandão pegou a embornália e saiu. Despediu da prima e deu um tchau para o filho, o que significava para eles um "Ok, vou fazer o combinado".
A mulher pisou na estrada, firme e decidida a concluir o plano. Foi pensando em libertar o filho com novo ânimo. Antes considerou absurda a idéia de Joel. Agora via que era a única solução. Ela não se preocupava mais com a lei. A lei não ajudou seu filho. Se houvesse lei na cidade, nem preso seu filho estaria.
Se tivessem dinheiro poderiam pagar a fiança ou um advogado. Nem uma das opções estava ao alcance deles. Só uma bela rota de fuga viria a calhar. Era hora de fazer justiça com as próprias mãos, mostrar as autoridades capachos de Onofre Teixeira que isso não ficaria assim.
Adiantemos os minutos de estrada enfrentados por Rita. Para não cansar o leitor que pacientemente acompanha o texto, basta imaginar muito mato, bois, pastos e terra, que é a vista predominante do local. E uma e outra casa pequena isolada em alguns pontos que ligam a roça até a cidade.
Chegamos até a delegacia. Uma pequena construção onde as "autoridades" mais dormiam do que trabalhavam.
Rita chegou e foi atendida pelo delegado, que a perguntou do que se tratava a vinda.
-Quero ver meu filho delegado.
-Quem é?
-Jair Brandão Diniz.
-Jair... Jair...vejamos.
O delegado analisou uma caderneta com a ficha de presos. Embora a cadeia fosse pequena, ela também abrigava detentos de cidades vizinhas.
-A senhora se refere ao rapaz que prendemos ontem. Me mostre o que têm nessa bolsa.
Rita estendeu a bolsa, examinada atentamente pelo delegado.
-Comida pode ser levada. Sargento Ferreira, acompanhe a senhora até a cela do detento.
O sargento acompanhou Rita. Secretamente ela tirou o revólver que trazia escondido e guardou-o na embornália. O plano estava quase concluído.
-Mãe! -disse Jair surpreso.
-Filho eu tenho um plano.
-Qual?
-Não vou dizer. Toma aqui teu almoço. Faça tua parte, só depende de ti.
Rita entregou a bolsa a Jair.
-A senhora não sabe o quanto me alegra te ver por aqui. É horrível estar preso.
-Eu imagino como é. Se tudo correr como o planejado, teu pesadelo está perto de acabar.
-Perto? Como assim?
-Não hei de dizer. Tu saberás.
Rita Brandão se retirou. O filho ficou perplexo. O sargento a acompanhou. Não viu nada demais na cena que foi sobretudo gestos e sussuros.
Rita deixou a delegacia. Sua parte estava feita.
Joel que mal comera de manhã, voltava para a casa incendiada onde deixou suas armas. Pretendia fazer uma nova busca pelo pai e não podia ir desarmado. Estava disposto a enfrentar Onofre Teixeira se fosse necessário.
Chegando lá, teve uma surpresa, não sabia se recuava ou avançava. Avistou um homem a cavalo com a bolsa cheia de pertences.
Era Vitório, observando as cinzas.
Joel avançou, não lhe importava o que visse. Afinal, aquela era a sua casa. Queimada, mas era dele! Joel se dirigiu para o lugar onde foi o paiol, segurou a caixa de madeira que tanto protegia.
Pegou a pistola e recarregou.
Vitório percebeu a desconfiança do garoto. Apeou do cavalo, tentando esclarecer as desconfianças dele.
Joel levantou o revólver apontando para Vitório.
-Larga isso. Tu não precisa disso não. -o homem disse calmamente.
-E porquê não? Tu és capacho de Onofre Teixeira, estás aí para destruir minha família!
-Em muito se engana. Não nego que o servi por muitos anos, mas não o sirvo mais.
O garoto desconfiava.
-Como não? Botou fogo em minha casa, sumiu com meu pai, roubou meu irmão!
-Entendo o que tu dizes. Presenciei tudo isso, mas agora não o faço mais.
-E porquê não?
-Fui traído. Os anos de trabalho que prestei aquele cão não me bastaram. Ele acreditou numa história falsa contada pelos capangas dele, fui expulso da fazenda Monte Azul e não quero voltar a trabalhar para aquele canalha.
-Quem me garante isso?
-A minha palavra é a minha garantia.
Joel abaixou a pistola.
-Cê pode dizer a verdade. Mas só vou crer se me disser algo que sabe.
-Não há problema. Pode perguntar.
-Meu pai está sumido há um dia. Temo que teu chefe tenha feito algo de ruim com ele. Procurei mas não o achei. Tu sabes de alguma coisa?
Vitório hesitou um pouco em dizer. Mas se lembrou da injustiça que Teixeira fez e viu que não tinha nada a perder.
-Muito bem rapaz, eu te digo.
Joel olhou fundo em seus olhos, aguardando a resposta.
-Seu pai...depende da sorte dele para ainda estar vivo. Se não for homem de reza, ou não tiver santo protetor...já deve ter morrido!
Joel ficou trêmulo.
-O que...o que fizeram com ele?
-Há de ter calma e paciência. Teu pai Raimundo Diniz foi amarrado vivo num tronco de madeira, com correntes e cadeado.
"Há de ir vivo e amarrado pro inferno!" Agora Joel entendia o que Teixeira quis dizer. Seu pai corria risco de vida. A mercê do tempo, da sede, da fome e do frio. Tinha que agir. Embora assustado com o que ouviu, tinha que agir.
-Tu sabes onde o prenderam?
-Infelizmente não. Foram os outros capangas que me contaram.
-Se você não serve a Onofre, há de vir comigo. Vamos procurar o meu pai.
-Cê têm razão. Agora vou acabar com Onofre Teixeira para me vingar da humilhação que sofri. Sobe aí. Não podemos perder tempo.
Instantâneamente, Joel montou na garupa do animal. E os dois seguiram em direção a fazenda.
E pela fazenda, Aribaldo e Felipe comemoravam a expulsão de Vitório. Tinham conseguido a revanche do dia em que Vitório os flagrou mexendo em seu dinheiro e foi contar para o patrão. Teixeira quase os matou, mas não o fez a pedido de Vitório. Desde aquele dia, guardaram ódio dele e prometeram que na primeira oportunidade iam se vingar. E essa chance veio. Os dois sabiam perfeitamente que Teixeira tinha caído sozinho na noite em que se embriagou, mas também sabiam que ele não sabia disso...
Partiu de Aribaldo a idéia de acusar Vitório, e Felipe teve medo de que desse errado, mas após o êxito, considerava seu colega um gênio.
Agora sem Vitório no caminho, podiam roubar as riquezas do fazendeiro. Não haveria quem os impedisse.
Onofre tinha ido até o curral, vistoriar parte do seu terreno. Inácio não contava. Estando só os dois na casa, decidiram roubar.
Aribaldo puxou a porta do quarto de Teixeira e abriu a gaveta da cômoda. Por sorte, estava cheia. Tirou um emaranhado de notas e moedas. A quantia era boa. Teria roubado mais se não fosse o sinal de alerta de Felipe. Rápidamente, fechou a gaveta, a porta e pulou pela janela. Deixou tudo como estava, exceto as notas que guardou no bolso.
Onofre estava voltando. Tinha esquecido o machado com o qual cortaria lenha para fazer o almoço. Como Felipe viu, alertou o colega. Por pouco ele não foi descoberto.
Onofre chegou para preparar a comida. Não percebeu nada de errado com os criados. Felipe cochichou com Aribaldo se tinha conseguido o dinheiro, ele respondeu que sim. O ganancioso capanga se animou.
Deixemos a ganância de Aribaldo e Felipe e voltemos ao resgate de Raimundo Diniz. Vitório levava consigo ferramentas para libertar Diniz. Conhecia um trecho que dava para a fazenda e que ficava isolado dos demais. Suspeitou da ponte velha. Indicou ao rapaz que iam para lá. Joel achou brilhante o caminho, pois era o único que ele não tinha ido.
Vitório apressou o cavalo.
O matagal foi crescendo, ficando mais forte. Chegaram na velha ponte. Joel se espantou ao ver o corpo de três vacas. Eram justamente as três vacas que seu pai tinha vendido.
-Vamos seguir pela lado da ponte- disse Joel. -Meu pai passou por aqui.
O cavalo prosseguiu. No meio das árvores, Raimundo ouviu o trote do cavalo. Não importava se era malfeitores ou benfeitores, ele tinha que sair dali.
Raimundo gritou por socorro.
-Pare, pare aí! Tenho a impressão de ouvir uma voz.
-Tem razão. Há de ser teu pai!
Joel e Vitório desceram do cavalo e começaram a procurar entre os arbustos. A voz soou mais próxima. Foi soando próxima, tão próxima que finalmente o encontraram...ali estava Raimundo Diniz.
As emoções de pai e filho se misturaram. Um misto de alegria, espanto, felicidade, um pouco de cada. As correntes estavam bem presas. Joel pediu ao pai que aguardasse.
Vitório pegou a marreta.
Com um golpe preciso, ele quebrou o cadeado que prendia Diniz. Vindo de Vitório, ele temeu que o golpe mirasse ele, mas não era essa intenção. Raimundo estava livre!
Após o resgate, por fim removida a corrente, pai e filho deram um abraço de reencontro. O alívio da liberdade, da volta a vida! Embora fraco Raimundo caminhava normalmente. Vou poupar os parágrafos me abstendo de contar o que eles conversaram.
Diniz montou no cavalo puxado por Joel. Vitório ia a pé, acompanhando os dois. No caminho, Joel colocou o pai a par de tudo o que aconteceu enquanto ele estava preso. Tudo se esclarecia enquanto iam para casa.
Sobre Vitório, Diniz não se importava. Se ele ainda trabalhasse para Teixeira não o teria salvado. Confiava nele, assim como o filho. Ele seria um importante aliado para combater Teixeira.
O que mais entristeceu Diniz foi a casa queimada e o rapto de Inácio. Acerca da prisão de Jair ele estava tranquilo, pois Joel o garantiu que o irmão sairia da cadeia.
Estando concluído o resgate de Raimundo, deixo pai e filho esclarecendo os assuntos. É hora de voltar a Onofre Teixeira que acabava de almoçar. Inácio aceitou a comida. Comeu com muita fome, como um beduíno encontrando água.
Onofre estava mais amigável. Permitiu que o menino saísse do porão e desse um passeio na fazenda. Só não autorizou que se afastasse dela. Com medo de que fugisse ou até mesmo encontrasse o pai amarrado. Teixeira não imaginava o resgate.
Tudo isso foi feito sob poderosa escolta dos capangas, até devolverem Inácio ao porão. Novamente o garoto perdia os ares da liberdade. Voltava a sua masmorra.
Pelos cantos da casa, Aribaldo e Felipe dividiam o dinheiro. E com o êxito conquistado, tramavam um segundo roubo, ainda maior que o primeiro. A cobiça deles crescia.
Pela tarde, nada de extraordinário. Apenas o reencontro de Raimundo e Rita, já na casa da prima Mariana. Joel e Vitório faziam planos para o resgate de Inácio. E Onofre continuava quieto em seu canto.
Passada a tarde, chegamos a outro evento do dia. Nas horas calmas e vagas da prisão, Jair se preparava para fugir. O sol ia se pôr, caía a noite. O jantar seria servido. Jair queria evitar brigas. Do mais, apenas sua pontaria e um pouco de sorte seriam suficientes.
Quando o carcereiro apareceu, Jair se preparou. Pegou a pistola, já carregada. O homem entregava comida nas outras celas. Uma por uma, ele se aproximava. A hora estava próxima.
Enfim chegou na cela de Jair.
O preso apontou a arma para o carcereiro. Ameaçou matá-lo se não entregasse as chaves. Se gritasse por socorro, levaria um tiro. O carcereiro, transtornado, deixou o prato cair. Não tinha saída.
Entregou a chave.
Jair colocou a arma na cintura e abriu a cela, deu o primeiro passo fora das grades desde que tinha sido preso. Estava livre!
Correu livremente pelo corredor. O delegado o viu e levantou a arma. Em vão. Joel fez o sargento de refém.
Em poucos instantes, Jair corria a cidade. O delegado o seguiu mas não conseguiu alcançá-lo. O rapaz executou o plano com destreza.
-Peste! Foi a mãe dele que trouxe a arma!
O delegado estava furioso com o próprio erro.
-Que vamos fazer?
-O que vamos fazer, Antônio Ferreira? Vou caçar Jair. Vamos amanhã até a casa dele. Chame mais dois homens, porquê vai ter guerra!
Serafim acendeu um cigarro. Estava nervoso, tragava com raiva, como que para se acalmar.
Afobado, Jair chegou em casa. Mariana, prima de sua mãe, já estava ciente da fuga. Mesmo com medo, ela ajudava os demais.
Todos comemoravam a volta de Jair. Quem não se empolgava era ela, Mariana. "Um foragido da justiça na minha casa!", pensava ela. Ninguém percebeu a preocupação de Mariana a não ser Vitório, mas este não disse nada.
V
Na manhã do dia seguinte, após tomarem o café, cada um montou no seu cavalo. Despediram-se das mulheres que aguardariam ansiosamente a volta deles.
Vitório, Raimundo Diniz, Jair e Joel partiam ao resgate de Inácio. Os quatro homens, três e meio se preferir, iam com tudo. Inácio ia sair daquela casa, por bem ou por mal.
O que ninguém contava era com as buscas do delegado Serafim. Isso poderia frustar os planos de nossos gentis homens...
Serafim chegou a cavalo na casa de Mariana, a mulher se assustou com o militar. O delegado estava procurando na cidade, para ver se encontrava Jair em alguma das casas.
-Não há nenhum bandido fugido aqui, há?
-Não senhor, de forma alguma!
-É melhor eu revistar.
-Não faça isso!
A mulher o impediu que fosse a frente.
-Porque não?
-Porque eu sei onde eles estão.
-Nada de falsas coordenadas para atrapalhar a polícia. Se sabe, fala.
-Eu não estou mentindo doutor. Ele acabou de ir para a fazenda de Onofre Teixeira!
-Vou averiguar o que estás me dizendo. Tua palavra te exalta mulher, se verdade for!
O delegado e os militares saíram. Mariana respirou aliviada. O ocorrido não foi testemunhado, pois Rita havia se retirado e estava longe da sala no momento. Os homens montaram no cavalo e apertaram o passo. Serafim tinha pressa.
Mas quem chegava primeiro era o quarteto, pronto para guerrear. Aribaldo avistou os homens e largou os milhos que colhia e foi avisar Onofre, que ainda tomava seu café da manhã.
-Que deixem vir, ora! Não vão conseguir nada aqui. -bradou Teixeira.
O primeiro a passar pela porteira foi Raimundo. Onofre se espantou ao ver que ele tinha sobrevivido.
-Tem mais vida que um gato, homem!
-Espero que você também tenha, vai precisar -retrucou Diniz.
Olhando para Jair o fazendeiro zombou:
-Se quiser eu chamo o delegado.
-Só se for para te prender, bandido!
Jair acrescentou:
-Poupe as brincadeiras. É melhor entregar Inácio ou por bem -Jair levantou o revólver- ou por mal!
O fazendeiro continuava sereno e sarcástico. Como se não fosse com ele.
-Se quiser, pode vir buscar!
Após dizer isso, apareceram Aribaldo e Felipe, fortemente armados. Jair fez um sinal para recuarem. Não podiam passar pela linha de fogo a frente deles. Tinha de pensar numa saída. Mesmo com um homem a mais, havia um grande risco de alguém ser ferido.
O delegado surgiu nesse exato momento. Viu a cena e já não sabia quem ameaçava quem. Deu um passo a frente.
Onofre aproveitou sua chegada.
-Que bom que apareceu delegado. Estes homens e até o garoto querem me matar. Se não viesse agora, eu estaria morto.
Jair se manifestou:
-É mentira delegado! Ele raptou meu irmão e agora viemos buscá-lo!
O delegado disse:
-Com essas armas? Você é foragido, não acredito em bandidos.
Onofre sorriu.
-Mas eles também estão armados! Se não acredita, porquê não olha a casa dele?- disse Jair, pronto a derrubar o fazendeiro.
-Não é necessário delegado. É acreditar em mim ou nesse criminoso.
O delegado o fitou desconfiado, Vitório aqueceu a fogueira:
-Pode olhar delegado, se não achar o guri, pode prender todos nós! Pode prender, não vamos fugir!
O delegado pensou. Onofre e os capangas se assustaram.
-Não precisa delegado, eu não minto! -Onofre disse.
-Se não mente, não há mal nenhum em fazer uma revista. -o delegado respondeu severamente.
Onofre ficou pálido. O delegado avançava firmemente. Como aquele carro sem freio prestes a levá-lo, prestes a esmagá-lo! Como o maldito carro de boi! Aquele infeliz carro desenfreado! O carro desgovernado que esmagou seu filho Chico e sua esposa Delma!
O carro que por uma falha nas peças soltou as rodas. O carro em que fugiram os bois, descolou a carroceria e capotou em cheio encima de Chico e Delma!
O maldito carro! Raimundo Diniz, o responsável pela morte deles! Um erro mortal! Uma carga fatal! O erro que custou a vida de sua amada esposa e seu pequeno filho!
Ele recordava com ódio tudo isso. O carro era de Raimundo, o erro era de Raimundo, a culpa era de Raimundo! E agora...outro filho lhe era tirado! Não podia permitir isso! Depois de trinta anos, o drama se repetia!
Onofre sacou a arma e disparou no delegado. O tiro passou muito perto. Sargento ferreira de um salto conseguiu empurrar para o chão o delegado, salvando-lhe a vida. Onofre gritou aos capangas que atirassem. Aribaldo recuou, mas Felipe o animou. Um dos tiros acertou de raspão Onofre Teixeira.
Ainda mais furioso, ele mirou Raimundo. Por sorte, ele conseguiu desviar. Todos os presentes participavam do tiroteio. Os guardas, treinados, se desviavam com precisão. Os quatros se escondiam (e protegiam) numa moita, sempre esquivando. Um ataque de fúria tomou conta de Teixeira. Inácio, o pivô de tudo aquilo, daquela guerra, era ele quem devia morrer!
Raimundo percebeu o que ia acontecer. Num gesto de amor paternal, forte e inexplicável, ele puxou o gatilho. Ele devia proteger sua cria, seu sangue! O tiro acertou em cheio o alvo. Não houve escapatória.
O tiro pegou, acertou em cheio Onofre Teixeira. Aribaldo gritou por trégua. Trégua concedida. Os capangas se aproximaram do patrão ferido. Ferido e delirante.
-Carro de boi...carro de boi...
A voz do fazendeiro sumia. Suas últimas palavras foram ditas. Um tiro no peito, certeiro e fatal. Onofre Teixeira, o poderoso Onofre Teixeira estava morto!
Os capangas deram a notícia. O delegado ordenou a prisão de Aribaldo e Felipe. Os dois não relutaram, atordoados pela morte do patrão. Foram presos com o dinheiro no bolso, o mesmo dinheiro que há pouco roubaram de Onofre.
Um silêncio pairou no local. Só foi quebrado quando Joel lembrou de que ainda faltava encontrarem Inácio.
Os policiais acharam Inácio no porão. Arrombaram a velha porta de madeira. Inácio estava livre!
O menino abraçou o pai e o irmão. O garoto se emocionou.
O delegado deu a sentença a Jair:
-Esse homem morto foi o responsável pela batalha que tivemos. Você foi e é inocente. Te declaro livre rapaz.
-Justiça feita. Você viu a verdade. Agora fez o que é justo.
Jair vibrou com a liberdade. O delegado se retirou, junto com o sargento e seus novos detidos. Restaram apenas a família e o ex capanga. Vitório tomou a palavra:
-Vamos voltar?
-Está certo. Já fizemos o que tínhamos para fazer. -disse Raimundo Diniz.
Os homens subiram em seus cavalos. O menino foi na garupa com o pai. De todos os presentes, Vitório foi o último a se retirar, olhando pensativo o corpo de Teixeira.
Voltando para a casa, os homens trouxeram as boas novas. Inácio de volta ao lar, Jair livre! Mariana assistiu a tudo e vibrou, não queria o primo preso pois sabia da sua inocência, apenas teve medo da polícia e fez o que fizera. Mas felizmente tudo saiu bem.
Raimundo foi até a casa queimada e encontrou o que procurava. Num canto, escondido, enterrado, estava o dinheiro. O dinheiro que usaria para viver melhor.
Na casa de Mariana, Diniz abraçou a mulher e os três filhos. E disse a esposa:
-Vamos recomeçar a vida Rita. Esta quantia dá para mudar de cidade...o que você quiser, meu amor!
Rita sorriu de felicidade. Os filhos também. Uma nova vida iria começar.
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